Autor: manancial

  • O que você está lendo?

    Todos nós fazemos muitas perguntas uns aos outros: “Onde você passou as férias?” “Como você dormiu?” Ou, minha favorita, enquanto olho os últimos pedaços de bolo de chocolate no prato de sobremesa de um amigo, “Você vai terminar isso?” (Uma pergunta apresentada de forma memorável no filme Diner de 1982.)
    Mas há uma pergunta que acho que devemos fazer uns aos outros com muito mais frequência, e é “O que você está lendo?”
    É uma pergunta simples, mas poderosa, e pode mudar vidas, criando um universo compartilhado para pessoas que de outra forma estão separadas por cultura e idade e por tempo e espaço.
    Lembro-me de uma mulher que me disse que adorava ser avó, mas sentia-se tristemente sem contato com o neto. Ela morava na Flórida. Ele e os pais moravam em outro lugar. Ela ligava para ele e perguntava sobre a escola, sobre seu dia. Ele sempre respondia com monossílabos: Tô bem. Nada. Não.
    E então um dia ela perguntou o que ele estava lendo. E ele tinha acabado de começar Jogos Vorazes, uma série de romances distópicos para jovens de Suzanne Collins. Essa avó decidiu ler o primeiro volume, para que pudesse conversar sobre isso com o neto na próxima vez ao telefone. Ela não sabia o que esperar, mas se viu fisgada nas primeiras páginas quando Katniss Everdeen se oferece para tomar o lugar de sua irmã mais nova na batalha anual até a morte entre um seleto grupo de adolescentes.

    O livro ajudou esta avó a superar as superficialidades da conversa por telefone e envolver seu neto nas questões mais importantes que os humanos enfrentam sobre sobrevivência, destruição, lealdade, traição, bem e mal, e também sobre política. E ajudou seu neto a se envolver com a avó nas mesmas questões – não como uma criança que precisava de um sermão, mas como um companheiro de busca. Isso lhe deu uma linguagem para discutir questões nas quais ele estava pensando, sem ter que explicar por que esses temas lhe importavam.
    Quando falavam sobre Jogos Vorazes, eles não eram mais apenas avó e neto: eram dois leitores que embarcaram em uma jornada juntos. Agora seu neto mal podia esperar para falar com ela quando ela ligasse – para dizer onde ele estava, para descobrir onde ela estava e para especular sobre o que aconteceria a seguir.
    Os Jogos Vorazes deram-lhes inspiração para discussões mais profundas do que nunca, e forneceu-lhes uma riqueza de sugestões para suas conversas. O livro até os levou a falar sobre tópicos que incluíam desigualdade econômica, guerra, privacidade e mídia. À medida que continuaram lendo e falando sobre outros livros, descobriram que tinham uma linguagem comum em constante expansão: seu “vocabulário” era composto de todos os personagens, ações e descrições em todos os livros que liam, e eles podiam usá-los para transmitir seus pensamentos e sentimentos.

    Além do acidente de ser da mesma família, eles nunca tiveram muito em comum. Agora tinham.

    Quando nos perguntamos “O que você está lendo?” às vezes descobrimos como somos semelhantes; às vezes as maneiras como somos diferentes. Às vezes, descobrimos coisas que nunca soubemos que compartilhávamos; outras vezes, nos abrimos para explorar novos mundos e ideias. “O que você está lendo?” não é uma pergunta simples quando feita com curiosidade genuína; é realmente uma maneira de perguntar: “Quem é você agora e quem você está se tornando?”

    Books for Living – Will Will Schwalbe

  • Bois Dormindo

    à Tomé Filgueira

    A paz dos bois dormindo era tamanha
    (mas grave era tristeza do seu sono)
    e tanto era o silêncio da campina
    que ouviam nascer as açucenas.
    No sono os bois seguiam tangerinos
    que abandonando relhos e chicotes
    tangiam-nos serenos com as cantigas
    aboiadeiras e um bastão de lírios.

    Os bois assim dormindo caminhavam
    destino não de bois mas de meninos
    libertos que vadiassem chão de feno;

    e ausentes de limites e porteiras
    arquitetassem sonhos (sem currais)
    nessa paz outonal de bois dormindo.

  • “Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.”
    G. K. Chesterton, Ortodoxia.
  • Dani Querida

    Tenho pensado muito em escrever. Não exatamente no que vou escrever e sim no ato de escrever.
    Escrever é registrar.
    Registrar é olhar em volta ou para dentro e ver e observar e analisar e sentir e perceber e conjecturar e projetar e racionalizar e enumerar e resumir e narrar e repetir-para-elaborar e planejar e compor e bolar planos infalíveis, resenhas infernais, súmulas inquietantes, relatos coloridos, listas comoventes.
    Registro é o que nos define.
    Somos os caras que registram.
    Antes da escrita registramos entalhando ossos e desenhando nas paredes de cavernas e nas superfícies das rochas, espalhando flores em torno dos corpos sepultados de nossos entes queridos, produzindo utensílios e tratando peles de animais.
    Depois da escrita, inventando símbolos, alfabetos rebuscados, tomos e mais tomos gramaticais e regras ilógicas sobre o uso do hífen em plaquinhas de argila, pergaminhos e papel de carta da Hello Kitty.

