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  • Adolescente

    Wislawa Szymborska

    Eu — adolescente?
    Se de repente ela me aparecesse aqui, agora,
    deveria saudá-la como a uma pessoa próxima,
    mesmo que me pareça estranha e distante?

    Derramar uma lágrima, beijar a testa
    somente pelo motivo
    de termos a mesma data de nascimento?

    Tanta dessemelhança entre nós
    que talvez só os ossos sejam os mesmos,
    o formato do crânio, as órbitas.

    Pois os olhos deles já parecem maiores,
    os cílios mais longos, a estatura mais alta
    e o corpo compactamente coberto
    de pele lisa, sem defeito.

    É verdade que nos unem parentes e amigos,
    mas no seu mundo quase todos estão vivos
    e no meu quase ninguém
    desse círculo comum.

    Tanto nos diferenciamos,
    de coisas tão diversas falamos, pensamos.
    Ela sabe pouco —
    mas com absoluta convicção.
    Eu sei muito mais —
    mas sem certezas.

    Me mostra os seus versos,
    escritos numa letra clara, caprichada,
    que eu já não tenho há anos.

    Leio esses versos, releio.
    Bom, talvez só este,
    se der para encurtar
    e corrigir aqui e ali.
    Para o resto não vejo futuro.

    A conversa não engata.
    No seu relógio pobre
    o tempo ainda é vacilante e barato.
    No meu, muito mais caro e preciso.

    Na despedida, nada: um sorriso casual
    e nenhuma emoção.

    Só quando some
    e na pressa esquece o cachecol.

    Um cachecol de pura lã,
    com listras coloridas,
    tricotado à mão para ela
    pela nossa mãe.

    Eu o guardo ainda.

  • Como Tomar Um Sorvete

    Umberto Eco

    Quando eu era pequeno, compravam-se dois tipos de sorvete para as crianças, vendidos em carrocinhas brancas com teto prateado: as casquinhas de dez centavos ou o biscoito de vinte. As casquinhas de dez centavos eram mínimas, cabiam perfeitamente na mão de uma criança e se confeccionavam tirando o sorvete do balde com a concha adequada e acumulando-o em cima do cone de massa. As avós nos aconselhavam a só comer uma parte da casquinha, jogando fora o fundo em ponta, porque havia sido tocado pela mão do sorveteiro (no entanto, era esta a parte melhor e mais crocante, todos a comiam escondidos, fingindo tê-la jogado fora).
    O biscoito de vinte centavos, a cialda, era confeccionado com um aparelho especial, também prateado, que comprimia duas superfícies circulares de massa contra uma seção cilíndrica de sorvete. Fazia-se correr a língua pelo interstício até ela não conseguir mais alcançar o núcleo central do sorvete, e a essa altura se comia tudo, pois as superfícies já estariam moles e devidamente impregnadas do néctar. As avós não tinham nada a dizer; em teoria, os biscoitos só tinham contato direto com a máquina: na prática o sorveteiro os pegava com as mãos para entregá-los, mas era impossível identificar a zona infectada.
    Eu sentia grande fascínio por alguns coetâneos meus cujos pais adquiriam não um biscoito de vinte centavos, mas duas casquinhas de dez. Estes privilegiados saíam desfilando orgulhosos com um sorvete na mão direita e outro na esquerda e, movendo com agilidade a cabeça, lambiam ora um ora outro. Esta liturgia me parecia tão suntuosamente invejável que muitas vezes pedi para poder celebrá-la. Em vão. Meus pais eram inflexíveis: um sorvete de vinte centavos sim, mas dois de dez centavos absolutamente não.
    Como todos podem ver, nem a matemática, nem a economia e nem a dietética justificavam esta recusa. E nem mesmo a higiene, contanto que depois se jogassem fora as extremidades dos dois cones. Uma piedosa justificação argumentava, na verdade falaciosamente, que um menino ocupado em ficar correndo os olhos de um sorvete para o outro estaria mais inclinado a tropeçar em pedras soltas, degraus ou irregularidades quaisquer do calçamento. De maneira obscura, eu intuía que devia haver algum outro motivo, cruelmente pedagógico, do qual porém não conseguia me dar conta.
    Hoje, habitante e vítima de uma sociedade de consumo e do desperdício (o que certamente não era o caso dos anos trinta), compreendo que aqueles meus entes queridos, hoje desaparecidos, estavam com a razão. Dois sorvetes de dez centavos em lugar de um de vinte não eram economicamente um desperdício, mas sem dúvida o eram simbolicamente. Por isso mesmo eu os desejava tanto: porque dois sorvetes sugeriam um excesso. E era justamente por isso que me eram negados: porque parecia uma indecência, um insulto à miséria, uma ostentação de privilégio fictício, um luxo injustificado. Só tomavam dois sorvetes as crianças estragadas, aquelas que eram justamente castigadas nas histórias, como Pinóquio quando desprezava a casca e o talo da maçã. E os pais que encorajavam esta fraqueza dos pequenos parvenus educavam os filhos no teatro idiota do “quero-mas-não-posso”, ou então os estavam preparando, como diríamos hoje, para se apresentarem ao check-in da classe turística portando um falso Gucci comprado num camelô da beira da praia de Rimini.
    Este apólogo corre o risco de parecer desprovido de moral, num mundo onde a sociedade de consumo tenta estragar também os adultos, e lhes promete sempre algo a mais, do reloginho incluído na embalagem à medalha oferecida para quem comprar a revista. Como os pais daqueles glutôes ambidestros que eu tanto invejava, a sociedade de consumo finge dar mais, mas na verdade dá por vinte centavos aquilo que vale vinte centavos. Jogamos fora o rádio velho para comprar o que promete também um toca-fitas auto-reverse, mas algumas inexplicáveis fraquezas da estrutura interna fazem com que o novo rádio dure somente um ano. O novo carro econômico tem assentos de couro, dois espelhos laterais reguláveis do interior e o painel em madeira, mas durará muito menos que a gloriosa Fiat 500 que, mesmo quando quebrava, sempre voltava a funcionar com um pontapé.
    Mas a moral daqueles tempos queria que fôssemos todos espartanos, e a de hoje quer nos transformar a todos em sibaritas.

