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  • O Amor

     Maiakovski
    […]

    Ressuscita-me
    Ainda
    Que mais não seja
    Porque sou poeta
    E ansiava o futuro

    Ressuscita-me
    Lutando
    Contra as misérias
    Do cotidiano
    Ressuscita-me por isso

    Ressuscita-me
    Quero acabar de viver
    O que me cabe
    Minha vida
    Para que não mais
    Existam amores servis

    Ressuscita-me
    Para que ninguém mais
    Tenha de sacrificar-se
    Por uma casa
    Um barraco

    Ressuscita-me
    Para que a partir de hoje
    A partir de hoje
    A família se transforme

    E o pai
    Seja pelo menos
    O Universo
    E a mãe
    Seja no mínimo
    A Terra
    A Terra
    A Terra

  • Mineirinho

    Clarice Lispector

    É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu.” Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.
    Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
    Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
    Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
    Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo e Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o faz gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila, e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não entender.
    Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo – uma coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
    Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização. Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
    O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.


    Do livro: Para Não Esquecer
    Editora Rocco

  • O QI médio da população mundial

    que desde o pós-guerra até o final dos anos 90 sempre aumentou, nos últimos vinte anos está diminuindo …
    É o retorno do efeito Flynn. Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos. Muitas podem ser as causas desse fenômeno. Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem. Com efeito, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não se trata apenas da redução do vocabulário utilizado, mas também das subtilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre para o presente, limitado no momento: incapaz de projeções no tempo. A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e a pontuação são exemplos de “golpes fatais” à precisão e variedade da expressão. Apenas um exemplo: apagar a palavra “miss” (já desueta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que não existem fases intermediárias entre uma menina e uma mulher. Menos palavras e menos verbos conjugados implicam em menos capacidade de expressar emoções e menos possibilidades de elaborar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada vem diretamente da incapacidade de descrever suas emoções por meio de palavras. Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais pensamento desaparece. A história é rica em exemplos e muitos livros (Georges Orwell-1984; Ray Bradbury – Fahrenheit 451) contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras. Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras. Como pode um pensamento hipotético-dedutivo ser construído sem uma condicional? Como pode o futuro ser pensado sem uma conjugação no futuro? Como captar uma tempestade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia? Seja, e o que será depois do que poderia ter acontecido, realmente aconteceu? Queridos pais e professores: vamos conversar, ler e escrever para nossos filhos, para nossos alunos. Ensine e pratique o idioma em suas mais diferentes formas. Embora pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço está a liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus ′ ′ defeitos “, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo o que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza. ”
    Christophe Clavé

  • Desfado – Ana Moura

    Desfado – Ana Moura

     

    Quer o destino que eu não creia no destino
    E o meu fado é nem ter fado nenhum
    Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
    Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

    Ai que tristeza, esta minha alegria
    Ai que alegria, esta tão grande tristeza
    Esperar que um dia eu não espere mais um dia
    Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

    Ai que saudade
    Que eu tenho de ter saudade
    Saudades de ter alguém
    Que aqui está e não existe
    Sentir-me triste
    Só por me sentir tão bem
    Alegre sentir-me bem
    Só por eu andar tão triste

    Ai se eu pudesse não cantar ai se eu pudesse
    E lamentasse não ter mais nenhum lamento
    Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
    Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

    Ai que desgraça esta sorte que me assiste
    Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
    Na incerteza que nada mais certo existe
    Além da grande certeza de não estar certa de nada

    Ai que saudade
    Que eu tenho de ter saudade
    Saudades de ter alguém
    Que aqui está e não existe
    Sentir-me triste
    Só por me sentir tão bem
    Alegre sentir-me bem
    Só por eu andar tão triste

     

    Composição: Pedro Da Silva Martins

  • Amor depois de amor

    Love after love

    The time will come
    when, with elation
    you will greet yourself arriving
    at your own door, in your own mirror
    and each will smile at the other’s welcome,

    and say, sit here. Eat.
    You will love again the stranger who was your self.
    Give wine. Give bread. Give back your heart
    to itself, to the stranger who has loved you

    all your life, whom you ignored
    for another, who knows you by heart.
    Take down the love letters from the bookshelf,

    the photographs, the desperate notes,
    peel your own image from the mirror.
    Sit. Feast on your life.

    WALCOTT, Derek. “Love after love”. In:_____. Collected poems. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1986.


    Amor depois de amor

    Vai vir o tempo
    em que você, orgulhoso,
    vai saudar a si mesmo chegando
    à sua própria porta, em seu próprio espelho,
    e vão trocar sorrisos de boas-vindas,

    você vai dizer, sente-se. Coma.
    Vai amar o estranho que um dia você foi.
    Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
    pra ele mesmo, o estranho que o amou

    por toda a sua vida, e a quem você ignorou
    por outro alguém, que o conhece de cor.
    Pegue da estante as cartas de amor,

    as fotografias, as anotações desesperadas,
    descasque seu reflexo do espelho.
    Sente-se. Sirva-se da vida.

    WALCOTT, Derek. “Amor depois de amor”. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. In blog Estúdio Realidade. URL: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2011/12/amor-depois-de-amor-derek-walcott.html. Acessado em 1 de março de 2017.

