Autor: manancial

  • Inevitável egoísmo da humanidade

    Quando for mais velho, compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. É absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que sacrificariam eles os seus desejos aos nossos? Quando quiser compreender que cada um, no mundo, se preocupa apenas consigo próprio, exigirá menos dos seus semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer.

    W. Somerset Maugham – Servidão Humana

  • As pessoas são fracas

    As pessoas são fracas.
    Ou amamos e perdoamos suas fraquezas, ou só as amaremos até o dia inevitável em que se revelarem fracas.
    Então, fraquejando diante da fraqueza alheia e sem a força para perdoar, descartaremos quem cometeu a fraqueza de se revelar tão fraca quanto nós.
    Quer fraqueza maior que essa?
    Alex Castro
  • O velho cardigã azul do pai

    Anne Carson

    Agora está pendurado no espaldar da cadeira da cozinha
    onde eu me sento sempre,
    no espaldar da cadeira da cozinha, onde ele sempre se sentava.

    Eu o visto toda vez que chego,
    como ele fazia, batendo as botas
    para tirar a neve.

    Eu o visto e me sento no escuro.
    Ele não teria feito isso.
    E cortante o frio que desce do osso da lua no céu.

    Suas leis eram um segredo.
    Mas eu me lembro do momento em que eu soube
    que ele estava enlouquecendo dentro de suas leis.

    Ele estava parado na entrada da garagem quando cheguei.
    Vestia o cardigã azul com os botões todos fechados até em cima.
    Não só porque era uma tarde quente de julho

    mas o olhar em seu rosto…
    como uma criança pequena que alguma tia vestiu de manhã bem cedo
    para uma longa viagem

    em trens frios e plataformas ventosas
    e vai se sentar muito ereto na borda do seu assento
    enquanto as sombras como longos dedos

    sobre os montes de feno que passam zunindo
    continuam a impressioná-lo
    porque ele está viajando de trás para a frente.

    Do livro Arquivo das Crianças Perdidas – Valeria Luiselli – p. 278

  • Carta de Caio para Hilda, sobre Clarice

    PA, 29.12.70.

    Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite.

    Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário.

    Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando.

    De repente fiquei supernervoso e saí para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — “Fica comigo”. Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos states) e você.

    Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre o Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir.

    Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

    Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

    É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor.

    Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa.

    Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde.

    Um grande beijo do teu Caio.

    Caio Fernando Abreu em carta para Hilda Hilst, 29 de dezembro de 1970 – no livro “Três vezes Hilda: biografia, correspondência e poesia”. Companhia das Letras, 2018.

  • Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno

    Já logo na vitrine da livraria, [você] identificou a capa com o título que procurava. Seguindo essa pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois são distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo de Terem Sido Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas antes Deve Ler Outros, Dos Livros Demasiados Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço, dos Livros Idem Quando Forem Reeditados Em Coleções De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir Emprestado A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem

    os Livros Que Há Tempo Você Pretende Ler,
    os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
    os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,
    os Livros Que deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
    os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,
    os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,
    os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.

    Bom, foi enfim possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto certamente muito grande, conquanto calculado num número finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já seria Hora De Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.

    Você se livra com rápidos ziguezagues e, de um salto, penetra na cidadela das Novidades Em Que O Autor Ou O Tema São Atraentes. Uma vez no interior dessa fortaleza, pode abrir brechas entre as fileiras de defensores e dividi-los em Novidades De Autores Ou Temas Já Conhecidos (por você ou por todos) e Novidades De Autores Completamente Desconhecidos (ao menos para você) e definir a atração que eles exercem sobre você segundo suas necessidades e desejos de novidade e não-novidade (da novidade que você busca no não-novo e do não-novo que você busca na novidade).

    Tudo isso para dizer que, após ter percorrido rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos de Se um viajante numa noite de inverno, pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de possuí-lo.

    Você ainda lançou sobre os livros em redor um olhar desgarrado (ou melhor, os livros é que o olharam com um olhar perdido como o dos cães nos cercados do canil municipal quando veem um ex-companheiro ser levado na coleira pelo dono que veio resgatá-lo) e, enfim, saiu.

    Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. [tradução de Nilson Moulin]

  • O Amor

     Maiakovski
    […]

    Ressuscita-me
    Ainda
    Que mais não seja
    Porque sou poeta
    E ansiava o futuro

    Ressuscita-me
    Lutando
    Contra as misérias
    Do cotidiano
    Ressuscita-me por isso

    Ressuscita-me
    Quero acabar de viver
    O que me cabe
    Minha vida
    Para que não mais
    Existam amores servis

    Ressuscita-me
    Para que ninguém mais
    Tenha de sacrificar-se
    Por uma casa
    Um barraco

    Ressuscita-me
    Para que a partir de hoje
    A partir de hoje
    A família se transforme

    E o pai
    Seja pelo menos
    O Universo
    E a mãe
    Seja no mínimo
    A Terra
    A Terra
    A Terra

  • Mineirinho

    Clarice Lispector

    É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu.” Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.
    Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
    Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
    Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
    Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila, e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
    Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo – uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
    Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
    O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.