  • Carta de amor de Richard Feynman

    Richard Feynman, um dos pais da bomba atômica, escreve em 1946 à sua esposa, Arline Greenbaum, falecida 16 meses antes:

    “Cara Arline,

    Eu adoro você, querida.

    Eu sei como você gosta de me ouvir, mas escrevo não apenas para agradá-la. Escrevo porque isso inunda de calor meu interior. Não escrevi por muito tempo, quase 2 anos. Mas sei que você vai me perdoar, um inveterado pragmático. Achava que não havia sentido algum em escrever para você.

    Mas agora, minha querida esposa, sei que devo fazer aquilo que adiei por muito tempo e que, com tanta frequência, fazia no passado. Quero dizer que amo você. Quero amá-la. Sempre a amarei.

    Com minha mente é difícil entender o que significa amá-la depois de morta, mas até agora quero protegê-la e cuidar de você. E eu quero que me ame e cuide de mim. Eu quero falar com você sobre os meus problemas. Eu quero fazer coisas diferentes com você. Até agora, isso nunca tinha me acontecido. Mas poderíamos fazer muitas coisas juntos: costurar roupas, aprender chinês, comprar um projetor de filmes. E agora, posso fazer isso? Não, estou tão sozinho sem você. Você foi o principal gerador de ideias e a fonte de inspiração para todas as minhas loucas aventuras.

    Quando estava doente, você se preocupava por não ser capaz de me dar o que eu precisava, o que queria me dar. Você não deveria ter se preocupado. Não havia necessidade disso. Eu sempre disse que a amava muito, simplesmente por existir. E agora entendo isso mais do que nunca. Você não pode me dar mais nada e eu amo tanto você que nunca poderei amar outra pessoa. E eu quero que seja assim. Porque até morta você é muito melhor do que todos os vivos.

