Blog

  • Nostalgia

    NOSTALGIA
    Havia uma macieira no quintal –
    terá sido
    há quarenta anos – atrás,
    apenas prados. Rastos
    de açafrão na relva húmida.
    Fiquei naquela janela:
    final de abril. A primavera
    nas flores no quintal vizinho.
    Quantas vezes, na verdade, floriu
    a árvore no meu aniversário,
    no dia exato, não
    antes, não depois? Substituição
    do imutável
    para o mutante, a evolução.
    Substituição da imagem
    pela terra implacável . Que
    eu sei sobre este lugar,
    o papel da árvore que por décadas
    parecia um bonsai, vozes
    vindo dos campos de ténis –
    Campos. Cheiro de relva alta, corte novo.
    Como se espera de um poeta lírico.
    Olhámos para o mundo uma vez, na infância.
    O resto é memória.

    LOUISE GLUCK, in MEADOWLANDS

    (Hopewell, New Jersey, 1996),

    tradução de CARLOS CAMPOS

  • O Sacristão

    O SACRISTÃOSomerset Maugham

    Houvera um batizado aquela tarde, na igreja de São Pedro, e Albert Edward Foreman ainda estava com sua batina de sacristão. Ele reservava sua melhor indumentária do cargo para casamentos e funerais, e a que usava naquele momento era a segunda melhor. Gostava de usar a batina, por ser um digno símbolo das suas funções, e se sentia insuficientemente vestido sem ela. Cuidava do traje com todo carinho, e durante os dezesseis anos no cargo tivera uma série delas, mas nunca fora capaz de jogá-las fora quando desgastadas pelo uso, guardando-as embrulhadas em papel marrom nas gavetas inferiores do guarda-roupa.
    Estava esperando apenas o vigário sair, para poder arrumar tudo, trancar a igreja e ir para casa. O vigário passou para o presbitério, fez uma genuflexão diante do altar e começou a caminhar numa das alas de bancos.
    — “Que será que ele está procurando? — pensou. — Ele devia perceber que eu tenho de ir para casa tomar o meu chá”.
    O vigário era um homem de seus quarenta anos, rosto corado e enérgico, que assumira o cargo recentemente. Albert ainda lamentava a perda do antecessor, um sacerdote da velha escola que pregava seus sermões monotonamente, com voz argêntea, e freqüentemente jantava com seus paroquianos mais aristocráticos. Gostava das coisas assim, não como esse novo vigário, que queria dar palpite em tudo. Mas Albert era tolerante, e nunca se agastava.
    A Igreja de São Pedro era muito bem localizada, com paroquianos muito distintos. O novo vigário estivera antes junto a paroquianos de outro nível social, e era natural que demorasse um pouco a se adaptar aos novos.
    — “Mudanças assim contundem as pessoas — pensava Albert, — mas ele acabará aprendendo”.
    Quando o vigário se aproximou de Albert a ponto de poder falar-lhe no tom de voz baixo adequado ao lugar sagrado, parou e o chamou.
    — Foreman, venha comigo à sacristia, que eu preciso conversar um pouco com você.
    — Pois não, senhor.
    Enquanto caminhavam juntos, Albert comentou:
    — Bonito batizado, senhor. E foi muito interessante como a criança parou de chorar exatamente quando o senhor a tomou nos braços.
    — Já notei que isso acontece com freqüência. De fato eu consegui boa prática em lidar com bebês.
    Albert ficou um tanto surpreso ao encontrar na sacristia os dois conselheiros da paróquia, que ele não vira entrar. Cumprimentou-os cortesmente. Eles ocupavam o conselho há muito tempo, quase tanto quanto o dele como sacristão. Estavam sentados atrás de uma grande mesa, e o vigário ocupou a cadeira vaga entre os dois. Albert sentou-se do outro lado da mesa, enquanto procurava, com certa intranqüilidade, descobrir o que podia ter acontecido. Lembrava-se de quando o organista criou uma encrenca, e dos aborrecimentos que os três tiveram para acertar as coisas. Numa igreja como a de São Pedro não se podiam admitir escândalos. O vigário tinha um ar de benevolência, mas os outros estavam um tanto a contra-gosto.

