Blog


  • A todos os pesquisadores e alunos…
    Quando queremos traduzir longas frases no Google, a tradução é literal. Significa traduzir palavra por palavra.
    Por isso compartilhamos alguns sites de tradução mais eficazes.
    📍 Sites onde você procura os significados das palavras, os termos e as palavras que têm sinônimos:
    📍 Um site que permite traduzir um documento completo ou um artigo sobre ele:
    📍 Site para traduzir pesquisas e arquivos:

     

    Ver original

     

  • A colherada estreita

    (Julio Cortázar)

    “Um fama descobriu que a virtude era um micróbio redondo e cheio de patas. Instantaneamente deu de beber à sua sogra uma grande colherada de virtude. O resultado foi horrível: essa senhora renunciou a seus comentários mordazes, fundou um clube para a proteção de alpinistas perdidos, e em menos de dois meses se comportou de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, inadvertidos até então, passaram ao primeiro plano para grande sobressalto e assombro do fama. Não teve outro remédio senão dar uma colherada de virtude à sua mulher, que o abandonou nessa mesma noite por achá-lo grosseiro, insignificante e completamente diferente dos padrões morais que flutuavam rutilando perante seus olhos.

    O fama refletiu largamente e afinal tomou ele próprio um frasco de virtude. Mas continuou da mesma maneira vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sogra ou a mulher, ambos se cumprimentam respeitosamente e de longe. Não ousam sequer se falar, tamanha é a sua perfeição respectiva e o medo que têm de contaminar-se.”

  • À DERIVA

    Horacio Quiroga – (1878 – 1937)

    O homem pisou algo esbranquiçado e, em seguida, sentiu a picadura no pé. Deu um salto e, ao voltar-se com um palavrão, viu uma jararacuçu que, enrodilhada, preparava um novo bote.

    O homem deu uma olhadela no pé, onde duas gotinhas de sangue se esforçavam em engrossar, e sacou o facão da cintura. A serpente viu a ameaça e afundou ainda mais a cabeça no centro de sua espiral; mas o facão caiu sobre ela, segregando-lhe as vértebras.

    O homem abaixou-se à mordedura, limpou as gotinhas de sangue e, durante um instante, examinou a ferida. Uma dor aguda brotava dos pontinhos violáceos e começava a invadir todo o pé. Apressadamente, atou com um lenço o tornozelo e seguiu pela picada até a fazenda.

    A dor no pé aumentava com a sensação de um inchaço tenso e, de repente, o homem sentiu três fulgurantes pontadas que, como relâmpagos, irradiavam-se a partir da ferida e subiam até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade. Uma secura metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, lhe arrancou um novo palavrão.

    Finalmente chegou à fazenda e lançou os braços à roda de um moinho. Os dois pontinhos violáceos agora desapareciam na monstruosa inchação de todo o pé. A pele parecia adelgaçada e a ponto de ceder, de tão esticada que estava. Quis chamar a mulher, mas a voz rebentou num ronco arrastado de garganta seca. A sede o devorava.

    ― Dorotea! ― consegui gritar num estertor. ― Dê-me cachaça!

    A mulher correu-lhe com um copo cheio, que o homem sorveu em três tragos. Mas não havia sentido gosto nenhum.

    ― Eu lhe pedi cachaça, não água! ― rugiu de novo. ― Dê-me cachaça!

    ― Mas é cachaça, Paulino! ― respondeu a esposa, espantada.

    ― Não! Você me trouxe água! Eu quero cachaça, já lhe disse!

    A mulher correu outra vez, voltando com a moringa. O homem tragou, um após o outro, mais dois copos. Contudo, nada sentiu na garganta.

    ― Bem, isto está horrível ― murmurou, olhando para o pé lívido, já tomado de um brilho gangrenoso. Sobre a funda atadura do tornozelo, a carne desbordava como um grande chouriço.

    As dores fulgurantes se sucediam em contínuos relâmpagos, e chegavam agora à virilha. A atroz secura da garganta, que a respiração parecia afoguear ainda mais, aumentava a olhos vistos. Quando tentou se erguer, um vômito fulminante o manteve meio minuto com a testa encostada à moenda.

