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  • Uma Palavra

    Eu tenho uma palavra na garganta
    e não a solto, não me livro dela,
    apesar de seu ímpeto de sangue.
    Se eu a solto, ela queima o pasto vivo,
    sangra o cordeiro, faz cair o pássaro.

    De minha língua devo desprendê-la,
    encontrar-lhe uma toca de castores,
    ou sepultá-la com argamassa e cal,
    para não alçar voos como a alma.

    Eu não quero dar mostras de estar viva,
    enquanto ela em meu sangue vai e vem
    e sobe e desce por meu louco alento.
    Embora Jó, fremente, a tenha dito,
    não quer dizê-la minha pobre boca,
    a fim de que não role e não se enrede
    nas tranças das mulheres que a encontrem,
    e a fim de que não torça ou queime o mato.

    Quero lançar-lhe sólidas sementes
    que, numa noite, vão cobri-la toda,
    sem deixar dela o cisco de uma sílaba.
    Ou então vou quebrá-la, como a víbora
    que se parte em metades entre os dentes.

    E voltar a meu lar, entrar, dormir,
    já destacada e separada dela,
    e despertar depois de dois mil dias,
    renascida de sono e esquecimento.

    Sem saber – ai! – que tive uma palavra
    de iodo e pedra-ume entre meus lábios,
    e sem poder lembrar-me de uma noite,
    de um país estrangeiro e de uma casa,
    e da cilada e do infortúnio à porta,
    e de meu corpo a caminhar sem alma.

    Gabriela Mistral


    Tradução de Ruth Sylvia de Miranda Salles. In: MISTRAL, Gabriela; MEIRELES, Cecília. Poemas

  • Saldo Negativo

    Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
    que amputar uma perna, a frio, de um africano.
    Passa mais fome um francês com três refeições por dia
    que um sudanês com um rato por semana.

    É muito mais doente um alemão com gripe
    que um indiano com lepra.
    Sofre muito mais uma americana com caspa
    que uma iraquiana sem leite para os filhos.

    É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
    que roubar o pão da boca de um tailandês.
    É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
    que queimar uma floresta inteira no Brasil.

    É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
    que o drama de mil desempregados em Espanha.
    É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
    que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

    É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
    que a de insulina nas Honduras.
    É mais revoltante um português sem celular
    que um moçambicano sem livros para estudar.

    É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
    que a demolição de um lar na Palestina.

    Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
    que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês

    e isto não são versos; isto são débitos
    numa conta sem provisão do Ocidente.


    Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha.
  • Quando eu for pequeno mãe

    Quando eu for pequeno, mãe,
    quero ouvir de novo a tua voz
    na campânula de som dos meus dias
    inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
    Subirás comigo as ruas íngremes
    com a certeza dócil de que só o empedrado
    e o cansaço da subida
    me entregarão ao sossego do sono.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    os teus olhos voltarão a ver
    nem que seja o fio do destino
    desenhado por uma estrela cadente
    no cetim azul das tardes
    sobre a baía dos veleiros imaginados.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    nenhum de nós falará da morte,
    a não ser para confirmarmos
    que ela só vem quando a chamamos
    e que os animais fazem um círculo
    para sabermos de antemão que vai chegar.

    Quando eu for pequeno, mãe,
    trarei as papoilas e os búzios
    para a tua mesa de tricotar encontros,
    e então ficaremos debaixo de um alpendre
    a ouvir uma banda a tocar
    enquanto o pai ao longe nos acena,
    lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
    anunciando que vai voltar porque eu sou
    [pequeno
    e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

    José Jorge Letria, in “O Livro Branco da Melancolia”

  • e, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho,
    e se um outro acordou inseto na mente de um escritor,
    e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu,
    e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz,
    e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários,
    tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol”

    João Anzanello Carrascoza In: Caderno de Um Ausente

  • Mãe, eu quero ir-me embora

    Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
    daquilo que disseste quando os meus seios começaram
    a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
    murcharam tão depressa as rosas que me deram —
    se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
    deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

    Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
    cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
    só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
    que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
    os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
    deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
    e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

    Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
    caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
    Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
    não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
    as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
    embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
    de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
    uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

    Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
    nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
    hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
    Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
    essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
    o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
    foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
    tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
    virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

    Maria do Rosário Pedreira “Mãe, eu quero ir-me embora” in O Canto do Vento nos Cipestres (2001)

  • Para Maria da Graça

     

    Crônica de Paulo Mendes Campos

    Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

    Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

    Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

    Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”

    Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

    A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

    Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

    Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

    A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

    Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

    Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

    Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

    E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões.

    Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

    Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

    Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.


    Publicado pela primeira vez na Revista Manchete 588

  • Para uma criança de cinco anos

     

    Um caracol escala o peitoril da janela
    do seu quarto, depois de uma noite de
    chuva. Você me chama para ver,
    e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
    ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
    para que ninguém o esmague. Você entende
    e o carrega para fora, com mão diligente,
    para comer uma flor amarela.
    Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
    sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
    de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
    de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
    seus parentes mais próximos, e que abasteci
    das verdades mais duras muitos outros.
    Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
    e nós tratamos os caracóis com gentileza.

    ADCOCK, Fleur. “For a Five-Year Old”.

    In: Poems 1960-2000, Hexham: Bloodaxe Books, 2000.

    [Tradução: Nelson Santander]

  • Receita

    Ilustração de Antônio Benetazzo, morto pela ditadura

    O poema de hoje é um poema de resistência.

    Poesia brasileira de resistência à ditadura, feita nos anos sombrios

    RECEITA

    Nicolas Behr

    Ingredientes:
    2 conflitos de gerações
    4 esperanças perdidas
    3 litros de sangue fervido
    5 sonhos eróticos
    2 canções dos beatles

    Modo de preparar

    dissolva os sonhos eróticos
    nos dois litros de sangue fervido
    e deixe gelar seu coração
    leve a mistura ao fogo
    adicionando dois conflitos de gerações
    às esperanças perdidas
    corte tudo em pedacinhos
    e repita com as canções dos beatles
    o mesmo processo usado com os sonhos
    eróticos mas desta vez deixe ferver um
    pouco mais e mexa até dissolver
    parte do sangue pode ser substituído
    por suco de groselha
    mas os resultados não serão os mesmos
    sirva o poema simples ou com ilusões

    Nicolas Behr
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolas_Behr

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Benetazzo

  • Horas Tardias

     

    Nas noites de verão o mundo
    se move ao alcance do ouvido
    na interestadual com seus silvos
    e rugidos, uma ocasional sirene
    que nos provoca arrepios.
    Às vezes, em noites claras e serenas,
    vozes flutuam em nosso quarto,
    lunares e fragmentadas,
    como se o céu as houvesse liberado
    bem antes de nosso nascimento.

    No inverno fechamos as janelas
    e lemos Tchekhov,
    quase a chorar por seu mundo.

    Que luxo, sermos tão felizes
    que podemos nos afligir
    por conta de vidas imaginárias

    Lisel Mueller – tradução de J. A. Rodrigues