    Somos os caras que registram com nossos celulares, nossas publicações independentes, caderninhos de capa florida, guardanapos de boteco, nossos sites e nossa indignação seletiva aqui e ali na rede social.

    – Quem são aqueles caras ali? – vai perguntar alguém de passagem pelo planeta.
    – São os caras do registro – responderá o outro E.T. – Eles relatam o que veem e sentem, anotam e desenham, costuram e modelam, escrevem e solfejam, pintam as paredes mesmo sabendo que vão apanhar quando pai chegar em casa. Eles fotografam o risoto feio para o Instagram, gravam áudios de oito minutos para a Iza, guardam o sapatinho do bebê para muito depois que o bebê partir daquele mundo, produzem livros, colam recortes em caderninhos fofos, sobem cartas de amor para a nuvem, escrevem recados dolorosos enquanto ouvem o coração trincar e a chuva cair no meio da madrugada.

    Escolha uma coisa, Dan, uma coisa perto de você, e registre. Do jeito que você puder ou quiser. Com palavras, imagens, desenhos ou voz (vamos evitar, por enquanto, os ossos entalhados, meu bem).
    Faça seu registro, mande para mim.
    Vamos começar hoje as nossas aulas de redação?
    Fal

  • Adolescente

    Wislawa Szymborska

    Eu — adolescente?
    Se de repente ela me aparecesse aqui, agora,
    deveria saudá-la como a uma pessoa próxima,
    mesmo que me pareça estranha e distante?

    Derramar uma lágrima, beijar a testa
    somente pelo motivo
    de termos a mesma data de nascimento?

    Tanta dessemelhança entre nós
    que talvez só os ossos sejam os mesmos,
    o formato do crânio, as órbitas.

    Pois os olhos deles já parecem maiores,
    os cílios mais longos, a estatura mais alta
    e o corpo compactamente coberto
    de pele lisa, sem defeito.

    É verdade que nos unem parentes e amigos,
    mas no seu mundo quase todos estão vivos
    e no meu quase ninguém
    desse círculo comum.

    Tanto nos diferenciamos,
    de coisas tão diversas falamos, pensamos.
    Ela sabe pouco —
    mas com absoluta convicção.
    Eu sei muito mais —
    mas sem certezas.

    Me mostra os seus versos,
    escritos numa letra clara, caprichada,
    que eu já não tenho há anos.

    Leio esses versos, releio.
    Bom, talvez só este,
    se der para encurtar
    e corrigir aqui e ali.
    Para o resto não vejo futuro.

    A conversa não engata.
    No seu relógio pobre
    o tempo ainda é vacilante e barato.
    No meu, muito mais caro e preciso.

    Na despedida, nada: um sorriso casual
    e nenhuma emoção.

    Só quando some
    e na pressa esquece o cachecol.

    Um cachecol de pura lã,
    com listras coloridas,
    tricotado à mão para ela
    pela nossa mãe.

    Eu o guardo ainda.

