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  • Ruminações

    Donizete Galvão

    Nunca saí dessa roceira Minas
    que nos dá aflição e dor como herança.
    Lamaçal de bosta de vaca
    no curral bem em frente da casa.
    Cheiro de leite azedo nos latões
    e de óleo queimado para expulsar bernes.
    Jardins de dália e corações magoados,
    chás de consolda e escaldados de quirera.
    A avó socando o arroz no pilão,
    preparando decoada para o sabão
    ou com rodilhas para o feixe de lenha.
    Compras sem um item supérfluo
    anotadas nas cadernetas de armazém.
    Terras tomadas por sapé e sorocaba
    e vendidas para pagar promissórias.
    Vidas acanhadas atrás de janelas
    na cidade que não definha nem prospera.
    Rancores cultivados durante anos,
    as mesquinharias de parentes.
    Amor ressabiado, apenas sugerido,
    abraços sem calor, corpos com arestas.
    Podem dar-me asas, cheques de viagem,
    mandar-me para velejar em Bizâncio.
    Recolho, rumino e regurgito
    a as aspereza daqueles dias.
    Rejeito sua rica hospedagem.
    Sou um estranho em suas festas.
    Nunca saí desse círculo de ferro.
    Nunca saí dessa Minas que não termina.

  • De passagem

    Lisel Mueller

    Com que rapidez o mel filtrado
    da luz da tarde
    flui para a escuridão

    e o fechado broto livra-se
    de seu singular mistério
    a fim de desabrochar:

    como se o que existe, exista
    para poder perder-se
    e tornar-se precioso.

  • Imortalidade

    Lisel Mueller

    No castelo da Bela Adormecida
    o relógio bate cem anos
    e a garota na torre volta ao mundo.
    O mesmo ocorre com os criados na cozinha,
    que nem sequer esfregam os olhos.
    A mão direita do cozinheiro, levantada
    há exatamente um século,
    completa seu arco descendente
    até a orelha esquerda do ajudante de cozinha;
    as tensas cordas vocais do garoto
    libertam finalmente
    o sofrido lamento aprisionado,
    e a mosca, capturada no meio de um salto
    acima da torta de morango,
    cumpre sua missão permanente
    e mergulha no doce e vermelho esmalte.

    Quando criança, eu tinha um livro
    com uma gravura dessa cena.
    Eu era muito jovem para perceber
    como o medo persiste, e como
    o ódio que provoca o medo persiste,
    que sua trajetória não pode ser alterada
    ou rompida, apenas interrompida.
    Minha atenção estava na mosca;
    no fato de que este corpo leve
    com suas asas transparentes
    e o tempo de vida de um dia humano
    ainda ansiava por sua cota particular
    de doçura, um século depois.

    Trad.: Nelson Santander

  • Remedios Varo

    Poema para a fiandeira de Remedios Varo

    não há de ser
    só escuro o lado
    de dentro do muro
    o avesso do viço esse pesar

    é a retina
    que rege o furor das coisas

    sob o descompasso da neblina
    há terra úmida que germina —
    o coração do ventre
    mora no olhar

    há de se descortinar o céu de si
    vento estrela aurora boreal
    arrancar da própria costela a mulher que ali habita
    morrer-se a cada dia um tanto
    concha
    semente
    pranto
    navegar além do canto (e do silêncio)
    das sereias do pensamento

    Francesca Cricelli

    Ribeirão Preto, maio 2019.

     

    Com cinquenta anos eu me sinto assombrada, cada vez mais assombrada. Segunda adolescência, busca de respostas, o mundo se despedaçando. Como sempre, mato a realidade nos livros. O que leio agora é O Mundo Desdobrável da Carola Saavedra.
    Estou amando e fico lendo, suspirando, rabiscando, fazendo pausas e enchendo o WhatsApp dos amigos de trechos. Pois bem. Leio hoje um trecho em que Carola fala de uma artista chamada Remedios Varo.
    Paro imediatamente, tenho essa fissura tola de ficar indo em busca das referências. Mas olha só, ela começa o tal trecho assim: “Remedios Varo é uma das artistas mais interessantes que conheço”. Basta isso para que eu queira saber quem é essa artista que encantou a outra artista que tem me encantado, e corro atrás.

    Descubro que realmente, puta que pariu, que mulher interessante, como eu não conhecia a história dela? Continuo correndo atrás e vejo as pinturas, socorro, cada uma mais incrível que a outra.


    Parecem sonhos, são poesia em telas. E são todas dos anos 50-60 do século XX, mas parecem imagens que vejo agora no universo das pessoas jovens. Parecem saídas do Pinterest ou do Instagram de alguém que ainda está no próprio tempo.

