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  • Sonhando os seios

    Mãe,
    estranha face divina
    sobre meu lar leitoso,
    aquele delicado asilo,
    te comi toda.
    Toda minha falta te
    engoliu como um prato.

    O que você ofertou
    eu lembro em um sonho:
    os braços sardentos me enlaçando,
    o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,
    os dedos de sangue atando meu sapato,
    os seios pendurados como dois tacos
    e então me atingindo assim,
    me curvando.

    Os seios que eu soube à meia-noite
    soam como o mar em mim agora.
    Mãe, ponho abelhas em minha boca
    para me impedir a comida
    mas isso de nada adiantou.
    No fim cortaram fora seus seios
    e o leite derramou deles
    nas mãos do cirurgião
    e ele os abraçou.
    Eu os tomei dele
    e plantei-os.

    Coloquei um cadeado
    em você, Mãe, querida humana morta,
    para que seus grandes sinos,
    aqueles queridos pôneis brancos,
    sigam galopando, galopando,
    onde quer que você esteja.

    Anne Sexton

  • Sonetos que não são

    Aflição de ser eu e não ser outra.
    Aflição de não ser, amor, aquela
    Que muitas filhas te deu, casou donzela
    E à noite se prepara e se adivinha

    Objeto de amor, atenta e bela.
    Aflição de não ser a grande ilha
    Que te retém e não te desespera.
    (A noite como fera se avizinha.)

    Aflição de ser água em meio à terra
    E ter a face conturbada e móvel.
    E a um só tempo múltipla e imóvel

    Não saber se se ausenta ou se te espera.
    Aflição de te amar, se te comove.
    E sendo água, amor, querer ser terra.
    Hilda Hilst


     

    Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos. E o que você lembra da história comum familiar costuma ser completamente diferente daquilo que seus irmãos lembram. Às vezes troco algumas cenas do passado com a minha irmã Martina, como quem troca figurinhas: e o lar infantil desenhado por uma e pela outra quase não têm pontos em comum. Os pais dela se chamavam igualzinho aos meus e moravam numa rua com o mesmo nome, mas certamente eram outras pessoas. De maneira que nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.
    Rosa Montero – A Louca da Casa

  • A pequena morte

    A pequena morte“, de Eduardo Galeano
    “Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

    (De Mulheres, tradução de Eric Nepomuceno, edição da L&PM.)

  • Contagem regressiva

    Acreditei que se amasse de novo
    esqueceria outros
    pelo menos três ou quatro rostos que amei
    Num delírio de arquivística
    organizei a memória em alfabetos
    como quem conta carneiros e amansa
    no entanto flanco aberto não esqueço
    e amo em ti os outros rostos.

    Ana Cristina César

  • Balada de Alzira

    Balada de Alzira

    As coisas não existem.
    O que existe é a ideia
    melancólica e suave

    que fazemos das coisas.

    A mesa de escrever é feita de amor
    e de submissão.
    No entanto
    ninguém a vê
    como eu vejo.
    Para os homens
    é feita de madeira
    e coberta de tinta.
    Para mim também
    mas a madeira
    somente lhe protege o interior
    e o interior é humano.

    Os livros são criaturas.
    Cada página um ano de vida,
    cada leitura um pouco de alegria
    e esta alegria
    é igual ao consolo dos homens
    quando permanecemos inquietos
    em resposta às suas inquietudes.
    As coisas não existem.
    A ideia, sim.

    A ideia é infinita
    igual ao sonho das crianças.

    –– extraído de “Balada de Alzira”, segundo livro de Hilda Hilst, publicado em 1951 pela Edições Alarico.

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  • A liberdade de ver os outros

    DFWDavid Foster Wallace

    Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

    – Bom dia, meninos. Como está a água?

    Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

    – Água? Que diabo é isso?

    Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude, mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

    Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

    Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

    Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

    Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

    Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

    Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

    Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

    Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

    De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

    É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

    Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

    Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

    Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

    Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

    Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

    Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

    Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

    No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

    O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

    O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

    Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

    Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

    É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.


    Este texto é a transcrição do discurso de que David Foster Wallace quando foi paraninfo de formatura, na Universidade Kenyon, em maio de 2005.
  • Como ‘Strange Fruit’ matou Billie Holiday

    billieholiday
    Foto de William P. Gottlieb. Billie Holiday e Mister at Downbeat em Nova York, ca. Fevereiro de 1947. Biblioteca do Congresso dos EUA

    por Brandon Weber em 20 de fevereiro de 2018 

    “Strange Fruit” pode ter sido escrita pelo compositor e poeta americano Abel Meeropol (também conhecido como Lewis Allen), mas desde que Billie Holiday cantou as três breves estrofes da música em 1937, ela se tornou a encarnação desta poesia.

