Autor: manancial

  • O adágio, a paz e a simplicidade

    Affonso Romano de Sant’Anna

    Eu queria era escrever sobre o poder de certas árias musicais, tão simples que nos esfacelam o coração. Dessas que a gente ouve e fica em pura contemplação. Dessas que a gente não tem dúvida: não foram fabricadas, não foram compostas, nasceram prontas, como pronta nasce uma flor da semente de si mesma, naturalmente.

    Que força têm certas árias! Não quero citar nomes, mas não resisto e cito logo um exemplo universal: o adágio do Concerto de Aranjuez, do compositor espanhol Joaquín Rodrigo.

    Não há ninguém até hoje que tenha resistido a essa música. Tenho certeza que toda vez que soam aqueles instrumentos num quebranto árabe e espanhol o mundo se torna melhor. E se conseguissem tocar esse trecho da música em todos os quarteirões do mundo, incluindo os mares e desertos, poder-se-ia dizer que num certo instante o mundo foi irremediavelmente feliz.

    Há inumeráveis músicas bonitas, benfeitas e inteligentes, mas há algumas árias que a gente ouve e pensa: o homem ainda tem salvação; se alguém parecido com a gente foi capaz de fazer isto, então nem tudo está perdido.

    É assim: começa a soar um concerto. Por exemplo, o Concerto 21, para piano e orquestra, de Mozart. Aí, apesar de já ser Mozart e você achar que Mozart não pode superar a si mesmo, de repente, ele parte para a maior lição de humildade, que é a aspiração de qualquer grande artista; escolhe duas ou três notinhas, que nas mãos dos inábeis passariam desapercebidas, e começa a pingá-las no piano. Começa o movimento chamado Andante. Aí, não tem jeito. Você tira o olho do livro, tira o olho das amarguras, tira o olho do desamor, esquece das dívidas, olha a natureza interior com uma forma suave e deixa a alma respirar beleza.

    Um dia estava num avião sobrevoando a Transilvânia, vejam só, aquela região de vampiros, estava indo para Jerusalém e de repente o comandante anunciou que íamos ter uma turbulência e por isto era necessário apertar os cintos etc. Mas como apertar os cintos se no headphone começou a soar o Andante do Concerto para violino de Mendelssohn?

    Caísse o avião, eu não estava nem aí. Anunciassem o que quisessem, toda e qualquer tragédia, há muito eu já estava nos céus entre querubins e serafins. Tenho certeza de que no dia em que Mendelssohn compôs essa parte do concerto, o Senhor, do alto de sua clemência, perdoou todos os pecados dele e de sua descendência até a quarta geração.

    Não falei ainda do Adágio de Albinoni. E o que essa música já fez pelo coração dos jovens amantes, só se compara ao que Aranjuez continua inapelavelmente a fazer quando nas tardes os amantes se encontram e diluem os corações, um nas doçuras do outro.

    Estou me dando conta que privilégio muito os andantes e os adágios. Devo confessar que tenho um fraco por adágios e andantes. Aí a alma da gente começa a passear num parque de folhas secas, como se estivesse num dourado outono. O adágio tem essa força, essa gravidade, essa densidade, como se estivéssemos num ritual, caminhando para alguma coisa digna que dá sentido à nossa vida. Quando começa um movimento mais ríspido e espevitado, minha alma agradece, mas quer mesmo é adágio e andante, porque o ritual harmônico das almas é que dá sentido à vida.

    Algum maldoso poderia dizer: “Você está citando só musiquinhas populares dentro da música clássica”. Aí, eu exclamo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Eu também já tive minha fase de glorificar os modernos e modernosos, — e entre eles há tanta coisa que eu gosto! —, mas estou falando de uma coisa totalmente diferente, e se você não está me entendendo, finja que está, e prossigamos”.

    Acho que a idade da sabedoria, ou algo que se aproxime a isto, tem muito a ver com adágios e andantes. Na Grécia, os pensadores, quando queriam pensar algo grave, saíam andando fora dos muros da cidade, a conversar, peripateticamente. Andar e conhecer, colocar a alma em ritmo de adágio, pura meditação, ainda que acompanhada.

    Na infância e juventude predomina o allegro vivace. E bom para começar. Mas a alma se refestela mesmo é quando irrompe o denso e suave adágio da maturidade.

