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  • Mães

    para J. B.

    Oh mãe,
    aqui no seu colo,
    tão bom quanto uma cuia de nuvens,
    eu, sua criança gananciosa,
    recebo seu seio,
    o mar embalado em pele,
    e seus braços,
    raízes cobertas de musgo
    e com novos brotos surgindo
    tirando-me risos com cócegas.
    Sim, estou noiva de meu ursinho
    mas ele tem o mesmo cheiro seu
    assim como o cheiro meu.
    Pego nos dedos seu colar
    que é todo olhos de anjo.
    Seus anéis que cintilam
    são como a lua na lagoa.
    Suas pernas me balançam pra cima e pra baixo,
    suas queridas pernas cobertas de nylon,
    são os cavalos em que montarei
    à eternidade.

    Oh mãe,
    depois deste colo da infância
    nunca mais poderei sair
    ao mundo das pessoas grandes
    como uma estranha,
    algo inventado,
    ou vacilação
    quando outro alguém
    está tão vazio como um sapato.

    Anne Sexton

  • Menstruação aos quarenta

    Anne Sexton

    Pensava num filho.
    O ventre não é um relógio
    nem um sino que toca,
    mas no décimo primeiro mês da sua vida
    sinto o Novembro
    do corpo assim como o do calendário.
    Daqui a dois dias será o meu aniversário
    e como sempre a terra terá entregue a sua colheita.
    Neste tempo procuro a morte,
    a noite para a qual me inclino,
    a noite que desejo.
    Bem, pois então—
    fala dele!
    Durante todo este tempo esteve no ventre.

    Pensava num filho…
    Tu, o nunca conseguido,
    o nunca semeado ou desatado,
    tu, o dos genitais que eu temia,
    o talo e o fôlego do cachorro.
    Dar-te-ei os meus olhos ou os dele?
    Serás tu o David ou a Susana?
    (Ouvi esses dois nomes e elegi-os.)
    Podes ser igual aos homens da tua família,
    os músculos das pernas de Michelangelo,
    mãos originárias da Jugoslávia,
    em qualquer parte o camponês, eslavo e determinado,
    em qualquer parte o sobrevivente, pletórico de vida—
    podia tudo isto ainda ser possível
    com os olhos de Susana?

    dois dias que se foram em sangue.
    Morrerei sem ser baptizada,
    a terceira filha que não azucrinaram.
    A minha morte virá no dia do santo do meu nome,
    O que há de errado com o dia do santo do meu nome?
    É só um anjo do sol.
    Mulher,
    que teces uma teia de aranha sobre ti mesma,
    um veneno fino e emaranhado.
    Escorpião,
    má aranha—
    morre.

    A minha morte pelos pulsos,
    duas etiquetas com o meu nome,
    sangue usado como um corpete
    para florescer,
    uma à esquerda e outra à direita:
    é uma habitação quente,
    o lugar do sangue.
    Deixa a porta aberta sobre as dobradiças!

    Dois dias para a tua morte
    e dois dias até à minha.

    Amor! Essa rubra doença –
    Ano após ano, David, deixar-me-ias furiosa!
    David, Susana, David, David!
    roliço e desgrenhado, assobiando na noite,
    sem nunca envelhecer,
    esperando sempre por ti no alpendre…
    ano após ano,
    minha cenoura, meu repolho,
    ter-te-ia possuído antes de todas as mulheres,
    chamando pelo nome,
    chamando-te minha.