    Eu sei que você vai dizer que sou um tolo e quer que eu seja feliz, sem se interpor no meu caminho. Provavelmente ficará surpresa ao saber que, durante esses 2 anos, eu não tive sequer uma namorada (exceto você, minha amada). E você não pode fazer nada a respeito. Eu também não posso. Não entendo nada. Conheci muitas garotas, incluindo algumas muito simpáticas, e não quero ficar sozinho, mas depois de alguns encontros, percebi que elas não significavam nada para mim. Eu só tenho você. Você é real.

    Minha querida esposa, eu adoro você.
    Eu amo a minha esposa. Minha esposa morreu.

    Rich

    P.S: Perdoe-me, por favor, por não ter lhe enviado esta carta: não sei seu novo endereço”.

  • Cinzas – Adélia Prado

    No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita,
    Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
    Tive filhos com dores.
    Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
    eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
    Não luto mais daquele modo histérico,
    entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
    e a seu modo pacifica.
    As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
    Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
    Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
    Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
    um copo mal lavado. Mas que importa?
    Que importam as cinzas,
    se há convertidos em sua matéria ingrata,
    até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
    Este vale é de lágrimas.
    Se disser de outra forma, mentirei.
    Hoje parece maio, um dia esplêndido,
    os que vamos morrer iremos aos mercados.
    O que há neste exílio que nos move?
    Digam-no os legumes sobraçados
    e esta elegia.
    O que escrevi, escrevi
    porque estava alegre.

  • Carta de Valter Hugo Mãe para Marcelino Freire:

    Marcelino, tenho medo de voltar ao seu país porque cresci relutante para ser adulto e sei que me mantenho em tantas coisas apenas uma criança. Julgo que saio à rua ainda com a alegria de encontrar alguém com quem, de algum modo, possa pressentir a alegria que existia quando estávamos apenas a brincar. Eu não sei estar sozinho. Não aprecio a solidão, gosto das pessoas e não há como curar minha natureza para gostar delas. Mas agora tenho medo do seu país que eu amo. Fiquei toda a vida sonhando ser português e brasileiro, para pertencer a Machado de Assis e Fernando Pessoa. Sonhei que meu orgulho teria papel passado, como quem casa consciente, dedicado, de amor profundo, para toda a eternidade. Eu não previ este medo. Fico desolado.

    Estão proibindo as pessoas de serem negras, Marcelino, proibiram de ser mulheres, Marcelino, agora decidiram proibir de ser criança e eu sabia que haveria alguma coisa que ainda me pegaria. Por isso, há muito que eu já brigava pelos negros e há muito que eu já brigava pelas mulheres, eu já brigava pelos viados todos e pelas pessoas sem explicação, tanta gente que só é, sem ter muito como entender ou fazer entender, e quer apenas estar em paz. Eu dei de barato tanta coisa sobre a paz que talvez tenha esquecido de estudar corações, o verdadeiro lugar da guerra. Sou muito despreparado. Passei pelo tempo buscando o deslumbre e vi a melhor versão de cada instante, não vi que medravam no escuro as piores intenções, os ódios que inviabilizam a humanidade. Eu, sinceramente, não vi, Marcelino.

    Caminhei nessas ruas todas, tantos Estados, tantas capitais, e eu não dei conta desse ódio. Notei os sorrisos, o samba, o jeito generoso das garotas e de alguns garotos olhando para minha pouca beleza, eu notei os livros, tanta Literatura maravilhosa e a obra do Tunga e Artur Bispo do Rosário bordando as vestes para alindar seu encontro com Deus. Marcelino, no Brasil eu senti invariavelmente que Deus era possível. Sabe quando você se depara com algo perfeito e isso só pode ser graça de uma inteligência superior? Eu vi uma arara azul gigante, devia ter mais de um metro, e ela era mesmo um atributo mágico do mundo, estava livre no cimo de uma árvore na floresta amazônica.