    E as pinturas de Varo são surreais, acontecem no próprio coração do movimento Surrealista. Fico encantada, e com muita pena de não poder ver essas pinturas ao vivo. Ainda bem que existe a internet e que vivemos de simulacro. Por ora vai ter que servir.

    Resolvo começar a ler sobre ela, a Remedios Varo. Esqueço da vida, esqueço esse mundo feio, todos os meus problemas (ui que delícia). Já me sinto amiga dela, queria bater papo.

    Aí até ensaiei fazer uma pequena biografia dela, mas não, informações sobre os dados e datas da vida dela são fáceis de encontrar.

    Pois o que eu queria mesmo era falar para vocês que ela foi uma pintora que fez parte do movimento surrealista, era considerada sensacional por André Breton (e por vários outros), mas não teve o mesmo reconhecimento dos homens do movimento, nem de longe.
    Também queria contar que ela era antinazista, antifascista, que divergia dos surrealistas da Espanha pois achava que eles eram pouco comprometidos com as mudanças sociais.
    Que ela viveu em Paris nos anos dourados do Surrealismo. Que antes ela foi contemporânea de Dali, e viu Um Cão Andaluz em primeira mão.

    Remedios pintava o inconsciente, sua obra é uma explosão de cores e de detalhes simbólicos. Que como soi acontecer, ela estava na vanguarda, como pessoa e como artista. E não se envergonhava de suas bruxarias ou de seu colorido.

    Que ela se casou para sair do jugo da família e na primeira oportunidade vazou com o marido para a França, fugindo da Guerra Civil espanhola. Mas logo se viu numa Paris ocupada. E Frida Kahlo rogou ao governo do México que a recebesse na fuga do nazismo. (Isso só se soube recentemente, a fofoca mais conhecida era a de que Frida e Diego esnobaram Remedios quando ela chegou ao México).

    Quero contar para vocês que as pinturas dela são maravilhosas e que ela era fascinante e teve N amantes, casou, descasou várias vezes, se apaixonou outras tantas. Que era muito amiga dos ex maridos e ex amores. Não teve filhos. Teve um amante 14 anos mais jovem e foi rodar o mundo com ele, que era piloto. Abandonou a Espanha e ficou no México. Era bruxa, mística, intelectual. Lia Gurdjeff e suas pinturas têm a influência dele e de gente como Poe, Dumas, Verne, Bosch, El Greco, Goya.
    Remedios adorava gatos, suas pinturas estão cheias de gatos, de torres, de relógios, de freiras, de fios finíssimos, de rodas de bicicletas e de pessoas magérrimas. Também é cheia de janelas e de Freud e de Jung.
    Essa moça tão diferente encantou Octavio Paz. E esse poeta lhe escreveu um texto belíssimo, além de cartas e bilhetes cheios de amor e admiração.

    Mas o que me deixou cheia de risadinhas juvenis foi a amizade dela com Leonor Carrington. As duas trocavam receitas de poções eróticas e mágicas, se deliciavam conversando sobre misticismo e magia e viagens interiores, e também com coisas que seriam impossíveis de realizar. E riam juntas, eram vizinhas e bebiam juntas. Conquiatariam o mundo juntas se tivessem deixado. Não me contaram isso, mas certamente elas se apoiavam. Ainda mais nos anos 50, contra tudo, contra o mundo dos homens. E juntas causavam (risos). Elas se chamavam almas gêmeas.


    Também não posso esquecer de falar que as obras dela são sim, do mesmo nível dos maiores trabalhos surrealistas e que ela não merecia ficar fora da história da pintura, como uma menção apenas. Isso não sou eu que falo, quem sou eu, mas gente que entende do riscado. Ainda bem que nosso tempo vem corrigindo essas injustiças.

    Remedios morreu muito cedo, morreu aos 55 anos. É outro assombro pensar nisso. É um assombro pensar numa vida tão curta e tão rica, ela tinha apenas 55! Por isso também eu tenho 50 e vivo assombrada.
    Outra hora vou procurar sobre Leonor, talvez ela tenha morrido mais tarde. Quem sabe ela começou depois dos 50 e eu ainda tenho tempo? (risos eternos)


    Aí vai um pequeno pdf que fiz com algumas obras de
    Remedios e um texto de Octavio Paz sobre ela: Remedios Varo pinturas e texto

    (Esse texto eu fiz de cabeça depois de ler várias coisas e pode ter incorreções. Mas se alguém se dignar a ver as pinturas dela, já valeu)
  • TODAS AS HISTÓRIAS JÁ FORAM CONTADAS