    Anne Sexton e a Poesia Confessional: antologia e tradução comentada”/Renato Marques de Oliveira

  • Palavras para o velho abacateiro

    Antigamente as pessoas eram pessoas de chegar. Não sabíamos fazer despedidas.

    palavras da avó Catarina

    Quando chegamos da praia, o céu estava à espera que as pessoas todas se recolhessem para poder ordenar às nuvens que começassem a largar uma grande chuva molhada, era até raro em Luanda naquele tempo fazer uma ventania daquelas, os baldes no quintal começaram a voar à toa, os gatos nas chapas de zinco não sabiam bem onde era o buraco de se esconderem, os guardas da casa ao lado vieram a correr buscar as akás que estavam encostadas no muro e o abacateiro estremeceu como se fosse a última vez que eu ia olhar para ele e pensar que ele se mexia para me dizer certos segredos, não sei o que o abacateiro me disse, não soube mais entender e pode ter sido nesse momento que no corpo de criança um adulto começou a querer aparecer, não sei, há coisas que é preciso perguntar aos galhos de um abacateiro velho, cumprimentei o guarda enquanto corria no quintal a segurar os baldes que queriam levantar voo, fui fechar a porta da casa de banho e da despensa, a bomba de água disparou e assustei-me, o vento estava a pôr-me nervoso, olhei a mangueira com mangas verdes, olhei os galhos secos do abacateiro, reparei no encarnado vivo das romãs bem madurinhas ali perto do mamoeiro, olhei as uvas na videira e, enquanto olhava o céu escuro, ainda pensei que era tão estranho aquelas uvas terem um sabor tão nítido a manga adocicada, fui fechar a portinhola da casota onde ficavam as botijas de gás e ainda recolhi duas toalhas que estavam na corda, voltei a entrar na cozinha, com o corpo a pingar de chuva e suor fresco, a t-shirt estava tão molhada que voltei lá fora para deixá-la já pendurada na corda, parei um pouco a deixar a chuva cair sobre a cabeça, fechando os olhos, escutando o ruído que ela fazia cá fora no mundo e dentro de mim também, queria ver quantos pensamentos eu podia inventar — e pensar — ao mesmo tempo que ouvia aquele ruído tipo música de uma orquestra bêbada, ri, ri sozinho quando abri os olhos e vi a cadeira verde onde às vezes, mas raramente, também o camarada António gostava de ensaiar um sono distraído, caiu a carga de água que o céu tinha prometido pela cor e pelo vento soprado, enquanto a ventania diminuía de repente, a chuva caía como um embrulho gigante de redes de pesca que tivesse escorregado do armário de um pescador que estava lá muito em cima, nas alturas, era tanta água que mesmo ver a casa do Jika estava difícil, o mundo parecia um deserto molhado naquela tarde, ainda conseguia ouvir, mas mal, os passos dos guardas a correr e, entre tantas cascatas de água com a poeira da videira, do outro lado, tipo filme de western, um gato vesgo ficou parado em cima do outro telheiro a olhar para mim — seria o gato vesgo que eu tinha acertado no olho com o chumbo da pressão de ar? —, tive um pouco de medo, lá de dentro, a qualquer momento, a voz da minha mãe podia vir me perguntar se eu era maluco de estar ali com aquela chuva toda a pedir mesmo para ter uma crise de asma complicada, ali fora o gato calmo tinha ficado parado a olhar para mim, olhava mais com o olho vesgo que com o olho que via bem, perto de mim estava um ferro abandonado das obras do vizinho, sempre desconfiei dos gatos calmos, não me mexi, ele sim, devagarinho, saltou até perto das raízes da mangueira, parou de novo, foi a andar muito devagar, parecia que para ele não chovia e fazia um sol que lhe causava preguiça de partir, não me mexi, as mãos estavam na corda, como se eu estivesse preso com as molas de estender a roupa, a água caiu mais forte e de tanto não ver nada tive medo que o gato voltasse às escondidas e me atacasse, decidi entrar em casa, assustei-me com a voz da minha mãe — “o pai e eu estivemos a falar sobre aquele assunto” —, o meu corpo todo