    Naquele encontro, eu consumei tudo, Guimarães Rosa e Elza Soares, Tarsila do Amaral e Fernanda Montenegro mais Marília Pêra e Walter Salles, e Darcy Ribeiro mais Heitor Villa-Lobos, e Cartola com Cildo Meireles e Adriana Varejão. Mais Gal Costa e Mônica Salmaso e Paulo Freire lendo a mão de Chico César genial. Eu entendi que Brasil significa beleza e uma profunda esperança. Juro. Parecia uma experiência mística, como se algum espírito me informasse e eu virasse um mensageiro sagrado. Eu elogiei o Brasil em todas as ocasiões porque eu acreditei, e acreditei que minha mensagem era sagrada. Você acha que um espírito me enganaria? Viria sobre mim de propósito para me iludir?

    Marcelino, eu não consumei minha adultez, sou apenas um menino, fui sempre ao seu país para encontrar mais amigos e brincar um pouco de ser feliz. Lembra de gostarmos tanto de Manoel de Barros? Eu sei exatamente a razão de gostar tanto da poesia de Manoel de Barros. Ele usa pássaro e amigos e seus versos foram os melhores brinquedos. Minha história é rigorosamente igual. Não tinha muito mais. Pais, irmãos, amigos, os pássaros voando, versos. O lugar de guardar tudo é o verso. O único sentido de ter verso é amar gente e cuidar de pássaro livre.

    Estão atirando sobre as crianças e alguém me diz que apenas as negras, são apenas as crianças negras, mas eu duvido que parem por aí. Nós, as crianças mais claras não estamos na linha do tiro? Nem que seja por vergonha, vamos morrer também se não dissermos nada, se não fizermos nada. E se as crianças negras viraram proibidas, que legitimidade teremos nós? Sabe, Gilberto Freyre explicou tão certinho que os portugueses são os mestiços da Europa. Eu tenho sangue árabe, africano e europeu. Sou uma porção de cada coisa e minha pena é não lembrar, só minhas células sabem.

    Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente.
    Você sabe a razão para rejeitarem os negros para as periferias? Eu não descobri. As casas do centro não têm tamanho para negros? Eles são maiores? Aumentam quando dormem? Quando sonham? Ficam derrubando paredes, perigando as fundações dos prédios? Eu acho que não. Eu vi um moço entrando na livraria à minha frente, coube na porta melhor do que eu. Você acha que tem alguém obrigando a que ele corra para a periferia depois de pagar o seu livro? Eu não posso acreditar. Que pena que eu não falei com ele, devia ter perguntado. Talvez me contasse de como fica infinito sonhando, ao ponto de perturbar o silêncio, tremer o prédio, causar fumo. Você já pensou se nossos sonhos também fizessem isso? Eu ia querer, Marcelino. Eu ia querer que meus sonhos fossem tão grandes. Mas sonho só com a paz. Estar sossegado com minha família e meus amigos. Notar os pássaros voando.

    Marcelino, façamos uma jura de não morrer durante o plano de nos matarem. Não somos senão ternuras gigantes, guerreiros açucarados, eu entendi que nós precisamos de um pacto poético para embravecer nossa cidadania. Você, que é meu amigo e escritor que tanto admiro, não me falte nunca desse lado. Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sônia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu. Marcelino, fico ouvindo Rodrigo Amarante e quase ainda acredito em tudo outra vez (Rodrigo é perfeito. Poderia ser a própria arara). Quase perco o medo. Vista também sua roupa de super-herói e sobreviva. Você tem de manter a maravilha do Brasil. Não deixe que acabem com a maravilha do Brasil. Se resistirmos, nossa delicadeza vai ser uma lição resplandecente, e vamos ficar mais belos que os modelos nos filmes gringos. Vamos, sim, Marcelino.

    Haveremos de devolver o futuro às crianças. E seremos sempre futuros também. Só quem desistiu passou a ocupar seu canto no passado. Marcelino, reassumo meu compromisso com a esperança. Vou escolher sempre minha vida como lugar de semente. No meu medo, Marcelino, muita coragem vai germinar.