    Mas o homem não queria morrer. Então, descendo à beira do rio, embarcou na canoa. Sentando-se à popa, pôs-se a remar até o meio do Paraná. Ali, a corrente, nas imediações do Iguaçu, percorre seis milhas e ela o levaria em menos de cinco horas a Tacurú-Pucú.

    O homem, com um ímpeto sombrio, pôde mesmo chegar ao meio do rio; mas, ali, as suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa e, depois de um novo vômito ― desta vez, de sangue ―, elevou o olhar para o Sol, que já transpunha a mata.

    Até a metade da coxa, toda a perna era um bloco disforme e duríssimo, que rebentava a roupa. O homem cortou a atadura e abriu a calça com a faca: o baixo-ventre desbordou inchado, terrivelmente doloroso, com grandes manchas lívidas. O homem estimou que não mais poderia chegar sozinho a Tacarú-Pacú e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, com quem estava intrigado há muito tempo.

    Agora, a corrente do rio precipitava-se até a banda brasileira, e o homem pôde atracar sem dificuldades. Arrastou-se na picada margem acima, mas, a uns vinte metros, exausto, ficou estendido de peito.

    ― Alves! ― gritou com as forças que pôde. E assuntou em vão.

    ― Compadre Alves! Não me negue este favor! ― gritou novamente, erguendo a cabeça. No silêncio da floresta, não ouviu um ruído sequer. O homem teve ainda coragem para chegar à canoa, e a corrente, arrebatando-a de novo, velozmente levou-a à deriva.

    Ali, o Paraná afunda num imenso cânion, cujas paredes, elevando-se uns cem metros, represam funebremente o rio. A partir das margens orladas de negros blocos de basalto, ergue-se a floresta, igualmente negra. Mais adiante, nos flancos e por detrás, erige-se a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio, rodopiante, se precipita, em incessantes borbulhas de água lodosa. A paisagem é agressiva e nela reina um silêncio de morte. Mas, ao entardecer, aquela beleza ― sombria e calma ― adquire uma singular majestade.

    O Sol já havia caído quando o homem, meio estendido no fundo da canoa, experimentou um violento calafrio. E, de repente, num sobressalto, aprumou pesadamente a cabeça; sentia-se melhor. Somente lhe doía a perna, a sede diminuía e o seu peito, agora livre, se abria em lenta inspiração.

    O veneno começava a esvair-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem e, embora não tivesse força para mover a mão, contava com a descida do orvalho para recompor-se de todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.

    O bem-estar avançava e, com ele, uma sonolência cheia de recordações. Já não sentia nada, na perna ou no ventre. O seu compadre Gaona viveria ainda em Tacurú-Pacú? Será que veria também Mr. Dougald, o seu ex-patrão, e o receptor de madeira do obraje[1]?

    Chegaria logo? O céu, no poente, se abria agora num abajur de ouro, e o rio dourava, também. Na costa paraguaia, já entenebrecida, a mata deixava cair sobre o rio a sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores cítricas e mel silvestre. Um casal de araras sobrevoou bem alto e silenciosamente, rumo ao Paraguai.

    Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando ocasionalmente em torno de si mesma, ante o borbotão de um redemoinho. O homem que seguia nela se sentia cada vez melhor, enquanto pensava no exato tempo que havia passado sem ver o seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez não, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isto mesmo, seguramente.

    De repente, sentiu que estava gelado até o peito.

    O que seria isso? E a respiração…

    Havia conhecido o receptor de madeiras de Mr. Dougalad, Lorenzo Cubilla, em Puerto Esperanza, numa Sexta-feira Santa… Sexta-feira? Sim, ou fora numa quinta?…

    O homem esticou lentamente os dedos da mão.

    ― Numa quinta-feira…

    E parou de respirar.

    [1] Estabelecimento de exploração florestal.

  • Inevitável egoísmo da humanidade

    Quando for mais velho, compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. É absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que sacrificariam eles os seus desejos aos nossos? Quando quiser compreender que cada um, no mundo, se preocupa apenas consigo próprio, exigirá menos dos seus semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer.