molhado, pensei que a minha mãe ia me ralhar de eu estar a trazer a chuva para dentro de casa, espalhando as gotas do meu corpo pelo chão limpo da cozinha, a mesma cozinha antiga que todos nós dizíamos a rir que era do camarada António, a minha mãe tinha os olhos molhados também e um grande silêncio invadiu a casa escolhendo esse espaço entre nós para ficar, eu olhava o chão pingado como se ele fosse muito mais distante, ouvia cada gota cair no chão e ao mesmo tempo pensei que não devia prestar atenção àquilo, pois outra coisa mais importante estava prestes a acontecer — “tu há tanto tempo que falavas nisso, nós estivemos a falar” —, a minha cabeça viajava pelo corredor escuro porque fazia esse domingo cinzento de chuva e ninguém tinha ainda acendido as luzes, a minha cabeça deslocava-se devagarinho e subia as escadas espreitando primeiro a sala onde a minha irmã mais nova tinha acabado de adormecer com o corpo todo cansado da praia e a pele cheia do sal do mar, onde tínhamos passado quase todos os sábados e domingos da nossa infância, eu subia as escadas sem fazer barulho, o meu pai podia ter decidido dormir um pouco e só acordar mais tarde para começar com um café na cozinha e ir ver se na televisão as equipas nacionais estavam a jogar futebol, o corredor lá em cima era um mar pesado de silêncios e isto não é poesia falada, havia ali um silêncio que pesava se uma pessoa se mexesse em qualquer direção, parei, quieto, a escutar a tarde que chovia lá fora, os ecos do comportamento das trepadeiras e das árvores enormes dos vizinhos, podia quase desenhar essas árvores sem olhar para elas, a mais cambuta do lado esquerdo, na casa da tia Mambo, devia ser um abacateiro e era maior que o nosso, tinha folhas gordas e um cheiro sempre poeirento mesmo que chovesse, e do lado direito, na casa da tia Iracema, havia uma árvore que imitava ou era mesmo um pinheiro muito alto e ligeiramente torto onde os pássaros — não sei porquê — gostavam de fazer voo rasante quando traziam minhocas na boca para dar aos filhos que tinham acabado de nascer e ficavam no telhado da tia Iracema a fazer barulho, parei, quieto, a escutar as trepadeiras, as árvores, uma buzina, algumas vozes, o cão do Bruno a ladrar tão longe e o barulho da caneta da minha irmã mais velha a escrever os pensamentos dela de domingo à tarde quando chove em Luanda, o que não se ouvia era o gritinho dos filhos desses pássaros que eu não disse mas são andorinhas, eles deviam estar a tremer de frio e de medo, todo mundo sabe, as andorinhas são como os gatos, não gostam nada da chuva, se calhar é por causa do barulho dos trovões, não sei — “filho, assim a pingar ainda te constipas” —, a porta do meu quarto estava aberta e uma luz nenhuma saía dele entrando no corredor a chamar-me, o mundo cinzento espreitava pela minha janela, entendi que havia uma nesga aberta nos vidros e, por ali, todas as vozes da tarde, da chuva, da trepadeira, das árvores, entravam pelo meu quarto para me dar sinais estranhos que o meu corpo não sabia aceitar, nem a minha cabeça, uma vontade de lágrimas me visitou, cocei a pele da bochecha que era um gesto antigo para falar com as minhas vozes de dentro, pingava menos o meu corpo, o calção molhado deixei junto à porta, entrei no meu quarto de tão poucos anos, fazia-me confusão entender porquê que eu vivia aquele quarto como um espaço antigo, como se eu fosse uma pessoa também de antigamente, e não era — via-se no espelho o meu corpo magro e a pele toda esticadinha a contornar os dedos da mão, os lábios desenhados quando eu os olhava sem compreender as curvas deles, os olhos que eram mais difíceis de olhar porque me traziam aos olhos essa chuva de eles ficarem encarnados — “nós pensamos que, se é realmente o que tu queres, podes ir estudar para outro país” —, pensei que lá nesse país teria outro quarto, mas não este, o antigo, o dos cheiros e das roupas e das músicas e dos livros e das escritas tristes e