  • Um senhor deixa cair ao chão os óculos

    que fazem um barulho terrível ao bater nos ladrilhos. O senhor se abaixa aflitíssimo porque as lentes dos óculos custam muito caro, mas descobre assombrado que por milagre elas não se quebraram. Agora esse senhor sente-se profundamente grato, e compreende que o acontecimento vale por uma advertência amigável, de maneira que se dirige a uma ótica e compra logo um estojo de couro acolchoado, com proteção dupla, como precaução. Uma hora depois deixa cair o estojo e ao abaixar-se sem maior preocupação verifica que os óculos viraram farelo. Esse senhor leva tempo para compreender que os desígnios da Providência são insondáveis e que na realidade o milagre aconteceu agora.

    Julio Cortázar – “Histórias de cronópios e de famas”

  • Pra que é que presta uma menininha?

    “Infância? pobre, mas linda…

     Tão linda que mesmo longe

     Continua em mim ainda.”

    (Vinícius de Moraes —  Autobiografia)

    Pra que é que eu presto? Pra que serve uma menininha? As respostas podem ser variadas, de acordo com o ângulo e a visão do mundo do respondedor. É possível afirmar, liricamente, que ela enfeita e dá alegria à vida dos pais. Ou, cientificamente, buscar explicações nas leis biológicas de preservação da espécie e sua futura e provável incidência. Nada disso, porém, respondia à angústia da menina nascida no Natal de 1941 e que desde muito cedo era brindada constantemente com o adjetivo de imprestável, coisa meio’ difícil de entender, palavra que se revirava na cabeça sem sentido claro, mas evidentemente negativa, pelo tom de voz em que era insistentemente pronunciada.

    Dá para retraçar com certa objetividade a primeira grande dúvida semântica suscitada por esse imprestável. A menina tinha por volta de quatro anos, dá para ter certeza porque era nas vésperas do casamento do tio mais querido, isso não se esquece e deixa conferir a data depois.

    — Sua imprestável! Vê se aprende com a Rita Maria a ser uma menina boazinha e prestativa…

    Impossível lembrar, tantos anos depois, o que é que a imprestável devia ter feito e não fez. Mas também impossível esquecer a dor. E impossível esquecer que Rita Maria era a prima um ano e meio mais velha, que ajudava a tomar conta dos irmãos menores, e que era tão linda, tão parecida com a tia, mãe da menininha imprestável.

    Por mais que a menina tentasse, não conseguia ser linda e parecida com a mãe, como queria. Vai ver até que não era mesmo filha dela, era filha de um bugre, achada no mato pelo avô que abria estrada de ferro, como todos gostavam de contar e brincar. Vai ver, era por isso que queriam se livrar dela, emprestar para alguém, passar adiante aquela menina emprestável. E se fizesse como tantas coisas que se emprestam e ela fosse esquecida, ninguém mais devolvesse? Ela ia ficar com tantas saudades da mãe, do pai, do irmãozinho, dos avós … De noite, antes de dormir, chorava, chorava, olhava pro teto, via as lagartixas passeando no forro do casarão do avô e pensava:

    — Se eles não me emprestarem, eu fico tão boazinha que até nem grito se um bicho horrível desses cair em cima de mim.

    Não caía. Não dava para testar. Chorava até dormir. E sonhar. Com uma bruxa que levava ela emprestada num dia de ventania e ficava espetando o dedo na barriga dela (anos depois, assistindo a “O Mágico de Oz”, viu na tela a materialização do passado e foi terrível). E com o Bodinho, mistura de um soldado da PE (Polícia Especial), que andava no estribo do bonde de Santa Teresa onde ela morava, com os bodes que se encarapitavam pelos morros do bairro. A bruxa e o Bodinho eram as piores figuras para quem ela poderia ser emprestada. Mas todos os adultos que se aproximavam podiam ser, em potencial, candidatos ao empréstimo. E essa idéia não costumava ser das mais agradáveis.

    Um dia, a área semântica do adjetivo precisou-se melhor. Ouviu o pai dizer com profundo desprezo a respeito de alguém:

    — Esse sujeito não presta! Era um julgamento definitivo, uma condenação categórica. Então, tinha mais essa… Podia ser que imprestável não fosse alguém a ser emprestado, mas alguém desprezível, que não tem jeito, não serve nem para emprestar aos outros. Daí a algum tempo, a confirmação:

    — Mas esta menina é incapaz de fazer uma coisa direito, não presta para nada …

    Mais ou menos por essa época (é muito difícil precisar uma cronologia em dor tão remota), pescou a expressão prestar atenção. E pouco antes, ou pouco depois, captara admirações elogiosas a um tal de Prestes. Quem sabe, então, se ela aprendesse a prestar atenção nas coisas, quem sabe, não viraria uma espécie de Prestes?