    Há uma série de músicas que nos enchem tanto de vida, que dizemos: “Essa é a música que eu queria ouvir na hora de morrer”. De minha parte, já pensei até em preparar uma gravação para isto. É a única maneira de compensar a feiura dos cemitérios e suas deprimentes capelas. Seria realmente mais digno ir sendo levado por uma verde campina enquanto soassem Mozart, Mendelssohn, Bach, Albinoni, Telemann, Vivaldi e outros.

    Não gosto de músicas que contrariem a natureza. E a música era outra coisa antes de o mundo conhecer a poluição industrial.

    Por isto, minha amiga, toque mais uma vez o Concerto de Aranjuez na sua alma. Deite-se entre as almofadas da tarde e vá sorvendo o silêncio da noite, porque a vida é harmonia e musicalmente se ama melhor.

  • As Causas

    Todas as gerações e os poentes.
    Os dias e nenhum foi o primeiro.
    A frescura da água na garganta
    De Adão. O ordenado Paraíso.
    O olho decifrando a maior treva.
    O amor dos lobos ao raiar da alba.
    A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
    A Torre de Babel e a soberba.
    A lua que os Caldeus observaram.
    As areias inúmeras do Ganges.
    Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
    As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
    Os passos do errante labirinto.
    O infinito linho de Penélope.
    O tempo circular, o dos estóicos.
    A moeda na boca de quem morre.
    O peso de uma espada na balança.
    Cada vã gota de água na clepsidra.
    As águias e os fastos, as legiões.
    Na manhã de Farsália Júlio César.
    A penumbra das cruzes sobre a terra.
    O xadrez e a álgebra dos Persas.
    Os vestígios das longas migrações.
    A conquista de reinos pela espada.
    A bússola incessante. O mar aberto.
    O eco do relógio na memória.
    O rei que pelo gume é justiçado.
    O incalculável pó que foi exércitos.
    A voz do rouxinol da Dinamarca.
    A escrupulosa linha do calígrafo.
    O rosto do suicida visto ao espelho.
    O ás do batoteiro. O ávido ouro.
    As formas de uma nuvem no deserto.
    Cada arabesco do caleidoscópio.
    Cada remorso e também cada lágrima.
    Foram precisas todas essas coisas
    Para que um dia as nossas mãos se unissem.

    Jorge Luis Borges, in “História da Noite”

  • Literatura Indígena

    Literatura indígena. Quando os europeus chegaram no continente, a maior parte das culturas eram ágrafas, muitas ainda são, e lembro das palavras do xamā Davi Kopenawa, que chama os livros de peles de árvores mortas. Para Kopenawa, nós matamos árvores com o intuito de gravar ali o que nossa memória inepta não é capaz de lembrar. Me pergunto, o que será a literatura indígena?
    Talvez antes seja necessário pensar nas semelhanças e diferenças entre os tantos povos indígenas. Como comparar os Guarani, que resistem em grandes cidades como Rio e São Paulo, e etnias no mais profundo da Amazônia sem quase nenhum contato com a civilização “branca”?
    Mas talvez antes mesmo de começar estes questionamentos seja importante se fazer uma outra pergunta: o que é literatura? Costumamos associá-la à palavra escrita, como se esta fosse a única possibilidade. Gosto de imaginar que literatura é toda linguagem metafórica, toda linguagem simbólica: nosso corpo, uma árvore, um sonho, todo gesto de interpretação a partir deles é literatura. Um corpo que dança é literatura, a adivinhação do formato de uma nuvem. O filho que cresce no útero pode ser literatura. A voz que já não sai da garganta um homem, uma planta que perdeu as flores, um rio, um vulcão.
    Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

  • Quando à noite desfolho e trinco as rosas
    É como se prendesse entre os meus dentes
    Todo o luar das noites transparentes,
    Todo o fulgor das tardes luminosas,
    O vento bailador das Primaveras,
    A doçura amarga dos poentes,
    E a exaltação de todas as esperas.