secretas, da mala com os livros do Astérix, ou A náusea, ou o Cem anos de solidão, ou os “gracilianos” como eu lhes chamava, ou a camisa amarela-escura com manchas pretas e acastanhadas que o meu pai trouxe de Portugal e, desde que a vi, soube que amava esse tecido de acalmar os olhos que às vezes choravam em frente ao espelho da incompreensão, porque o corpo mudava, a voz mudava, as mãos no corpo mudavam, era visível que eu preferia acordar mais tarde que acordar mais cedo, era visível, para mim, que ouvia barulhos e sentia cheiros que não podia dividir com ninguém, e a avó Agnette continuava a partilhar as noites comigo, contando, inventando, alterando as estórias todas, as de antigamente, as do presente e as outras, como se o tempo fosse o saco de ar com bolinhas que ela gostava de rebentar, como se, às 2h da manhã — entre risos de cumplicidade, olhares de fascínio que acendiam a madrugada, ternuras faladas como se fossem verdades de ofertar — ela me dissesse, devagarinho, com a voz convicta e os factos arrumados caoticamente, que o futuro não era uma coisa invisível que gostava de ficar muito à frente de nós mas antes — ela dizia como frase de adormecimento mútuo —, antes um lugar aberto, uma varanda, talvez uma canoa onde é preciso enchermos cada pedaço de espaço com o riso do presente e todas, todas as aprendizagens do passado, que alguns também chamam de antigamente — “assim a pingar, ainda te constipas” —, a minha mãe disse com chuva nos olhos bem encarnados, o corpo dela encolhido a dar marcha atrás na cozinha, no trajeto que ela tinha feito para vir devagarinho falar comigo, sem me ralhar por eu estar a molhar a cozinha, sem me falar da asma e dos brônquios, sem quase olhar para mim, eu também sem quase saber como olhar para ela, como dizer — a ela e a mim — que essa viagem, essa partida de ir embora, de repente me chegava fora do tempo, num terreno que ia muito além da dor e das lágrimas, num lugar que nenhum escrito meu podia ter conseguido explicar nem nenhuma lágrima conseguiria apagar, a minha mãe retirava devagar o corpo da cozinha, fiquei com os olhos postos nas gotas tombadas no chão, sem poder saber, nunca mais, o que era gota o que era lágrima, como se eu fosse um cego e naquele momento todos os cheiros e todas as dores da infância me pesassem no corpo, e isso estava bem, era normal, mas um peso me fechou os lábios e eu não soube o que dizer à minha mãe, talvez as frases dela trouxessem pedido de resposta, talvez se eu tivesse falado nesse tempo fora do meu corpo ela me tivesse dito, ou mostrado com os olhos, que aquele era, de qualquer modo, o tempo deles, dos meus pais, aí talvez os meus lábios dissessem que esse tempo de sabermos o momento de partir tinha acontecido fora do meu próprio tempo, e que nos últimos anos eu havia estado perdido, triste e confuso, num espaço tão grande que afinal eram apenas duas cadeiras de tecido encarnado, uma secretária, o armário embutido, o sofá-cama encarnado que eu mesmo tinha escolhido e usado essa palavra, “encarnado”, e riram porque era uma palavra de antigamente na boca de uma criança, esse espaço, com esse sofá-cama, com esse colchão fininho, com essas molas fracas, onde eu dormi tanto tempo com a avó Agnette, onde ela me ensinou madrugadas e deu todas as estórias e o desdobrar de todos os tempos que quis dar, esse espaço enorme assim tão pequenino era apenas um quarto, com a enorme janela virada para a trepadeira, que estava perto da poeira dela, que estava perto das flores, que estava perto da botija de gás vazia, que estava perto do contador de água, que estava perto da relva, que estava perto do cacto, que estava perto dos caracóis, que estavam perto das lesmas, que estavam perto da baba, que estava perto do portão pequeno, que estava perto da caixa de correio branca sem cartas, que estava perto da rua, que estava perto de mim — “se tu queres ir para outro lugar, nós também achamos que é o melhor”.