    Trata-se de uma afirmação muito comum no discurso pós-moderno: tudo já foi feito, e, principalmente, todas as histórias já foram contadas. Será? Será que já contamos todas as histórias sobre o parto, a experiência de um parto normal? A experiência de uma cesárea? A dor de dar à luz um bebê morto? Sobre a violência obstétrica, sobre a depressão pós-parto, sobre a amamentação? Sobre não querer amamentar e sobre não poder amamentar? Será que já contamos todas as histórias sobre a experiencia da menstruação? E da menopausa? Quantos romances falam sobre a menopausa? Será que já contamos todas as histórias sobre esterilização forçada, sobre não querer ser mãe, sobre querer ser mãe e não poder, sobre ter um filho negro ou indígena ou homossexual ou trans, sobre o medo da violência das pessoas e instituições sobre esse filho? Será que já contamos todas as histórias sobre o que significa ser uma mulher negra? E uma mulher indígena? E sobre mulheres ou homens trans? Será que já contamos todas as histórias sobre o sexo entre duas mulheres? E sobre o amor entre duas mulheres? Será que já contamos todas as histórias sobre aborto? Sobre aborto espontâneo de um filho desejado e sobre aborto malfeito, sobre a menina que engravida e é obrigada a ser mãe, sobre a menina que engravida? Será mesmo que todas as histórias já foram contadas?

    Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

  • O adágio, a paz e a simplicidade

    Affonso Romano de Sant’Anna

    Eu queria era escrever sobre o poder de certas árias musicais, tão simples que nos esfacelam o coração. Dessas que a gente ouve e fica em pura contemplação. Dessas que a gente não tem dúvida: não foram fabricadas, não foram compostas, nasceram prontas, como pronta nasce uma flor da semente de si mesma, naturalmente.

    Que força têm certas árias! Não quero citar nomes, mas não resisto e cito logo um exemplo universal: o adágio do Concerto de Aranjuez, do compositor espanhol Joaquín Rodrigo.

    Não há ninguém até hoje que tenha resistido a essa música. Tenho certeza que toda vez que soam aqueles instrumentos num quebranto árabe e espanhol o mundo se torna melhor. E se conseguissem tocar esse trecho da música em todos os quarteirões do mundo, incluindo os mares e desertos, poder-se-ia dizer que num certo instante o mundo foi irremediavelmente feliz.

    Há inumeráveis músicas bonitas, benfeitas e inteligentes, mas há algumas árias que a gente ouve e pensa: o homem ainda tem salvação; se alguém parecido com a gente foi capaz de fazer isto, então nem tudo está perdido.

    É assim: começa a soar um concerto. Por exemplo, o Concerto 21, para piano e orquestra, de Mozart. Aí, apesar de já ser Mozart e você achar que Mozart não pode superar a si mesmo, de repente, ele parte para a maior lição de humildade, que é a aspiração de qualquer grande artista; escolhe duas ou três notinhas, que nas mãos dos inábeis passariam desapercebidas, e começa a pingá-las no piano. Começa o movimento chamado Andante. Aí, não tem jeito. Você tira o olho do livro, tira o olho das amarguras, tira o olho do desamor, esquece das dívidas, olha a natureza interior com uma forma suave e deixa a alma respirar beleza.

    Um dia estava num avião sobrevoando a Transilvânia, vejam só, aquela região de vampiros, estava indo para Jerusalém e de repente o comandante anunciou que íamos ter uma turbulência e por isto era necessário apertar os cintos etc. Mas como apertar os cintos se no headphone começou a soar o Andante do Concerto para violino de Mendelssohn?

    Caísse o avião, eu não estava nem aí. Anunciassem o que quisessem, toda e qualquer tragédia, há muito eu já estava nos céus entre querubins e serafins. Tenho certeza de que no dia em que Mendelssohn compôs essa parte do concerto, o Senhor, do alto de sua clemência, perdoou todos os pecados dele e de sua descendência até a quarta geração.

    Não falei ainda do Adágio de Albinoni. E o que essa música já fez pelo coração dos jovens amantes, só se compara ao que Aranjuez continua inapelavelmente a fazer quando nas tardes os amantes se encontram e diluem os corações, um nas doçuras do outro.

    Estou me dando conta que privilégio muito os andantes e os adágios. Devo confessar que tenho um fraco por adágios e andantes. Aí a alma da gente começa a passear num parque de folhas secas, como se estivesse num dourado outono. O adágio tem essa força, essa gravidade, essa densidade, como se estivéssemos num ritual, caminhando para alguma coisa digna que dá sentido à nossa vida. Quando começa um movimento mais ríspido e espevitado, minha alma agradece, mas quer mesmo é adágio e andante, porque o ritual harmônico das almas é que dá sentido à vida.

