Autor: manancial

  • Cinzas

    No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
    Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
    Tive filhos com dores.
    Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
    eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
    Não luto mais daquele modo histérico,
    entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
    e a seu modo pacifica.
    As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
    Meu apetite se aguça, estalo as juntas de boa impaciência.
    Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
    Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
    um copo mal lavado. Mas que importa?
    Que importam as cinzas,
    se há convertidos em sua matéria ingrata,
    até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
    Este vale é de lágrimas.
    Se disser de outra forma, mentirei.
    Hoje parece maio, um dia esplêndido,
    os que vamos morrer iremos aos mercados.
    O que há neste exílio que nos move?
    Digam-no os legumes sobraçados
    e esta elegia.
    O que escrevi, escrevi
    porque estava alegre.

    Adélia Prado

  • Repenso o mundo

    Repenso o mundo, segunda edição,
    segunda edição corrigida,
    aos idiotas o riso,
    aos tristes o pranto,
    aos carecas o pente,
    aos cães botas.
    Eis um capítulo:
    A Fala dos Bichos e das Plantas,
    com um glossário próprio
    para cada espécie.
    Mesmo um simples bom-dia
    trocado com um peixe,
    a ti, ao peixe, a todos
    na vida fortalece.
    Essa há muito pressentida,
    de súbito revelada,
    improvisação da mata.
    Essa épica das corujas!
    Esses aforismos do ouriço
    compostos quando imaginamos
    que, ora, está só adormecido!
    O tempo (capítulo dois)
    tem direito de se meter
    em tudo, coisa boa ou má.
    Porém — ele que pulveriza montanhas
    remove oceanos e está
    presente na órbita das estrelas,
    não terá o menor poder
    sobre os amantes, tão nus
    tão abraçados, com o coração alvoroçado
    como um pardal na mão pousado.
    A velhice é uma moral
    só na vida de um marginal.
    Ah, então todos são jovens!
    O sofrimento (capítulo três)
    não insulta o corpo.
    A morte
    chega com o sono.
    E vais sonhar
    que nem é preciso respirar,
    que o silêncio sem ar
    não é uma música má,
    pequeno como uma fagulha,
    a um toque te apagarás.
    Morrer, só assim. Dor mais dolorosa
    tiveste segurando nas mãos uma rosa
    e terror maior sentiste ao som
    de uma pétala caindo no chão.
    O mundo, só assim. Só assim
    viver. E morrer só esse tanto.
    E todo o resto — é como Bach
    tocado por um instante
    num serrote.
    Wisława Szymborska, Poemas

  • Nostalgia

    NOSTALGIA
    Havia uma macieira no quintal –
    terá sido
    há quarenta anos – atrás,
    apenas prados. Rastos
    de açafrão na relva húmida.
    Fiquei naquela janela:
    final de abril. A primavera
    nas flores no quintal vizinho.
    Quantas vezes, na verdade, floriu
    a árvore no meu aniversário,
    no dia exato, não
    antes, não depois? Substituição
    do imutável
    para o mutante, a evolução.
    Substituição da imagem
    pela terra implacável . Que
    eu sei sobre este lugar,
    o papel da árvore que por décadas
    parecia um bonsai, vozes
    vindo dos campos de ténis –
    Campos. Cheiro de relva alta, corte novo.
    Como se espera de um poeta lírico.
    Olhámos para o mundo uma vez, na infância.
    O resto é memória.