    Sophia de Mello Breyner Andresen

  • Correio Literário

    W.K., Lublin

    Por enquanto suas observações têm caráter puramente particular–dizem respeito a pessoas e ambientes delineados de forma tão nebulosa e fragmentada que não conseguiriam prender a atenção do leitor. Aliás, não entendemos bem por que na carta para a redação o senhor fala em «mania de escrever», como se fosse uma doença vergonhosa que é preciso forçosamente curar o mais rápido possível. Não há nada de anormal na necessidade de anotar seus pensamentos e vivências; pelo contrário, é uma manifestação natural da cultura literária pessoal, o que se aplica, afinal, não só aos escritores, mas, em geral, a todas as pessoas cultas! Quando lemos publicações de antigos cadernos de memórias ou cartas, ficamos admirados com o brilho da excelente forma literária dessas confissões – escritas com frequência por pessoas que não eram literatas nem tencionavam ser… Hoje, basta a pessoa escrever algumas paginazinhas e ela já se pergunta quanto vale aquilo, já lhe atormentam pensamentos sobre a publicação e ela deseja saber se vale a pena «perder seu tempo»… É triste que cada frase formulada de maneira mais ou menos graciosa deva imediatamente valer a pena. E se for valer a pena só daqui a dez ou vinte anos? Ou se nunca chegar a valer a pena no sentido público, mas, em vez disso, ajudar o escritor nos momentos mais difíceis e enriquecer sua própria individualidade? Isso não serve de nada?

    Wisława Szymborska  – Correio Literário página 31

  • Benzimento Antigo

    BENZIMENTO ANTIGO
    Deus te viu, Deus te criou
    Deus te livre de quem para ti
    com mal olhou.
    Em nome do pai, do Filho
    e do Espírito santo
    Virgem do pranto,
    quebrai este quebranto.
    Eu te benzo pelo nome que te puseram na pia,
    em nome de Deus e da Virgem Maria,
    e das três pessoas da Santíssima Trindade,
    eu te benzo.
    Deus nosso Senhor que te cura,
    Deus que te acuda nas tuas necessidades.
    Se teu mal é quebranto, mal invejado,
    olhos atravessados ou qualquer outra enfermidade,
    se te deram no comer, no beber, no sorrir,
    no zombar, na tua formosura,
    na tua gordura, na tua postura,
    na tua barriga, nos teus ossos, na tua cabeça,
    na tua garganta, nas tuas lombrigas, nas tuas pernas.
    Que Deus Nosso Senhor que há de tirar,
    vem um anjo do céu,
    deita no fundo do mar
    onde não ouça galinha e nem galo a cantar.
    Com dois puseram, com três eu tiro.
    Com as três pessoas da Santíssima Trindade,
    que tira quebranto e mau-olhado,
    ‘pras ondas do mar,
    ‘pra nunca mais voltar.
    Com dois puseram, com três eu tiro.
    Com as três pessoas da Santíssima Trindade,
    que tira quebranto e mau-olhado,
    ‘pras ondas do mar,
    ‘pra nunca mais voltar.
    Virgem Mãe da Conceição
    Mãe do poderoso Deus
    Tirai este mal, este quebranto
    Do corpo de…
    Deus te fez, Deus te criou
    Deus perdoa, a quem mal te olhou
    Em louvor à Virgem Maria
    Padre Nosso e Ave Maria.
    Mal do ar, mal do mar,
    mal do fogo, mal da lua,
    mal das estrelas,
    mal do ponto do meio dia,
    mal do ponto da meia noite.
    Se estiveres com quebranto,
    mau olhado, feitiçaria e bruxaria,
    que em nome de Deus e da Virgem Maria,
    seja levado para as ondas do mar sagrado,
    onde não canta o galo nem a galinha
    nem chora a criancinha
    nem há nenhum cristão batizado.
  • Tudo o que eu queria
    Era para sempre
    esse eterno deslumbramento
    de pássaro aprendendo o voo
    de rio aprendendo a montanha
    Tudo o que eu queria
    era para sempre
    esse fôlego, esse brilho
    esse abraçar o mundo
    como se o mundo fosse um filho
    e coubesse entre os braços.

    – Roseana Murray

  • Feliz aniversário, Mãe

    Feliz Aniversário, Mãe, onde quer que você esteja ou não esteja.
    “E hoje era o teu dia de festa!
    Meu presente é buscar-te.
    Não para vires comigo:
    para te encontrares com os que, antes de mim,
    vieste buscar, outrora.
    Com menos palavras, apenas.
    Com o mesmo número de lágrimas.
    Foi lição tua chorar pouco,
    para sofrer mais.
    Aprendi-a demasiadamente.
    Aqui estamos, hoje.
    Com este dia grave, de sol velado.
    De calor silencioso.
    Todas as estátuas ardendo.
    As folhas, sem um tremor.
    Não tens fala, nem movimento nem corpo.
    E eu te reconheço.”
    Elegia – Cecília Meirelles