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  • Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio.
    Vergílio Ferreira
  • Quando você tem vinte anos, mesmo que você se sinta confuso e incerto a respeito dos seus objetivos, você tem um forte senso do que é a vida, e do que você é na vida, e pode vir a ser. Mais tarde…mais tarde há mais incerteza, mais sobreposição, mais retrocesso, mais falsas lembranças. Na juventude, conseguimos nos lembrar de toda a nossa curta vida. Mais tarde, a memória vira uma coisa feita de retalhos e remendos.
    O Sentido de um Fim, Julian Barnes
  • Repito. É preciso repeti-lo muito. O trabalho de uma mulher, desde que se levanta até a hora que vai pra cama, é tão pesado quanto um dia de guerra, pios que a jornada de trabalho de um homem, porque ela, ela precisa inventar seu emprego do tempo de acordo com o emprego do tempo das outras pessoas, das pessoas de sua família e das pessoas das instituições externas.  

    (Marguerite Duras, A vida material p. 46)

  • Leminski

  • “O que me salvou quando menina no Arizona à espera de ficar adulta, à espera da hora de fugir para uma realidade mais ampla, foi a leitura de livros. Ter acesso à literatura, à literatura do mundo, era escapar da prisão da frivolidade nacional, do mau gosto, do provincianismo compulsório, da educação vazia, dos destinos imperfeitos e da má sorte”

    Susan Sontag

  • A vida não se interessa pelo bem nem pelo mal. Dom Quixote estava sempre escolhendo entre o bem e o mal, mas fazia essas escolhas no seu estado de sonho. Ele era maluco. Só entrava na realidade quando estava tão ocupado tentando lidar com as pessoas que não tinha tempo de distinguir entre o bem e o mal. Como as pessoas só existem na vida, precisam dedicar seu tempo apenas a estarem vivas. A vida é movimento, e o movimento está ligado àquilo que faz com que o homem se movimente — que é a ambição, o poder, o prazer. O tempo que um homem pode dedicar à moralidade, ele sempre o terá de arrancar à força do movimento do qual faz parte. Ele é compelido a fazer escolhas entre o bem e o mal, cedo ou tarde, porque a consciência moral exige isso dele, para que ele possa continuar a viver consigo mesmo no dia seguinte. Sua consciência moral é a maldição que ele tem de aceitar dos deuses, a fim de obter deles o direito de sonhar.

    William Faulkner – Entrevista à Paris Review – A arte da ficção 12

  • ”Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente.”

    Valter Hugo Mãe

  • demasiado tarde

    há coisas piores do que
    estar só
    mas costuma levar décadas
    até que o percebamos
    e frequentemente
    quando o conseguimos
    é demasiado tarde
    e nada pior
    do que
    ser demasiado tarde.
    Charles Bukowski
  • Ocaso do Século

    Wislawa Szymborska

    Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX.
    Agora já não tem mais jeito,
    os anos estão contados,
    os passos vacilantes,
    a respiração curta.

    Coisas demais aconteceram,
    que não eram para acontecer,
    e o que era para ter sido
    não foi.

    Era para se chegar à primavera
    e à felicidade, entre outras coisas.

    Era para o medo deixar os vales e as montanhas.
    Era para a verdade atingir o objetivo
    mais depressa que a mentira.

    Era para já não mais ocorrerem
    algumas desgraças:
    a guerra por exemplo,
    e a fome e assim por diante.

    Era para ter sido levada sério
    a fraqueza dos indefesos,
    a confiança e similares.

    Quem quis se alegrar com o mundo
    depara com uma tarefa
    de execução impossível.

    A burrice não é cômica.
    A sabedoria não é alegre.
    A esperança
    já não é aquela bela jovem
    et cetera, infelizmente.

    Era para Deus finalmente crer no homem
    bom e forte
    mas bom e forte
    são ainda duas pessoas.

    Como viver – me perguntou alguém numa carta,
    a quem eu pretendia fazer
    a mesma pergunta.

    De novo e como sempre,
    como se vê acima,
    não há perguntas mais urgentes
    do que as perguntas ingênuas.

    Tradução de Regina Przybycien

  • Flor que recorda

    Cerca de ríos, manantiales y arroyos de la campiña cubana, pero también en algunos patios y jardines húmedos, crece la mariposa (Hedychium coronarium), la flor nacional de Cuba desde 1936 a pesar de su exotismo, pues es originaria de la India, de acuerdo con datos de expertos.

    Parece orquídea, mas não. Cheira a gardênia, mas também não. Suas grandes pétalas, asas brancas, tremem querendo voar, ir-se embora do talo; e há de ser por isso que em Cuba é chamada de borboleta.

    Alessandra Riccio plantou, na terra de Nápoles, um bulbo de borboleta, trazido de Havana. Em terra estranha, a borboleta deu folhas, mas não floresceu. E passaram-se os meses e os anos, e continuava sem dar nada além de folhas quando uns amigos cubanos de Alessandra chegaram a Nápoles e ficaram em sua casa durante uma semana.

    Então, nos arredores da planta, soaram e ressoaram as vozes de sua terra, o antilhano jeito de dizer cantando: a planta escutou aquela música das palavras durante sete dias e sete noites, porque os cubanos falam acordados e dormindo também.

    Quando Alessandra disse adeus aos seus amigos e voltou do aeroporto, encontrou em sua casa uma flor branca recém-nascida.

    Eduardo Galeano