    Algum maldoso poderia dizer: “Você está citando só musiquinhas populares dentro da música clássica”. Aí, eu exclamo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Eu também já tive minha fase de glorificar os modernos e modernosos, — e entre eles há tanta coisa que eu gosto! —, mas estou falando de uma coisa totalmente diferente, e se você não está me entendendo, finja que está, e prossigamos”.

    Acho que a idade da sabedoria, ou algo que se aproxime a isto, tem muito a ver com adágios e andantes. Na Grécia, os pensadores, quando queriam pensar algo grave, saíam andando fora dos muros da cidade, a conversar, peripateticamente. Andar e conhecer, colocar a alma em ritmo de adágio, pura meditação, ainda que acompanhada.

    Na infância e juventude predomina o allegro vivace. E bom para começar. Mas a alma se refestela mesmo é quando irrompe o denso e suave adágio da maturidade.

    Há uma série de músicas que nos enchem tanto de vida, que dizemos: “Essa é a música que eu queria ouvir na hora de morrer”. De minha parte, já pensei até em preparar uma gravação para isto. É a única maneira de compensar a feiura dos cemitérios e suas deprimentes capelas. Seria realmente mais digno ir sendo levado por uma verde campina enquanto soassem Mozart, Mendelssohn, Bach, Albinoni, Telemann, Vivaldi e outros.

    Não gosto de músicas que contrariem a natureza. E a música era outra coisa antes de o mundo conhecer a poluição industrial.

    Por isto, minha amiga, toque mais uma vez o Concerto de Aranjuez na sua alma. Deite-se entre as almofadas da tarde e vá sorvendo o silêncio da noite, porque a vida é harmonia e musicalmente se ama melhor.

  • As Causas

    Todas as gerações e os poentes.
    Os dias e nenhum foi o primeiro.
    A frescura da água na garganta
    De Adão. O ordenado Paraíso.
    O olho decifrando a maior treva.
    O amor dos lobos ao raiar da alba.
    A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
    A Torre de Babel e a soberba.
    A lua que os Caldeus observaram.
    As areias inúmeras do Ganges.
    Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
    As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
    Os passos do errante labirinto.
    O infinito linho de Penélope.
    O tempo circular, o dos estóicos.
    A moeda na boca de quem morre.
    O peso de uma espada na balança.
    Cada vã gota de água na clepsidra.
    As águias e os fastos, as legiões.
    Na manhã de Farsália Júlio César.
    A penumbra das cruzes sobre a terra.
    O xadrez e a álgebra dos Persas.
    Os vestígios das longas migrações.
    A conquista de reinos pela espada.
    A bússola incessante. O mar aberto.
    O eco do relógio na memória.
    O rei que pelo gume é justiçado.
    O incalculável pó que foi exércitos.
    A voz do rouxinol da Dinamarca.
    A escrupulosa linha do calígrafo.
    O rosto do suicida visto ao espelho.
    O ás do batoteiro. O ávido ouro.
    As formas de uma nuvem no deserto.
    Cada arabesco do caleidoscópio.
    Cada remorso e também cada lágrima.
    Foram precisas todas essas coisas
    Para que um dia as nossas mãos se unissem.

    Jorge Luis Borges, in “História da Noite”

  • Literatura Indígena

    Literatura indígena. Quando os europeus chegaram no continente, a maior parte das culturas eram ágrafas, muitas ainda são, e lembro das palavras do xamā Davi Kopenawa, que chama os livros de peles de árvores mortas. Para Kopenawa, nós matamos árvores com o intuito de gravar ali o que nossa memória inepta não é capaz de lembrar. Me pergunto, o que será a literatura indígena?
    Talvez antes seja necessário pensar nas semelhanças e diferenças entre os tantos povos indígenas. Como comparar os Guarani, que resistem em grandes cidades como Rio e São Paulo, e etnias no mais profundo da Amazônia sem quase nenhum contato com a civilização “branca”?
    Mas talvez antes mesmo de começar estes questionamentos seja importante se fazer uma outra pergunta: o que é literatura? Costumamos associá-la à palavra escrita, como se esta fosse a única possibilidade. Gosto de imaginar que literatura é toda linguagem metafórica, toda linguagem simbólica: nosso corpo, uma árvore, um sonho, todo gesto de interpretação a partir deles é literatura. Um corpo que dança é literatura, a adivinhação do formato de uma nuvem. O filho que cresce no útero pode ser literatura. A voz que já não sai da garganta um homem, uma planta que perdeu as flores, um rio, um vulcão.
    Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

  • Quando à noite desfolho e trinco as rosas
    É como se prendesse entre os meus dentes
    Todo o luar das noites transparentes,
    Todo o fulgor das tardes luminosas,
    O vento bailador das Primaveras,
    A doçura amarga dos poentes,
    E a exaltação de todas as esperas.

    Sophia de Mello Breyner Andresen