    (mais…)

  • Nunca serei vencida

    Nunca serei vencida.
    Não o serei
    senão à força de vencer.
    Cada armadilha estendida
    fechando-me cada vez mais
    no amor
    que acabará por ser o meu
    túmulo,
    acabarei a minha vida numa cela
    de vitórias.
    Sozinha,
    a derrota encontra chaves,
    abre portas.
    A morte,
    para atingir o fugitivo,
    tem de se pôr em movimento,
    perder essa fixidez
    que nos faz reconhecer
    que ela é o duro contrário
    da vida.
    Ela dá-nos o fim do cisne
    atingido em pleno voo,
    de Aquiles agarrado pelos cabelos
    por não sabermos que sombria Razão.
    Como a mulher asfixiada no vestíbulo
    da sua casa de Pompeia,
    a morte não faz mais do que prolongar
    no outro mundo os corredores
    da fuga.
    A minha morte será
    de pedra.
    Conheço as passagens,
    as curvas,
    as armadilhas,
    todas as minas da Fatalidade.
    Não posso perder-me.
    A morte,
    para me matar,
    terá necessidade da minha
    cumplicidade.

    MARGUERITE YOURCENAR,
    in FOGOS (trad. de Maria da Graça Morais Sarmento, Difel, 1995)

  • A Vida da Bruxa

    Tradução de Ana Santos

    Quando eu era criança
    havia uma velha em nosso bairro
    a quem chamávamos A Bruxa.
    O dia todo ela espiava da sua janela no segundo andar
    por trás das cortinas enrugadas
    e às vezes abria a janela
    e gritava: Saiam da minha vida!
    Seu cabelo era como alga
    e sua voz como rocha.

    Penso nela às vezes
    e me pergunto se é nela que me transformo.
    Meus sapatos apontam para cima como os de um bufão.
    Montes do meu cabelo, enquanto escrevo isto,
    enrolam-se sozinhos feito dedos.
    Lanço as crianças para fora,
    pá por pá.
    Só meus livros me ungem,
    e alguns amigos,
    os que penetram minhas veias.
    Talvez esteja virando eremita,
    abrindo a porta apenas para
    uns poucos animais especiais?
    Talvez meu crânio esteja demasiado cheio
    e não tenha uma brecha através da qual
    possa tomar sopa?
    Talvez eu tenha fechado as cavidades
    para prender os deuses?
    Talvez, embora meu coração
    seja um gato de manteiga,
    eu o esteja inflando como a um zepelim.
    Sim. É a vida da bruxa,
    escalar a primordial escalada,
    um sonho dentro de um sonho,
    e então sentar-me aqui,
    um cesto de fogo nas mãos.

    Anne Sexton

  • Carta de Anne Sexton para a Filha

    Querida Linda,
    Estou no meio de um voo para St Louis para fazer uma leitura. Eu estava lendo uma história na New Yorker que me fez pensar na minha mãe e completamente sozinha no assento eu sussurrei ‘Eu sei, Mãe, eu sei’. (Achei uma caneta!). E pensei em você – algum dia voando para algum lugar completamente sozinha e eu morta talvez e você querendo falar comigo.
    E eu quero te responder (Linda, talvez não seja voando, talvez seja na sua própria mesa de cozinha bebendo chá durante alguma tarde quando você tiver 40 anos. A qualquer hora) – Quero te responder
    1º Eu te amo
    2º Você nunca me decepcionou
    3º Eu sei. Já estive lá. Eu também já tive 40 anos e uma mãe morta, de quem eu ainda precisava.
    Essa é a minha mensagem para a Linda-de-40 anos. Não importa o que aconteça, você sempre foi minha passarinha, minha excepcional Linda Gray. A vida não é fácil. É terrivelmente solitária. Eu sei disso. Agora você também sabe – esteja onde estiver, Linda, conversando comigo. Mas eu tive uma vida boa – eu escrevi e fui infeliz – mas eu vivi ao máximo. Você também, Linda – Viva ao MÁXIMO! Acima de tudo. Eu te amo, Linda-de-40-anos, e amo o que você faz, o que você descobre, o que você é! – Seja sua própria mulher. Seja daqueles que te amam. Fale com meus poemas, e fale com seu coração – eu estou em ambos: se precisar de mim. Eu menti, Linda. Eu amei sim minha mãe e ela me amou. Ela nunca me abraçava mas eu sinto saudades dela, por isso tenho que negar que a amava – ou que ela me amava! Boba da Anne! Isso mesmo!
    Beijo beijo beijo
    Mãe

  • Desta casta

    Tenho saído por aí, bruxa maldita,
    assombrado no escuro, na noite bravia;
    tramando o mal, minha espécie milita
    sobre casas comuns onde a lanterna luzia:
    sozinha, doze dedos, de loucura vasta.
    Mulheres assim não são mulheres, eu sabia.
    Eu tenho sido desta casta.

    Tenho achado grutas mornas sob o céu,
    enchido-as de potes, entalhes, estantes,
    móveis, panos, incontável cacaréu;
    para vermes e duendes preparo lanches:
    enfileirando-os, queixosa, exausta.
    Mulheres assim ninguém entendeu.
    Eu tenho sido desta casta.

    Tenho andado na sua caleça, cocheiro,
    acenado braços nus às vilas que passam,
    aprendendo as rotas finais, no fogareiro
    sobrevivo às chamas que pernas assam
    e fendem ossos, onde a carroça se arrasta.
    Mulheres assim de morrer não se vexam.
    Eu tenho sido desta casta.

    Anne Sexton