    Deixei os braços pousarem na madeira inchada e úmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá em baixo, na varanda, os passos da avó Agnette que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar fresco, senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância.

    A chuva parou. O mais difícil era saber parar as lágrimas.

    O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.

    Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette.

    Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.

    — Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.

    — Vão pra casa, filho.

    — Tantas vezes de um lado para o outro?

    — Uma casa está em muitos lugares — ela respirou devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.

    Ondjaki. Os da Minha Rua.

  • Heidegger adorava os “Rios”, de Hölderlin, sobretudo quando o poeta dizia que o rio peregrina e funda a ideia de natalidade. Pertencimento, em suma. Desta sensação de que pertencemos ao rio e ao lugar por onde o rio passa, e sempre fica, vem a sacralidade dos cursos das águas. Para aquele que Heidegger chama de homem da técnica, todavia, o rio é o objeto presentificado. Serve apenas para ser manipulado objetivamente, em virtude dos interesses materiais concretos dos homens.

    O outro rio, o que vela e desvela, o que peregrina e manifesta o sagrado (aquilo que Hölderlin chama de “festa” em que os deuses vêm como convidados) , é detestado pelo homem da técnica; um desencantador por excelência.

    Pai Francelino de Shapanan, Abê Olokun, lembrava lindamente que para o povo do tambor-de-mina o encantado não é o espírito de um humano que morreu; perdeu seu corpo físico. O encantado é aquele que se transformou, tomou outra feição, nova maneira de ser. Encantou-se em uma nova forma de vida, numa planta, num peixe, num animal, no vento, na folha, num rio.

    Nas praias do Itaqui, de Olho d´Água e da Ponta d´Areia moram a Princesa Ína, a Rã Preta, e a Menina da Ponta d´Areia. A pedra de Itacolomi é a morada de João da Mata, o Rei da Bandeira. A Praia dos Lençóis é do Rei Sebastião; a Mãe d´Água passeia nas pontas de Mangunça e de Caçacueira. Nas matas de Codó vivem Dom Pedro Angasso e a Rainha Rosa. É lá que Légua Boji Boa comanda as caboclas e os caboclos de sua guma.

    Na encruzilhada em que escuto o tambor-de-mina e leio os alemães, assombrado pelo desencanto de Mariana e agora de Brumadinho, concluo que quem morre não é a natureza, mas nós todos, que perdemos a dimensão da única sacralidade possivel para as nossas vidas; aquela que percebe o rio a partir da terceira margem, como intuiu o canoeiro do conto seminal de Guimarães Rosa: não mais o Paraopeba procurando o São Francisco, não mais o humano, não mais o natural. Tudo é um rio só: feito de carne, osso, folha, pedra, peixe, jitirana e água.

    (do instagram de)

    Luiz Antonio Simas

  • O que esperamos na ágora reunidos

    “O que esperamos na ágora reunidos?
    É que os bárbaros chegam hoje.

    Por que tanta apatia no senado?
    Os senadores não legislam mais?

    É que os bárbaros chegam hoje
    Que leis hão de fazer os senadores?
    Os bárbaros que chegam as farão.

    Por que o imperador se ergueu tão cedo
    e de coroa solene se assentou
    em seu trono, à porta magna da cidade?

    É que os bárbaros chegam hoje.
    O nosso imperador conta saudar
    o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
    um pergaminho no qual estão escritos
    muitos nomes e títulos.

    Por que hoje os dois cônsules e os pretores
    usam togas de púrpura, bordadas,
    e pulseiras com grandes ametistas
    e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
    Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
    de ouro e prata finamente cravejados?

    É que os bárbaros chegam hoje,
    tais coisas os deslumbram.