  • Como Tomar Um Sorvete

    Umberto Eco

    Quando eu era pequeno, compravam-se dois tipos de sorvete para as crianças, vendidos em carrocinhas brancas com teto prateado: as casquinhas de dez centavos ou o biscoito de vinte. As casquinhas de dez centavos eram mínimas, cabiam perfeitamente na mão de uma criança e se confeccionavam tirando o sorvete do balde com a concha adequada e acumulando-o em cima do cone de massa. As avós nos aconselhavam a só comer uma parte da casquinha, jogando fora o fundo em ponta, porque havia sido tocado pela mão do sorveteiro (no entanto, era esta a parte melhor e mais crocante, todos a comiam escondidos, fingindo tê-la jogado fora).
    O biscoito de vinte centavos, a cialda, era confeccionado com um aparelho especial, também prateado, que comprimia duas superfícies circulares de massa contra uma seção cilíndrica de sorvete. Fazia-se correr a língua pelo interstício até ela não conseguir mais alcançar o núcleo central do sorvete, e a essa altura se comia tudo, pois as superfícies já estariam moles e devidamente impregnadas do néctar. As avós não tinham nada a dizer; em teoria, os biscoitos só tinham contato direto com a máquina: na prática o sorveteiro os pegava com as mãos para entregá-los, mas era impossível identificar a zona infectada.
    Eu sentia grande fascínio por alguns coetâneos meus cujos pais adquiriam não um biscoito de vinte centavos, mas duas casquinhas de dez. Estes privilegiados saíam desfilando orgulhosos com um sorvete na mão direita e outro na esquerda e, movendo com agilidade a cabeça, lambiam ora um ora outro. Esta liturgia me parecia tão suntuosamente invejável que muitas vezes pedi para poder celebrá-la. Em vão. Meus pais eram inflexíveis: um sorvete de vinte centavos sim, mas dois de dez centavos absolutamente não.
    Como todos podem ver, nem a matemática, nem a economia e nem a dietética justificavam esta recusa. E nem mesmo a higiene, contanto que depois se jogassem fora as extremidades dos dois cones. Uma piedosa justificação argumentava, na verdade falaciosamente, que um menino ocupado em ficar correndo os olhos de um sorvete para o outro estaria mais inclinado a tropeçar em pedras soltas, degraus ou irregularidades quaisquer do calçamento. De maneira obscura, eu intuía que devia haver algum outro motivo, cruelmente pedagógico, do qual porém não conseguia me dar conta.
    Hoje, habitante e vítima de uma sociedade de consumo e do desperdício (o que certamente não era o caso dos anos trinta), compreendo que aqueles meus entes queridos, hoje desaparecidos, estavam com a razão. Dois sorvetes de dez centavos em lugar de um de vinte não eram economicamente um desperdício, mas sem dúvida o eram simbolicamente. Por isso mesmo eu os desejava tanto: porque dois sorvetes sugeriam um excesso. E era justamente por isso que me eram negados: porque parecia uma indecência, um insulto à miséria, uma ostentação de privilégio fictício, um luxo injustificado. Só tomavam dois sorvetes as crianças estragadas, aquelas que eram justamente castigadas nas histórias, como Pinóquio quando desprezava a casca e o talo da maçã. E os pais que encorajavam esta fraqueza dos pequenos parvenus educavam os filhos no teatro idiota do “quero-mas-não-posso”, ou então os estavam preparando, como diríamos hoje, para se apresentarem ao check-in da classe turística portando um falso Gucci comprado num camelô da beira da praia de Rimini.
    Este apólogo corre o risco de parecer desprovido de moral, num mundo onde a sociedade de consumo tenta estragar também os adultos, e lhes promete sempre algo a mais, do reloginho incluído na embalagem à medalha oferecida para quem comprar a revista. Como os pais daqueles glutôes ambidestros que eu tanto invejava, a sociedade de consumo finge dar mais, mas na verdade dá por vinte centavos aquilo que vale vinte centavos. Jogamos fora o rádio velho para comprar o que promete também um toca-fitas auto-reverse, mas algumas inexplicáveis fraquezas da estrutura interna fazem com que o novo rádio dure somente um ano. O novo carro econômico tem assentos de couro, dois espelhos laterais reguláveis do interior e o painel em madeira, mas durará muito menos que a gloriosa Fiat 500 que, mesmo quando quebrava, sempre voltava a funcionar com um pontapé.
    Mas a moral daqueles tempos queria que fôssemos todos espartanos, e a de hoje quer nos transformar a todos em sibaritas.

  • Carta de amor de Richard Feynman

    Richard Feynman, um dos pais da bomba atômica, escreve em 1946 à sua esposa, Arline Greenbaum, falecida 16 meses antes:

    “Cara Arline,

    Eu adoro você, querida.

    Eu sei como você gosta de me ouvir, mas escrevo não apenas para agradá-la. Escrevo porque isso inunda de calor meu interior. Não escrevi por muito tempo, quase 2 anos. Mas sei que você vai me perdoar, um inveterado pragmático. Achava que não havia sentido algum em escrever para você.

    Mas agora, minha querida esposa, sei que devo fazer aquilo que adiei por muito tempo e que, com tanta frequência, fazia no passado. Quero dizer que amo você. Quero amá-la. Sempre a amarei.

    Com minha mente é difícil entender o que significa amá-la depois de morta, mas até agora quero protegê-la e cuidar de você. E eu quero que me ame e cuide de mim. Eu quero falar com você sobre os meus problemas. Eu quero fazer coisas diferentes com você. Até agora, isso nunca tinha me acontecido. Mas poderíamos fazer muitas coisas juntos: costurar roupas, aprender chinês, comprar um projetor de filmes. E agora, posso fazer isso? Não, estou tão sozinho sem você. Você foi o principal gerador de ideias e a fonte de inspiração para todas as minhas loucas aventuras.

    Quando estava doente, você se preocupava por não ser capaz de me dar o que eu precisava, o que queria me dar. Você não deveria ter se preocupado. Não havia necessidade disso. Eu sempre disse que a amava muito, simplesmente por existir. E agora entendo isso mais do que nunca. Você não pode me dar mais nada e eu amo tanto você que nunca poderei amar outra pessoa. E eu quero que seja assim. Porque até morta você é muito melhor do que todos os vivos.

    Eu sei que você vai dizer que sou um tolo e quer que eu seja feliz, sem se interpor no meu caminho. Provavelmente ficará surpresa ao saber que, durante esses 2 anos, eu não tive sequer uma namorada (exceto você, minha amada). E você não pode fazer nada a respeito. Eu também não posso. Não entendo nada. Conheci muitas garotas, incluindo algumas muito simpáticas, e não quero ficar sozinho, mas depois de alguns encontros, percebi que elas não significavam nada para mim. Eu só tenho você. Você é real.

    Minha querida esposa, eu adoro você.
    Eu amo a minha esposa. Minha esposa morreu.

    Rich

    P.S: Perdoe-me, por favor, por não ter lhe enviado esta carta: não sei seu novo endereço”.