Autor: manancial

  • Nostos

    Havia uma macieira no quintal –
    isso teria sido há
    quarenta anos – nos fundos,
    apenas prados. Excesso
    de crocus na relva úmida
    Eu estava naquela janela:
    fim de abril. Flores
    da primavera no quintal do vizinho.
    Quantas vezes, realmente, a árvore
    floresceu no meu aniversário,
    no dia exato, nem antes
    nem depois? Substituição
    do imutável
    por transformação, por evolução.
    Substituição da imagem
    pela terra implacável. O que
    sei eu deste lugar,
    o papel que foi da árvore por décadas
    desempenhado por um bonsai, vozes
    subindo das quadras de tênis –
    Campos. Cheiro de grama alta, recém
    cortada.
    Como se espera de um poeta lírico.
    Nós vemos o mundo uma única vez, na infância.
    O resto é memória.

    GLÜCK, Louise. “Nostos”. In: Poems 1962-2012.

    New York: Farrar, Straus and Giroux, 2013.

    [Tradução: Nelson Santander]

  • um

    o pneu da bicicleta
    a gente enchia de palha quando furava
    palha que também era o recheio
    do colchão da cama dos meus pais
    que não rangia porque
    eles mal se mexiam à noite
    às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
    não chegava à noite
    chegava sem dar bom dia
    a mãe não dormida de espera já passava o café
    ralo como os cabelos
    que prendia sempre acordada
    a mãe não fazia nenhum barulho
    como a cama em que durmo hoje
    quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
    ralo como as alegrias
    da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
    pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
    minha mãe fazia que não era com ela
    que nunca existia antes de mudar dali
    sozinha com a gente e a bicicleta
    cantando

    dois

    a mãe saiu com a gente
    ninguém de nós sabia pra onde
    mas a gente ia grudado
    nela que ia grudada em nada era o que
    a gente pensava
    miúdo calado
    seguindo o passo depois
    o outro passo fomos
    até aonde a mãe conseguiu chegar

    a gente não sabia
    nem eu nem ninguém soube
    a mãe chegou sozinha
    onde estamos hoje bem

    três

    a mãe morreu num dia
    qualquer não fosse porque ela morreu seria
    um dia qualquer

    a gente saía cedo e voltava tarde
    todos os dias eram como aquele mas de repente
    voltamos cedo
    voltamos correndo
    na hora em que íamos alguém foi dar um
    beijo na mãe dura
    abaixada no banco do canto
    da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
    a janela ainda não era janela
    o chão ainda era batido
    como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
    com dor
    e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
    imediatamente ela tinha religião
    corremos o padre correu choramos o padre rezou
    ela continuava morta
    nós sem fome sem frio sem sede
    como estávamos bem desde que
    ela saiu e a gente saiu com ela de lá

    onde ela não existia
    de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
    à noite entendemos

    a mãe já não é
    mas sempre
    é mãe não há o que fazer a gente se lembra
    da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
    estopa ou véu na caminhada?
    não lembro, era quente e fazia muito sol
    tínhamos fome
    não temos mais
    o que ela mais
    gostava do quê?
    nunca a gente soube
    mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
    moída na voz grande

    quatro

    Não era mais
    preciso nós quatro
    ficarmos
    no mesmo
    (cabia um pouco de nós)
    no quarto
    da mãe
    que não ia mais dormir e acordar ali

    a gente foi arrumar
    as coisas da mãe
    choramos

    a gente começou pelo armário
    tiramos os vestidos
    eram apenas três______duas saias duas blusas
    como ela podia estar vestida
    todo dia com apenas
    aquelas roupas no varal procuramos
    não havia nada da mãe só a gente
    pendurado como saíamos de dia e de noite
    a mãe não saía
    de noite de dia
    ia às vezes ao mercadinho
    às vezes à padaria
    às vezes ao correio a gente nunca soube
    o que ela ia fazer no correio
    a gente limpou o armário
    colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
    o padre veio buscar

    embaixo da cama
    uma caixa de papelão
    estava escrito polpa de tomate etti
    tinha muita coisa lá dentro

    cinco

    um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
    uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
    um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
    a aliança riscada
    de que?
    uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
    dois terços
    uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
    muitas cartas escritas para meu pai
    dizendo onde estávamos como estávamos
    com ela seladas
    com endereço e tudo
    uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
    até hoje

    me mexo
    a noite e minha cama rangem
    sofro depois que entendi minha mãe
    Constança Guimarães | poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |
    https://revistagueto.com/2020/10/16/poema-inedito-de-constanca-guimaraes/

  • Mãe:
    Que desgraça na vida aconteceu,
    Que ficaste insensível e gelada?
    Que todo o teu perfil se endureceu
    Numa linha severa e desenhada?

    Como as estátuas, que são gente nossa
    Cansada de palavras e ternura,
    Assim tu me pareces no teu leito.
    Presença cinzelada em pedra dura,
    que não tem coração dentro do peito.