    Aí as pessoas iam falar dela com aquela admiração. Passou a prestar atenção em tudo — em formiga, em joaninha, em casca de árvore, em poeira dançando no raio de sol em frente da janela, em corrida de gota de chuva na vidraça, no barulho que os dentes do avô faziam quando ele comia torrada…

    — Essa menina vive no mundo da lua, está sempre distraída, não presta atenção em nada…

    Como não presta atenção? Não faz outra coisa, ninguém vê? Vai começando a vontade de brigar… Mas não adianta, lá vem o estribilho: — É mesmo uma imprestável,não serve para nada.

    Ah, isso já esclarece mais: quem não quiser ser imprestável, tem que servir. Ou seja, primeira lição clara: para gostarem de mim, não me emprestarem, não

    me largarem, tenho que ser servil, obedecer e ajudar nos trabalhos da casa, varrer, tirar pó, tomar conta de neném, essas coisas. Mas aí, além do Prestes, entrou em cena outro personagem. A menina foi levada a um comício dele, na praça cheia de gente, uma rosa ou um cravo na mão, sentada nos ombros do pai, ouvindo a multidão gritar:

    — Brigadeiro! Brigadeiro! Brigadeiro! Não é de espantar que o ideal de briga tenha encontrado alguma ressonância. E começou uma oscilação que ia se estender pelos anos afora, na alternância dos adjetivos da definição familiar:

    — É uma imprestável! — Sua malcriada! Mas o tempo vai passando, a menininha vai crescendo, aprende a ler, entende muito bem o que quer dizer imprestável, não confunde mais. Imprestável é a trilha sonora que acompanha a limonada. Começa assim:

    — Minha filha, pode me fazer uma limonada? Claro. Significa espremer o limão, botar água no copo, pôr açúcar, botar num pratinho com uma colherinha, vir andando bem devagar pelo corredor, equilibrando para não cair, querendo um gole também, esperando um sorriso de agradecimento e encontrar:

    — Você é mesmo uma imprestável! Não é capaz nem de fazer uma limonada…

    Um dia estava muito doce, outro dia muito azeda, outro dia muito aguada. Mas, entre caretas e resmungos, desaparecia lá dentro da goela da mãe, sem ficar nem um golinho de fora.

    Malcriada era de outro escalão. Sabia perfeitamente quando ia fazer algo para merecer o adjetivo e até se orgulhava disso. Era uma resposta a uma atitude consciente de provocação. Imprestável, não. Vinha sempre numa angústia nebulosa, machucando injusto, inesperado na maioria das vezes, humilhante. Acompanhava outra constelação qualificativa:

    — Desmazelada! Desleixada! Relaxada! Esses eram quando deixava as coisas fora do lugar, não arrumava gavetas, esquecia a porta do armário aberta. Às vezes, tais adjetivos vinham acompanhados de outro:

    — Porca! Este se aplicava especialmente aos cadernos que guardavam a marca do que tinha sido escrito a lápis e fora apagado. Culpa da borracha? Do lápis? De quê? Da menina, claro. Podia haver outro culpado para tudo de errado que acontecia? Para não ter que apagar os erros, o jeito era não errar nunca, levar a auto-exigência a rigores aflitivamente insuportáveis e nunca reconhecidos. Ser primeira da classe — “não fez mais do que sua obrigação” — caxias, objeto de zombaria da turma. Morre de vergonha até hoje ao lembrar que passou no vestibular com média 9,8. E que muito depois, no exílio, contratada para trabalhar na BBC de Londres, levou algum tempo para descobrir que podia errar, os técnicos apagavam o erro na fita gravada, era só repetir — ela era a ave rara que já trabalhava ali há semanas e nunca tinha engasgado ou tropeçado. Ninguém via o tamanho da doença que isso representava. Só ela, que convivia com essa dor desde menina.