    Holiday, nascida Eleanora Fagan, disse que sempre pensava em seu pai quando cantava “Strange Fruit”. Ele morreu aos 39 anos de idade depois que um “Hospital para Brancos” negou a ele tratamento médico. Por causa dessa memória, Holiday relutou em incorporar esta música ao seu repertório, mas acabou por fazê-lo como uma maneira de contar às pessoas sobre a realidade da vida sendo uma pessoa negra na América.

    “Isso me lembra como Pop morreu”, escreveu ela em sua autobiografia . “Mas eu preciso continuar cantando, não apenas porque as pessoas pedem, mas porque vinte anos depois da morte de Pop, as coisas que o mataram ainda estão acontecendo no sul”.

    A música era tão pungente para Holiday que ela estabeleceu algumas regras quando a cantava em seus shows: ela fechava o show com a música; os garçons parariam de servir quando ela começasse; e o recinto ficaria na escuridão total, exceto por um holofote em seu rosto. Não haveria bis.

    “Lady Day”, como Holiday era chamada por muitos na época, começou a trabalhar a música em seu repertório dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu assento no ônibus em Montgomery, Alabama. O escritor de jazz Leonard Feather se referiu à música como “o primeiro protesto significativo em palavras e música, o primeiro grito significativo contra o racismo”.

    As estrofes da música eram chocantes para alguns membros do público majoritariamente branco de Holiday:

    Árvores do sul dão frutos estranhos

    Sangue nas folhas e sangue na raiz

    Corpos negros balançando na brisa do sul

    Fruta estranha pendurada nas árvores.

    Às vezes, sua apresentação da música era recebida com uma feroz rejeição. Embora muitas pessoas soubessem que linchamentos de afro-americanos no sul eram comuns, houve resistência ao fim da prática entre os brancos do sul. O racismo, combinado com o desejo popular de limitar o poder federal sobre as ações locais, impediu as pessoas do Norte de tomarem medidas bem-sucedidas para acabar com os linchamentos no sul.

    No final, a insistência de Billie Holiday em executar “Strange Fruit” pode ter sido responsável por sua morte.

    Uma das principais tentativas de silenciá-la veio de um homem chamado Harry Anslinger, o primeiro comissário do Bureau Federal de Narcóticos e que era um racista extremo, mesmo para os anos 30. Como detalha Johann Hari em Chasing the Scream: Os Primeiros e Últimos Dias da Guerra contra as Drogas, Anslinger afirmou que os narcóticos fizeram os negros esquecerem seu lugar na sociedade americana, e que os músicos de jazz eram particularmente perigosos, criando músicas “satânicas” sob a influência da maconha.

    Holiday, que ao longo de sua carreira chamou a atenção do público para o impacto devastador da supremacia branca, também era usuária de drogas. Ela chamou a atenção de Anslinger, e ele  ordenou que Holiday parasse de tocar a música. Holiday se recusou e Anslinger aumentou seus esforços para silenciá-la.

    Depois que um dos homens de Anslinger foi pago para rastrear Holiday e forçá-la a comprar e usar heroína, ela passou dezoito meses na prisão. Após a sua libertação em 1948, o governo federal recusouse a renovar a sua licença de artista, que era obrigatória para qualquer artista tocando ou cantando em qualquer clube ou bar que servisse álcool.

    Isso minou totalmente sua carreira. Embora Holiday tenha conseguido realizar várias apresentações esgotadas no Carnegie Hall nos próximos anos, ela não podia mais viajar para tocar no circuito de clubes.

    Incapaz de se apresentar regularmente nos locais que amava, e de parar de se lembrar de uma infância que incluía ter sido violentada aos dez anos de idade e trabalhar em um bordel com sua mãe, Holiday finalmente começou a usar heroína novamente. Quando ela se internou em um hospital de Nova York em 1959, seu fígado estava com problemas, tomado pelo câncer. Ela estava emaciada, e seu coração e pulmões estavam comprometidos. Apesar de sua condição, ela não queria ficar lá. “Eles vão me matar. Eles vão me matar lá. Não deixem isso acontecer – ela implorava a amigos e familiares.

    De fato, os homens de Anslinger, pressentindo uma oportunidade macabra, apareceram ao lado da cama de seu hospital, algemaram-na, tiraram fotos, removeram presentes que as pessoas trouxeram para o quarto – flores, rádio, toca-discos, chocolates, revistas – e colocaram dois policiais na porta.

    Mesmo assim, quando os médicos começaram o tratamento com metadona, Holiday começou a melhorar, ganhando peso e melhorando lentamente. Mas então os homens de Anslinger impediram a equipe do hospital de administrar mais metadona. Ela sucumbiu à morte em poucos dias.

    A única versão filmada sobrevivente de Holiday tocando a música é do programa de televisão britânico de cabaré “Chelsea At Nine”, gravado em 25 de fevereiro de 1959 e lançado em março do mesmo ano, apenas alguns meses antes de sua morte. Sua voz é forte e impressionante; a emoção crua simplesmente devastadora.

     [youtube https://www.youtube.com/watch?v=dnlTHvJBeP0&w=560&h=315]