    (mais…)

  • A Vida Na Hora

    A VIDA NA HORA
    Cena sem ensaio.
    Corpo sem medida.
    Cabeça sem reflexão.
    Não sei o papel que desempenho.
    Só sei que é meu, impermutável.
    De que trata a peça
    devo adivinhar já em cena.
    Despreparada para a honra de viver,
    mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
    Improviso embora me repugne a improvisação.
    Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
    Meu jeito de ser cheira a província.
    Meus instintos são amadorismo.
    O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
    As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
    Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
    inacabada a contagem das estrelas,
    o caráter como o casaco às pressas abotoado
    eis os efeitos deploráveis desta urgência.
    Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
    ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
    Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
    conheço.
    Isso é justo — pergunto
    (com a voz rouca
    porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
    É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
    feita em acomodações provisórias. Não.
    De pé em meio à cena vejo como é sólida.
    Me impressiona a precisão de cada acessório.
    O palco giratório já opera há muito tempo.
    Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
    Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
    E o que quer que eu faça,
    vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

    Wisława Szymborska, Poemas

  • Patina-se sempre no nevoeiro sangrento, mas com algumas referências. O caos não está mais do que a alguns metros. Magro êxito, na verdade.
    Que contraste com O poder absoluto, milagroso, da leitura! Uma vida inteira lendo teria satisfeito os meus desejos. Isso eu já sabia aos sete anos de idade. A textura do mundo é dolorosa, inadequada; não me parece que se possa modificá-la. Realmente, acho que uma vida inteira lendo teria sido melhor para mim. Tal vida não me foi dada.

    Michel Houellebecq em Extensão do Domínio da Luta

  • Mãe

    A mulher fia o filho.
    No silêncio do corpo
    inaugura-se: mãe.
    O ventre: curvatura de sol
    levantando-se
    em mansidão de horizonte.
    De si própria se esquece:
    tecelã da rosa que já aflora
    em crescimento lento
    no seu sangue.
    Zila Mamede
    Mãe, poema do livro Exercício da Palavra, de 1975
  • O que você está lendo?

    Todos nós fazemos muitas perguntas uns aos outros: “Onde você passou as férias?” “Como você dormiu?” Ou, minha favorita, enquanto olho os últimos pedaços de bolo de chocolate no prato de sobremesa de um amigo, “Você vai terminar isso?” (Uma pergunta apresentada de forma memorável no filme Diner de 1982.)
    Mas há uma pergunta que acho que devemos fazer uns aos outros com muito mais frequência, e é “O que você está lendo?”
    É uma pergunta simples, mas poderosa, e pode mudar vidas, criando um universo compartilhado para pessoas que de outra forma estão separadas por cultura e idade e por tempo e espaço.
    Lembro-me de uma mulher que me disse que adorava ser avó, mas sentia-se tristemente sem contato com o neto. Ela morava na Flórida. Ele e os pais moravam em outro lugar. Ela ligava para ele e perguntava sobre a escola, sobre seu dia. Ele sempre respondia com monossílabos: Tô bem. Nada. Não.
    E então um dia ela perguntou o que ele estava lendo. E ele tinha acabado de começar Jogos Vorazes, uma série de romances distópicos para jovens de Suzanne Collins. Essa avó decidiu ler o primeiro volume, para que pudesse conversar sobre isso com o neto na próxima vez ao telefone. Ela não sabia o que esperar, mas se viu fisgada nas primeiras páginas quando Katniss Everdeen se oferece para tomar o lugar de sua irmã mais nova na batalha anual até a morte entre um seleto grupo de adolescentes.

    O livro ajudou esta avó a superar as superficialidades da conversa por telefone e envolver seu neto nas questões mais importantes que os humanos enfrentam sobre sobrevivência, destruição, lealdade, traição, bem e mal, e também sobre política. E ajudou seu neto a se envolver com a avó nas mesmas questões – não como uma criança que precisava de um sermão, mas como um companheiro de busca. Isso lhe deu uma linguagem para discutir questões nas quais ele estava pensando, sem ter que explicar por que esses temas lhe importavam.
    Quando falavam sobre Jogos Vorazes, eles não eram mais apenas avó e neto: eram dois leitores que embarcaram em uma jornada juntos. Agora seu neto mal podia esperar para falar com ela quando ela ligasse – para dizer onde ele estava, para descobrir onde ela estava e para especular sobre o que aconteceria a seguir.
    Os Jogos Vorazes deram-lhes inspiração para discussões mais profundas do que nunca, e forneceu-lhes uma riqueza de sugestões para suas conversas. O livro até os levou a falar sobre tópicos que incluíam desigualdade econômica, guerra, privacidade e mídia. À medida que continuaram lendo e falando sobre outros livros, descobriram que tinham uma linguagem comum em constante expansão: seu “vocabulário” era composto de todos os personagens, ações e descrições em todos os livros que liam, e eles podiam usá-los para transmitir seus pensamentos e sentimentos.