    Mas no doce e ameno tempo da infância, não adiantava se esforçar para não errar. Só reparavam nos erros. Com outras frases que ficaram:

    — É incapaz de fazer as coisas direito! — Sem-jeito mandou lembranças… Mandou mesmo … Pegava na agulha de crochê sem qualquer habilidade. Enfiava linha na agulha (ou agulha na linha? até hoje não sabe…) de um modo tão esquisito que se encantou quando descobriu que o Huck de Mark Twain fazia o mesmo e, pelo menos, tinha um companheiro — que virou paixão — numa balsa do Mississipi. Pegava qualquer coisa, cheia de dedos, deixava cair, entornava, se queimava, se cortava. Com quase quarenta anos, decifrou o mistério, graças a muitas cabeçadas, algumas quedas e um eletroencefalograma: tem um foco de disritmia, o que complica certas sutilezas motoras. Mas antes, só podia se afligir e chorar. Mas podia? Lá vinha:

    — Engole esse choro! Já! Só quem já experimentou sabe como é impossível. Ainda mais para uma “manteiga derretida”. Mas havia tanta coisa a ser engolida já, além do choro: dobradinha que crescia na boca feito esponja, nata de leite que grudava no céu da boca num nojo só… Vontade de vomitar. Qualquer pessoa que falar das delícias da infância sem fazer um parênteses para o que nos impingem à força goela abaixo (sei de um menino que levava golpes de colher nos dentes para abrir a boca, e é filho de uma super mãe amantíssima) é porque não tem memória. Mas dá para passar por cima dessas coisas neste depoimento. Deixar o capítulo alimentar ao lado da novela do vestuário, que compreendia vestidos de organdi espetentos, com forro de tafetá engomado, duro, que arranhava a cintura e debaixo do braço até deixar marcas, e se completava com a indumentária de praia — maiô de lã que semeava assaduras entre as pernas e obrigava a andar de perna aberta, ouvindo broncas sobre ser uma menina sem modos. Mas deixa pra lá. Falar na comida lembra o clima da mesa, e isso é dose para elefante. Tinha vezes até que era ótimo, a hora em que todos os irmãos se reuniam, contando casos da escola, dos amigos, de tudo, num tumulto:

    — Agora é minha vez! — Deixa eu falar! Tinha sempre a irmã que corrigia: — Não foi bem assim … Lá vem a Ana exagerando…

    Mas às vezes, saía um tumulto. Por qualquer bobagem. Aí era um inferno. O pai levantava da mesa. Assim não é possível! E cada um dos filhos era culpado da dor de cabeça do pai, de ter estragado o dia dele, do choro da mãe. Quando esse coro se misturava com o eterno motivo da imprestável (por exemplo, se a causa da irritação tivesse sido porque a menina que pôs a mesa esqueceu alguma coisa), começava a haver uma variante nova — o refrão do marido:

    — Assim não arranja um marido. — Imprestável desse jeito (desmazelada assim, etc.), o marido um dia se levanta da mesa e vai embora.

    Seria possível continuar por páginas e páginas. Mas não era tudo horrível, claro. E há um outro lado. O que salvou. Primeiro, a consciência de que a desgraça era coletiva. Nos primeiros anos, de filha única ou só com um irmão, o peso era muito maior. Quando se distribuiu pelos nove filhos, ficou mais fácil de carregar. Acontecia com os outros também. E o convívio fraterno foi sempre uma coisa de uma carga tão positiva nesses tempos de infância que dava força para segurar qualquer barra.