    Chamo aos gritos por ti – não me respondes.
    Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.
    Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
    Por detrás do terror deste vazio.

    Mãe:
    Abre os olhos ao menos, diz que sim!
    Diz que me vês ainda, que me queres.
    Que és a eterna mulher entre as mulheres.
    Que nem a morte te afastou de mim!

    S. Martinho de Anta, 1 de Junho


    Miguel Torga – Diário IV

  • “E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente -tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?”

    Que saudade do Grande Sertão

    O que demaseia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.

  • dies irae

    “DIES IRAE

    Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. (…) E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação.”

    Clarice Lispector, in: Todas as Crônicas. — Editora: Rocco, 2018, pág. 29.

  • Uma Palavra

    Eu tenho uma palavra na garganta
    e não a solto, não me livro dela,
    apesar de seu ímpeto de sangue.
    Se eu a solto, ela queima o pasto vivo,
    sangra o cordeiro, faz cair o pássaro.

    De minha língua devo desprendê-la,
    encontrar-lhe uma toca de castores,
    ou sepultá-la com argamassa e cal,
    para não alçar voos como a alma.

    Eu não quero dar mostras de estar viva,
    enquanto ela em meu sangue vai e vem
    e sobe e desce por meu louco alento.
    Embora Jó, fremente, a tenha dito,
    não quer dizê-la minha pobre boca,
    a fim de que não role e não se enrede
    nas tranças das mulheres que a encontrem,
    e a fim de que não torça ou queime o mato.

    Quero lançar-lhe sólidas sementes
    que, numa noite, vão cobri-la toda,
    sem deixar dela o cisco de uma sílaba.
    Ou então vou quebrá-la, como a víbora
    que se parte em metades entre os dentes.

    E voltar a meu lar, entrar, dormir,
    já destacada e separada dela,
    e despertar depois de dois mil dias,
    renascida de sono e esquecimento.

    Sem saber – ai! – que tive uma palavra
    de iodo e pedra-ume entre meus lábios,
    e sem poder lembrar-me de uma noite,
    de um país estrangeiro e de uma casa,
    e da cilada e do infortúnio à porta,
    e de meu corpo a caminhar sem alma.

    Gabriela Mistral


    Tradução de Ruth Sylvia de Miranda Salles. In: MISTRAL, Gabriela; MEIRELES, Cecília. Poemas

  • Saldo Negativo

    Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
    que amputar uma perna, a frio, de um africano.
    Passa mais fome um francês com três refeições por dia
    que um sudanês com um rato por semana.

    É muito mais doente um alemão com gripe
    que um indiano com lepra.
    Sofre muito mais uma americana com caspa
    que uma iraquiana sem leite para os filhos.

    É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
    que roubar o pão da boca de um tailandês.
    É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
    que queimar uma floresta inteira no Brasil.

    É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
    que o drama de mil desempregados em Espanha.
    É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
    que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

    É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
    que a de insulina nas Honduras.
    É mais revoltante um português sem celular
    que um moçambicano sem livros para estudar.

    É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
    que a demolição de um lar na Palestina.

    Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
    que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês

    e isto não são versos; isto são débitos
    numa conta sem provisão do Ocidente.


    Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha.
  • Quando eu for pequeno mãe

    Quando eu for pequeno, mãe,
    quero ouvir de novo a tua voz
    na campânula de som dos meus dias
    inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
    Subirás comigo as ruas íngremes
    com a certeza dócil de que só o empedrado
    e o cansaço da subida
    me entregarão ao sossego do sono.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    os teus olhos voltarão a ver
    nem que seja o fio do destino
    desenhado por uma estrela cadente
    no cetim azul das tardes
    sobre a baía dos veleiros imaginados.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    nenhum de nós falará da morte,
    a não ser para confirmarmos
    que ela só vem quando a chamamos
    e que os animais fazem um círculo
    para sabermos de antemão que vai chegar.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    trarei as papoilas e os búzios
    para a tua mesa de tricotar encontros,
    e então ficaremos debaixo de um alpendre
    a ouvir uma banda a tocar
    enquanto o pai ao longe nos acena,
    lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
    anunciando que vai voltar porque eu sou
    [pequeno
    e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

    José Jorge Letria, in “O Livro Branco da Melancolia”

  • e, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho,
    e se um outro acordou inseto na mente de um escritor,
    e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu,
    e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz,
    e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários,
    tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol”

    João Anzanello Carrascoza In: Caderno de Um Ausente

  • Mãe, eu quero ir-me embora

    Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
    daquilo que disseste quando os meus seios começaram
    a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
    murcharam tão depressa as rosas que me deram —
    se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
    deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

    Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
    cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
    só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
    que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
    os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
    deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
    e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

    Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
    caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
    Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
    não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
    as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
    embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
    de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
    uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

    Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
    nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
    hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
    Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
    essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
    o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
    foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
    tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
    virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

    Maria do Rosário Pedreira “Mãe, eu quero ir-me embora” in O Canto do Vento nos Cipestres (2001)