    Além do acidente de ser da mesma família, eles nunca tiveram muito em comum. Agora tinham.

    Quando nos perguntamos “O que você está lendo?” às vezes descobrimos como somos semelhantes; às vezes as maneiras como somos diferentes. Às vezes, descobrimos coisas que nunca soubemos que compartilhávamos; outras vezes, nos abrimos para explorar novos mundos e ideias. “O que você está lendo?” não é uma pergunta simples quando feita com curiosidade genuína; é realmente uma maneira de perguntar: “Quem é você agora e quem você está se tornando?”

    Books for Living – Will Will Schwalbe

  • Bois Dormindo

    à Tomé Filgueira

    A paz dos bois dormindo era tamanha
    (mas grave era tristeza do seu sono)
    e tanto era o silêncio da campina
    que ouviam nascer as açucenas.
    No sono os bois seguiam tangerinos
    que abandonando relhos e chicotes
    tangiam-nos serenos com as cantigas
    aboiadeiras e um bastão de lírios.

    Os bois assim dormindo caminhavam
    destino não de bois mas de meninos
    libertos que vadiassem chão de feno;

    e ausentes de limites e porteiras
    arquitetassem sonhos (sem currais)
    nessa paz outonal de bois dormindo.

  • “Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.”
    G. K. Chesterton, Ortodoxia.
  • Dani Querida

    Tenho pensado muito em escrever. Não exatamente no que vou escrever e sim no ato de escrever.
    Escrever é registrar.
    Registrar é olhar em volta ou para dentro e ver e observar e analisar e sentir e perceber e conjecturar e projetar e racionalizar e enumerar e resumir e narrar e repetir-para-elaborar e planejar e compor e bolar planos infalíveis, resenhas infernais, súmulas inquietantes, relatos coloridos, listas comoventes.
    Registro é o que nos define.
    Somos os caras que registram.
    Antes da escrita registramos entalhando ossos e desenhando nas paredes de cavernas e nas superfícies das rochas, espalhando flores em torno dos corpos sepultados de nossos entes queridos, produzindo utensílios e tratando peles de animais.
    Depois da escrita, inventando símbolos, alfabetos rebuscados, tomos e mais tomos gramaticais e regras ilógicas sobre o uso do hífen em plaquinhas de argila, pergaminhos e papel de carta da Hello Kitty.

    Somos os caras que registram com nossos celulares, nossas publicações independentes, caderninhos de capa florida, guardanapos de boteco, nossos sites e nossa indignação seletiva aqui e ali na rede social.

    – Quem são aqueles caras ali? – vai perguntar alguém de passagem pelo planeta.
    – São os caras do registro – responderá o outro E.T. – Eles relatam o que veem e sentem, anotam e desenham, costuram e modelam, escrevem e solfejam, pintam as paredes mesmo sabendo que vão apanhar quando pai chegar em casa. Eles fotografam o risoto feio para o Instagram, gravam áudios de oito minutos para a Iza, guardam o sapatinho do bebê para muito depois que o bebê partir daquele mundo, produzem livros, colam recortes em caderninhos fofos, sobem cartas de amor para a nuvem, escrevem recados dolorosos enquanto ouvem o coração trincar e a chuva cair no meio da madrugada.

    Escolha uma coisa, Dan, uma coisa perto de você, e registre. Do jeito que você puder ou quiser. Com palavras, imagens, desenhos ou voz (vamos evitar, por enquanto, os ossos entalhados, meu bem).
    Faça seu registro, mande para mim.
    Vamos começar hoje as nossas aulas de redação?
    Fal