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  • Correio Literário

    W.K., Lublin

    Por enquanto suas observações têm caráter puramente particular–dizem respeito a pessoas e ambientes delineados de forma tão nebulosa e fragmentada que não conseguiriam prender a atenção do leitor. Aliás, não entendemos bem por que na carta para a redação o senhor fala em «mania de escrever», como se fosse uma doença vergonhosa que é preciso forçosamente curar o mais rápido possível. Não há nada de anormal na necessidade de anotar seus pensamentos e vivências; pelo contrário, é uma manifestação natural da cultura literária pessoal, o que se aplica, afinal, não só aos escritores, mas, em geral, a todas as pessoas cultas! Quando lemos publicações de antigos cadernos de memórias ou cartas, ficamos admirados com o brilho da excelente forma literária dessas confissões – escritas com frequência por pessoas que não eram literatas nem tencionavam ser… Hoje, basta a pessoa escrever algumas paginazinhas e ela já se pergunta quanto vale aquilo, já lhe atormentam pensamentos sobre a publicação e ela deseja saber se vale a pena «perder seu tempo»… É triste que cada frase formulada de maneira mais ou menos graciosa deva imediatamente valer a pena. E se for valer a pena só daqui a dez ou vinte anos? Ou se nunca chegar a valer a pena no sentido público, mas, em vez disso, ajudar o escritor nos momentos mais difíceis e enriquecer sua própria individualidade? Isso não serve de nada?

    Wisława Szymborska  – Correio Literário página 31

  • Benzimento Antigo

    BENZIMENTO ANTIGO
    Deus te viu, Deus te criou
    Deus te livre de quem para ti
    com mal olhou.
    Em nome do pai, do Filho
    e do Espírito santo
    Virgem do pranto,
    quebrai este quebranto.
    Eu te benzo pelo nome que te puseram na pia,
    em nome de Deus e da Virgem Maria,
    e das três pessoas da Santíssima Trindade,
    eu te benzo.
    Deus nosso Senhor que te cura,
    Deus que te acuda nas tuas necessidades.
    Se teu mal é quebranto, mal invejado,
    olhos atravessados ou qualquer outra enfermidade,
    se te deram no comer, no beber, no sorrir,
    no zombar, na tua formosura,
    na tua gordura, na tua postura,
    na tua barriga, nos teus ossos, na tua cabeça,
    na tua garganta, nas tuas lombrigas, nas tuas pernas.
    Que Deus Nosso Senhor que há de tirar,
    vem um anjo do céu,
    deita no fundo do mar
    onde não ouça galinha e nem galo a cantar.
    Com dois puseram, com três eu tiro.
    Com as três pessoas da Santíssima Trindade,
    que tira quebranto e mau-olhado,
    ‘pras ondas do mar,
    ‘pra nunca mais voltar.
    Com dois puseram, com três eu tiro.
    Com as três pessoas da Santíssima Trindade,
    que tira quebranto e mau-olhado,
    ‘pras ondas do mar,
    ‘pra nunca mais voltar.
    Virgem Mãe da Conceição
    Mãe do poderoso Deus
    Tirai este mal, este quebranto
    Do corpo de…
    Deus te fez, Deus te criou
    Deus perdoa, a quem mal te olhou
    Em louvor à Virgem Maria
    Padre Nosso e Ave Maria.
    Mal do ar, mal do mar,
    mal do fogo, mal da lua,
    mal das estrelas,
    mal do ponto do meio dia,
    mal do ponto da meia noite.
    Se estiveres com quebranto,
    mau olhado, feitiçaria e bruxaria,
    que em nome de Deus e da Virgem Maria,
    seja levado para as ondas do mar sagrado,
    onde não canta o galo nem a galinha
    nem chora a criancinha
    nem há nenhum cristão batizado.
  • Tudo o que eu queria
    Era para sempre
    esse eterno deslumbramento
    de pássaro aprendendo o voo
    de rio aprendendo a montanha
    Tudo o que eu queria
    era para sempre
    esse fôlego, esse brilho
    esse abraçar o mundo
    como se o mundo fosse um filho
    e coubesse entre os braços.

    – Roseana Murray

  • Feliz aniversário, Mãe

    Feliz Aniversário, Mãe, onde quer que você esteja ou não esteja.
    “E hoje era o teu dia de festa!
    Meu presente é buscar-te.
    Não para vires comigo:
    para te encontrares com os que, antes de mim,
    vieste buscar, outrora.
    Com menos palavras, apenas.
    Com o mesmo número de lágrimas.
    Foi lição tua chorar pouco,
    para sofrer mais.
    Aprendi-a demasiadamente.
    Aqui estamos, hoje.
    Com este dia grave, de sol velado.
    De calor silencioso.
    Todas as estátuas ardendo.
    As folhas, sem um tremor.
    Não tens fala, nem movimento nem corpo.
    E eu te reconheço.”
    Elegia – Cecília Meirelles
  • Cinzas

    No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
    Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
    Tive filhos com dores.
    Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
    eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
    Não luto mais daquele modo histérico,
    entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
    e a seu modo pacifica.
    As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
    Meu apetite se aguça, estalo as juntas de boa impaciência.
    Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
    Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
    um copo mal lavado. Mas que importa?
    Que importam as cinzas,
    se há convertidos em sua matéria ingrata,
    até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
    Este vale é de lágrimas.
    Se disser de outra forma, mentirei.
    Hoje parece maio, um dia esplêndido,
    os que vamos morrer iremos aos mercados.
    O que há neste exílio que nos move?
    Digam-no os legumes sobraçados
    e esta elegia.
    O que escrevi, escrevi
    porque estava alegre.

    Adélia Prado

  • Repenso o mundo

    Repenso o mundo, segunda edição,
    segunda edição corrigida,
    aos idiotas o riso,
    aos tristes o pranto,
    aos carecas o pente,
    aos cães botas.
    Eis um capítulo:
    A Fala dos Bichos e das Plantas,
    com um glossário próprio
    para cada espécie.
    Mesmo um simples bom-dia
    trocado com um peixe,
    a ti, ao peixe, a todos
    na vida fortalece.
    Essa há muito pressentida,
    de súbito revelada,
    improvisação da mata.
    Essa épica das corujas!
    Esses aforismos do ouriço
    compostos quando imaginamos
    que, ora, está só adormecido!
    O tempo (capítulo dois)
    tem direito de se meter
    em tudo, coisa boa ou má.
    Porém — ele que pulveriza montanhas
    remove oceanos e está
    presente na órbita das estrelas,
    não terá o menor poder
    sobre os amantes, tão nus
    tão abraçados, com o coração alvoroçado
    como um pardal na mão pousado.
    A velhice é uma moral
    só na vida de um marginal.
    Ah, então todos são jovens!
    O sofrimento (capítulo três)
    não insulta o corpo.
    A morte
    chega com o sono.
    E vais sonhar
    que nem é preciso respirar,
    que o silêncio sem ar
    não é uma música má,
    pequeno como uma fagulha,
    a um toque te apagarás.
    Morrer, só assim. Dor mais dolorosa
    tiveste segurando nas mãos uma rosa
    e terror maior sentiste ao som
    de uma pétala caindo no chão.
    O mundo, só assim. Só assim
    viver. E morrer só esse tanto.
    E todo o resto — é como Bach
    tocado por um instante
    num serrote.
    Wisława Szymborska, Poemas