    Por que não vêm os dignos oradores
    derramar o seu verbo como sempre?

    É que os bárbaros chegam hoje
    e aborrecem arengas, eloquencias.

    Por que subitamente esta inquietude?
    (Que seriedade nas fisionomias!)
    Por que tão rápido as ruas se esvaziam
    e todos voltam para casa preocupados?

    Porque é já noite, os bárbaros não vêm
    e gente recém-chegada das fronteiras
    diz que não há mais bárbaros.

    Sem bárbaros o que será de nós?
    Ah! eles eram uma solução.”

     

    Konstantinos Kaváfis (Alexandria, 29 de abril de 1863 – Alexandria, 29 de abril de 1933) – Considerado um dos maiores poetas gregos modernos. Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu. traduzido por José Paulo Paes.

  • trecho de regresso a tipasa

    “(…) eu contemplava o mar que, nessa hora, se erguia imperceptivelmente num movimento cansado, e saciava as duas sedes que ninguém pode enganar por muito tempo sem murchar: a sede de amar e a de admirar. Porque não ser amado é apenas questão de pouca sorte, mas não ser capaz de amar é uma desgraça. Todos nós, atualmente, morremos dessa desgraça. Porque a violência e o ódio murcham o coração e a prolongada luta por justiça esgota o próprio amor que lhe deu origem. No clamor em que vivemos o amor é impossível e a justiça não basta. E é por isto que a Europa odeia a luz do dia e não sabe senão opor a injustiça a si própria. Contudo, a fim de impedir que a justiça se endureça como um belo fruto cor de laranja que possui uma polpa seca e amarga, eu descobri novamente em Tipasa que devemos manter intacto, dentro de nós, um frescor, uma fonte de alegria, saber amar o dia que escapa à injustiça e, uma vez conquistada essa luz, retornar ao combate. Aqui reencontrei a beleza antiga, um céu jovem, e avaliei minha sorte, compreendendo que nos piores anos de nossa loucura a lembrança desse céu jamais me abandonara. Foi ele que, no final das contas, me impediu de desesperar. Sempre soube que as ruínas de Tipasa eram mais jovens que nossos canteiros de obras ou nossos escombros. Ali, o mundo recomeçava todos os dias numa luz sempre nova. Oh luz! Este é o clamor de todos os personagens de dramas antigos quando colocados diante de seu destino. Este também era o nosso último recurso, e eu sabia disto agora. Nas profundezas do inverno finalmente descobri um verão invencível em mim.”

    Camus, Regresso a Tipasa

  • Sempre fui metido a ser artista e, pra ser sincero, a maior parte da vida isso me constrangeu. Primeiro que não pegava bem, coisa de gente desajuizada, segundo, que direito eu tinha? É coisa de quem tá querendo ser – era o diagnóstico. Ah lá o menino, querendo ser. Dessas coisas de artista meu pai tinha um nome: brincadeira sem futuro. Ah lá o menino, cas brincadeira sem futuro.
    Querendo ser de cantar, de imitar ator, de imitar os bicho, de desenhar cidade com bloco vermelho no chão do quintal e inventar uma história pra cada pessoa, que na verdade eram pedrinhas que eu riscava uns quadrados em volta e chamava de casas. Quer dizer, eu não só tinha o problema de querer ser, como ainda inventava de querer que as coisas sejam.
    Isso de querer que as coisas sejam é donde vem as artes tudo. Nesse ponto todo mundo tem um lado metido a artista. Basta dizer que o amor é uma brincadeira sem futuro. Aliás, o futuro é um lugar pros economistas e pras baratas (não necessariamente nesta ordem). Se bem que pode não ser, porque como disse, tem gente, muita gente, ainda querendo que as coisas sejam. Vai saber.
    Um dia eu descobri um novo chão de quintal, se chama livro. Ali dá pra botar toda sorte de brincadeira sem futuro e, por falar nisso, se chama “Os Dias Antes de Nenhum” o meu segundo que será lançado muito, muito, muito em breve.
    Torço pra que vocês visitem o próprio quintal de vez em quando, torço pra que ainda queiram ser e torço pra que ainda queiram que as coisas sejam.
    Ricardo Terto