    Do livro: Para Não Esquecer
    Editora Rocco

  • O QI médio da população mundial

    que desde o pós-guerra até o final dos anos 90 sempre aumentou, nos últimos vinte anos está diminuindo …
    É o retorno do efeito Flynn. Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos. Muitas podem ser as causas desse fenômeno. Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem. Com efeito, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não se trata apenas da redução do vocabulário utilizado, mas também das subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre para o presente, limitado no momento: incapaz de projeções no tempo. A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e a pontuação são exemplos de “golpes fatais” à precisão e variedade da expressão. Apenas um exemplo: apagar a palavra “miss” (já desueta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que não existem fases intermediárias entre uma menina e uma mulher. Menos palavras e menos verbos conjugados implicam em menos capacidade de expressar emoções e menos possibilidades de elaborar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada vem diretamente da incapacidade de descrever suas emoções por meio de palavras. Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais pensamento desaparece. A história é rica em exemplos e muitos livros (Georges Orwell-1984; Ray Bradbury – Fahrenheit 451) contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras. Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras. Como pode um pensamento hipotético-dedutivo ser construído sem uma condicional? Como pode o futuro ser pensado sem uma conjugação no futuro? Como captar uma tempestade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia? Seja, e o que será depois do que poderia ter acontecido, realmente aconteceu? Queridos pais e professores: vamos conversar, ler e escrever para nossos filhos, para nossos alunos. Ensine e pratique o idioma em suas mais diferentes formas. Embora pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço está a liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus ′ ′ defeitos “, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo o que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza. ”
    Christophe Clavé

  • Desfado – Ana Moura

    Desfado – Ana Moura

     

    Quer o destino que eu não creia no destino
    E o meu fado é nem ter fado nenhum
    Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
    Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

    Ai que tristeza, esta minha alegria
    Ai que alegria, esta tão grande tristeza
    Esperar que um dia eu não espere mais um dia
    Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

    Ai que saudade
    Que eu tenho de ter saudade
    Saudades de ter alguém
    Que aqui está e não existe
    Sentir-me triste
    Só por me sentir tão bem
    Alegre sentir-me bem
    Só por eu andar tão triste

    Ai se eu pudesse não cantar ai se eu pudesse
    E lamentasse não ter mais nenhum lamento
    Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
    Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

    Ai que desgraça esta sorte que me assiste
    Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
    Na incerteza que nada mais certo existe
    Além da grande certeza de não estar certa de nada

    Ai que saudade
    Que eu tenho de ter saudade
    Saudades de ter alguém
    Que aqui está e não existe
    Sentir-me triste
    Só por me sentir tão bem
    Alegre sentir-me bem
    Só por eu andar tão triste

     

    Composição: Pedro Da Silva Martins

  • Amor depois de amor

    Love after love

    The time will come
    when, with elation
    you will greet yourself arriving
    at your own door, in your own mirror
    and each will smile at the other’s welcome,

    and say, sit here. Eat.
    You will love again the stranger who was your self.
    Give wine. Give bread. Give back your heart
    to itself, to the stranger who has loved you

    all your life, whom you ignored
    for another, who knows you by heart.
    Take down the love letters from the bookshelf,

    the photographs, the desperate notes,
    peel your own image from the mirror.
    Sit. Feast on your life.

    WALCOTT, Derek. “Love after love”. In:_____. Collected poems. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1986.


    Amor depois de amor

    Vai vir o tempo
    em que você, orgulhoso,
    vai saudar a si mesmo chegando
    à sua própria porta, em seu próprio espelho,
    e vão trocar sorrisos de boas-vindas,

    você vai dizer, sente-se. Coma.
    Vai amar o estranho que um dia você foi.
    Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
    pra ele mesmo, o estranho que o amou

    por toda a sua vida, e a quem você ignorou
    por outro alguém, que o conhece de cor.
    Pegue da estante as cartas de amor,

    as fotografias, as anotações desesperadas,
    descasque seu reflexo do espelho.
    Sente-se. Sirva-se da vida.

    WALCOTT, Derek. “Amor depois de amor”. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. In blog Estúdio Realidade. URL: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2011/12/amor-depois-de-amor-derek-walcott.html. Acessado em 1 de março de 2017.

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