    Apesar dos ciúmes e rivalidades naturais, das brigas eventuais, o carinho era muito grande e muito bom. Dava para ir em frente numa boa. Graças à repetição do processo, que o atenuava. A história se repetia. Era muitas vezes …

    Mas outro instrumento de salvação foi o Era uma vez… As histórias que a mãe e o pai contavam, pondo a gente no colo, sentando do lado na rede ou na beirada da cama. Quem contava aquelas coisas tão maravilhosas, daquela maneira tão carinhosa, só podia gostar da gente… E as histórias ensinavam tanto… Traziam a certeza da esperança, garantiam a vitória do mais fraco, aplacavam as angústias difusas, davam forma às bruxas fora da gente. Pelo que a mãe contava, a menina ficava sabendo que Chapeuzinho Vermelho pode ser comida pelos lobos nos bosques da vida e não há vovó que proteja, mas no fim ela ganha. João e Maria podem ser abandonados no fundo do mato, se enganar com a promessa dos mais velhos, ser obrigados à força a comer o que não querem, mas um dia põem a bruxa no fogo e quando ela grita:

    — Água, meus netinhos… Eles podem ser malcriadíssimos e gritar: — Azeite, minha vozinha… As histórias mostravam que Branca de Neve ficava mais bonita que a madrasta e, por mais que tivesse que lavar as escadarias do palácio, cozinhar e arrumar casa para sete anões, enfim, provar o tempo todo que sabia fazer limonada e não era imprestável, no fim ia acabar se salvando. Houve alguém mais porca e explorada do que a Gata Borralheira ou Pele de Asno? E que dizer de A Bela e a Fera, onde mesmo um bicho tão horroroso podia ser amado de verdade? Havia esperança…

    Depois que a menina cresceu, olhou para trás e viu que as histórias foram bonitas, verdadeiras e boas, conseguiram mostrar o carinho como os gestos e as palavras tão reprimidos daquela geração não tinham conseguido. Não curaram a dor, não desmancharam as cicatrizes, seria pedir muito. Mas ajudaram, com suas palavras, a fechar as feridas das outras palavras.

    Muitos anos, muitas histórias e dois filhos depois, a menina virada mulher olha para tudo isso lá atrás, numa mistura de carinho e dor, ainda Tem que fazer um depoimento sobre isso, que a Fanny pediu. Senta e escreve, num escrever que flui. Depois pára, sem saber como acabar, adia, interrompe o texto uns tempos.

    Pensa na filha que está a caminho — maravilhas da ciência moderna, agora a gente sabe até que é uma menina, antes mesmo de nascer. E de repente, um dia, entrando em trabalho de parto, literalmente a caminho da maternidade, nas horas tensas em que, bem ou mal, as fantasias de medo da morte se misturam com as emoções do limiar da vida, lembra que o prazo para o artigo também se esgotou, o texto tem que ser mandado já, tem que ser completado. E neste momento logo antes da infância de outra menina que se inicia, a mulher se pergunta se seria capaz de responder à velha pergunta:

    — Pra que serve uma menininha? Pra que é que eu presto? Não há respostas sabidas. Para o que serve todo ser humano? Para cumprir os desígnios de Deus, dirão os religiosos, ou prosseguir o ciclo da natureza, dirão os sensatos. Um filósofo e romancista como Camus talvez dissesse que para cumprir o absurdo da existência, como Sísifo em sua maldição mítica: rolar com esforço uma pesada pedra montanha acima e, lá no alto, vê-la despencar-se encosta abaixo, descer e recomeçar a empurrá-la, pelos séculos dos séculos. E, apesar disso, não se suicidar. E se a essa consciência lúcida puder se somar mais um vestígio de história de fadas, talvez a mulher pedisse às fadas no nascimento de sua menina o que já pediu no nascimento dos meninos:

    — Que ela tenha saúde e seja muito amada, tão amada, mas tão amada mesmo, que dê para se sentir amada. E que isso lhe dê força e coragem para enfrentar a barra da infância, que é pesada, dura e requer coragem. Para que possa ter consciência e lembrança dos momentos em que for feliz.

    “Sei lá, sei lá…

     A vida é uma grande ilusão.

     Sei lá, sei lá…

     Só sei que ela está com a razão.”

    Vinícius de Moraes


    MACHADO, Ana Maria. Pra que é que presta uma menininha? In: ABRAMOVICH, Fanny (Org.). O mito da infância feliz; antologia.
    São Paulo: Summus, 1983.