    LOUISE GLUCK, in MEADOWLANDS

    (Hopewell, New Jersey, 1996),

    tradução de CARLOS CAMPOS

  • O Sacristão

    O SACRISTÃOSomerset Maugham

    Houvera um batizado aquela tarde, na igreja de São Pedro, e Albert Edward Foreman ainda estava com sua batina de sacristão. Ele reservava sua melhor indumentária do cargo para casamentos e funerais, e a que usava naquele momento era a segunda melhor. Gostava de usar a batina, por ser um digno símbolo das suas funções, e se sentia insuficientemente vestido sem ela. Cuidava do traje com todo carinho, e durante os dezesseis anos no cargo tivera uma série delas, mas nunca fora capaz de jogá-las fora quando desgastadas pelo uso, guardando-as embrulhadas em papel marrom nas gavetas inferiores do guarda-roupa.
    Estava esperando apenas o vigário sair, para poder arrumar tudo, trancar a igreja e ir para casa. O vigário passou para o presbitério, fez uma genuflexão diante do altar e começou a caminhar numa das alas de bancos.
    — “Que será que ele está procurando? — pensou. — Ele devia perceber que eu tenho de ir para casa tomar o meu chá”.
    O vigário era um homem de seus quarenta anos, rosto corado e enérgico, que assumira o cargo recentemente. Albert ainda lamentava a perda do antecessor, um sacerdote da velha escola que pregava seus sermões monotonamente, com voz argêntea, e freqüentemente jantava com seus paroquianos mais aristocráticos. Gostava das coisas assim, não como esse novo vigário, que queria dar palpite em tudo. Mas Albert era tolerante, e nunca se agastava.
    A Igreja de São Pedro era muito bem localizada, com paroquianos muito distintos. O novo vigário estivera antes junto a paroquianos de outro nível social, e era natural que demorasse um pouco a se adaptar aos novos.
    — “Mudanças assim contundem as pessoas — pensava Albert, — mas ele acabará aprendendo”.
    Quando o vigário se aproximou de Albert a ponto de poder falar-lhe no tom de voz baixo adequado ao lugar sagrado, parou e o chamou.
    — Foreman, venha comigo à sacristia, que eu preciso conversar um pouco com você.
    — Pois não, senhor.
    Enquanto caminhavam juntos, Albert comentou:
    — Bonito batizado, senhor. E foi muito interessante como a criança parou de chorar exatamente quando o senhor a tomou nos braços.
    — Já notei que isso acontece com freqüência. De fato eu consegui boa prática em lidar com bebês.
    Albert ficou um tanto surpreso ao encontrar na sacristia os dois conselheiros da paróquia, que ele não vira entrar. Cumprimentou-os cortesmente. Eles ocupavam o conselho há muito tempo, quase tanto quanto o dele como sacristão. Estavam sentados atrás de uma grande mesa, e o vigário ocupou a cadeira vaga entre os dois. Albert sentou-se do outro lado da mesa, enquanto procurava, com certa intranqüilidade, descobrir o que podia ter acontecido. Lembrava-se de quando o organista criou uma encrenca, e dos aborrecimentos que os três tiveram para acertar as coisas. Numa igreja como a de São Pedro não se podiam admitir escândalos. O vigário tinha um ar de benevolência, mas os outros estavam um tanto a contra-gosto.

    (mais…)

  • A Vida Na Hora

    A VIDA NA HORA
    Cena sem ensaio.
    Corpo sem medida.
    Cabeça sem reflexão.
    Não sei o papel que desempenho.
    Só sei que é meu, impermutável.
    De que trata a peça
    devo adivinhar já em cena.
    Despreparada para a honra de viver,
    mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
    Improviso embora me repugne a improvisação.
    Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
    Meu jeito de ser cheira a província.
    Meus instintos são amadorismo.
    O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
    As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
    Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
    inacabada a contagem das estrelas,
    o caráter como o casaco às pressas abotoado
    eis os efeitos deploráveis desta urgência.
    Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
    ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
    Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
    conheço.
    Isso é justo — pergunto
    (com a voz rouca
    porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
    É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
    feita em acomodações provisórias. Não.
    De pé em meio à cena vejo como é sólida.
    Me impressiona a precisão de cada acessório.
    O palco giratório já opera há muito tempo.
    Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
    Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
    E o que quer que eu faça,
    vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

    Wisława Szymborska, Poemas

  • Patina-se sempre no nevoeiro sangrento, mas com algumas referências. O caos não está mais do que a alguns metros. Magro êxito, na verdade.
    Que contraste com O poder absoluto, milagroso, da leitura! Uma vida inteira lendo teria satisfeito os meus desejos. Isso eu já sabia aos sete anos de idade. A textura do mundo é dolorosa, inadequada; não me parece que se possa modificá-la. Realmente, acho que uma vida inteira lendo teria sido melhor para mim. Tal vida não me foi dada.

    Michel Houellebecq em Extensão do Domínio da Luta

  • Mãe

    A mulher fia o filho.
    No silêncio do corpo
    inaugura-se: mãe.
    O ventre: curvatura de sol
    levantando-se
    em mansidão de horizonte.
    De si própria se esquece:
    tecelã da rosa que já aflora
    em crescimento lento
    no seu sangue.
    Zila Mamede
    Mãe, poema do livro Exercício da Palavra, de 1975