    W. Somerset Maugham – Servidão Humana

  • As pessoas são fracas

    As pessoas são fracas.
    Ou amamos e perdoamos suas fraquezas, ou só as amaremos até o dia inevitável em que se revelarem fracas.
    Então, fraquejando diante da fraqueza alheia e sem a força para perdoar, descartaremos quem cometeu a fraqueza de se revelar tão fraca quanto nós.
    Quer fraqueza maior que essa?
    Alex Castro
  • O velho cardigã azul do pai

    Anne Carson

    Agora está pendurado no espaldar da cadeira da cozinha
    onde eu me sento sempre,
    no espaldar da cadeira da cozinha, onde ele sempre se sentava.

    Eu o visto toda vez que chego,
    como ele fazia, batendo as botas
    para tirar a neve.

    Eu o visto e me sento no escuro.
    Ele não teria feito isso.
    E cortante o frio que desce do osso da lua no céu.

    Suas leis eram um segredo.
    Mas eu me lembro do momento em que eu soube
    que ele estava enlouquecendo dentro de suas leis.

    Ele estava parado na entrada da garagem quando cheguei.
    Vestia o cardigã azul com os botões todos fechados até em cima.
    Não só porque era uma tarde quente de julho

    mas o olhar em seu rosto…
    como uma criança pequena que alguma tia vestiu de manhã bem cedo
    para uma longa viagem

    em trens frios e plataformas ventosas
    e vai se sentar muito ereto na borda do seu assento
    enquanto as sombras como longos dedos

    sobre os montes de feno que passam zunindo
    continuam a impressioná-lo
    porque ele está viajando de trás para a frente.

    Do livro Arquivo das Crianças Perdidas – Valeria Luiselli – p. 278

  • Carta de Caio para Hilda, sobre Clarice

    PA, 29.12.70.

    Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite.

    Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário.

    Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando.

    De repente fiquei supernervoso e saí para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — “Fica comigo”. Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos states) e você.

    Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre o Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir.

    Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

    Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

    É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor.

    Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa.

    Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde.

    Um grande beijo do teu Caio.

    Caio Fernando Abreu em carta para Hilda Hilst, 29 de dezembro de 1970 – no livro “Três vezes Hilda: biografia, correspondência e poesia”. Companhia das Letras, 2018.

  • Italo Calvino – Se um viajante numa noite de inverno

    Já logo na vitrine da livraria, [você] identificou a capa com o título que procurava. Seguindo essa pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois são distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo de Terem Sido Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas antes Deve Ler Outros, Dos Livros Demasiados Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço, dos Livros Idem Quando Forem Reeditados Em Coleções De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir Emprestado A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem

    os Livros Que Há Tempo Você Pretende Ler,
    os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
    os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,
    os Livros Que deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
    os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,
    os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,
    os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.

    Bom, foi enfim possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto certamente muito grande, conquanto calculado num número finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já seria Hora De Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.

    Você se livra com rápidos ziguezagues e, de um salto, penetra na cidadela das Novidades Em Que O Autor Ou O Tema São Atraentes. Uma vez no interior dessa fortaleza, pode abrir brechas entre as fileiras de defensores e dividi-los em Novidades De Autores Ou Temas Já Conhecidos (por você ou por todos) e Novidades De Autores Completamente Desconhecidos (ao menos para você) e definir a atração que eles exercem sobre você segundo suas necessidades e desejos de novidade e não-novidade (da novidade que você busca no não-novo e do não-novo que você busca na novidade).

    Tudo isso para dizer que, após ter percorrido rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos de Se um viajante numa noite de inverno, pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de possuí-lo.

    Você ainda lançou sobre os livros em redor um olhar desgarrado (ou melhor, os livros é que o olharam com um olhar perdido como o dos cães nos cercados do canil municipal quando veem um ex-companheiro ser levado na coleira pelo dono que veio resgatá-lo) e, enfim, saiu.

    Italo Calvino. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. [tradução de Nilson Moulin]