  • Sobre labirintos e portas

     

    O escritor Pedro Rodrigues Salgueiro me encaminhou trecho de uma carta de Rosa de Luxemburgo, escrita da prisão de Breslau, numa noite natalina de 1917. Ela diz: “No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida, sob os passos lentos e pesados da sentinela, canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir.” O texto me deixou inquieto porque veio sem qualquer apresentação ou justificativa, aparentemente por nenhum motivo, grifado com um pequeno título: noite.

    É possível tatear no escuro à procura de uma saída, mesmo que as portas pareçam fechadas. Não é difícil reconhecer que o escuro existe, basta ligar a televisão ou o rádio, ler os jornais e ir ao cinema. Ou olhar pela janela do carro. Você nem precisa frequentar como paciente a emergência de um hospital público ou uma delegacia de polícia. Não vá tão longe.

    As trevas sempre existiram e Plínio, O Velho, até escreveu que encarar a luz é para os mortais a coisa mais aprazível e o que está sob a terra é nada. O que jaz escondido pertence ao mundo da ignorância. Quando desejamos conhecer algo, trazemos para a luz. A luz da ciência, a luz do conhecimento, a luz da razão.

    Mas, prefiro a luz do conhecimento, que não é necessariamente a luz da razão. O logos, este saber dos gregos que no ocidente chamou-se ciência, e que explica o que a mitologia deixou de explicar, não preenche todo o saber. Permanece o espaço da não razão, que não é necessariamente treva.

    A ciência não nos colocou no lugar mais calmo e justo, isso já sabemos. O medo de que algo inevitável está para acontecer atormenta nosso sono. Do mesmo jeito que atormentava o dos povos antigos, ao pressentirem o exército inimigo sitiando suas muralhas. Qual a diferença entre as bolas de fogo arremessadas das máquinas de guerra medievais e o fogo de uma bomba atômica? A morte está no fim de tudo, não importa a intensidade da explosão.

    No filme Sonhos, do japonês Akira Kurosawa, alguns soldados se perdem na tempestade de neve quando procuram um forte. Amarram-se uns aos outros para não se extraviarem. Cuidam em não dormir. Mas a fadiga e o sono são irresistíveis. O comandante deita e sonha com a morte. Ela vem buscá-lo, sedutora e bela. Ele acorda e grita por seus homens. Tateiam há dias, dão voltas sem nunca acharem o fortim que os acolherá e salvará suas vidas. Por fim, escutam um toque de corneta bem próximo. Sempre estiveram há alguns passos da salvação, mas, no escuro, não divisavam nada.

    Nunca existirá uma porta, afirmou Jorge Luis Borges ao escrever sobre labirintos. Pior que afirmar não existirem portas é dizer que estamos sós, ligados numa rede de comunicação, que não nos coloca em contato verdadeiro com ninguém. Dura metáfora. Dura muralha de pedra.

    Como responder à pergunta dos personagens de Tchekhov – o que fazer? – se a resposta é sempre: não sei. Ou que o mais importante é transformar a vida e que o resto é inútil. Transformar que vida?

    Dos fios de uma Rosa de Luxemburgo prisioneira, me aparece a crença de que o segredo não é outro senão a própria vida; de que a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo. Basta saber olhar.
    Ronaldo Correia de Brito

  • A jornada

    Um dia você finalmente descobriu
    o que tinha de fazer e então começou,
    mesmo que as vozes que te rodeavam
    continuassem vociferando
    péssimos conselhos –
    mesmo que a casa inteira
    começasse a estremecer
    e você sentisse a velha fisgada
    em seus calcanhares.
    “Redima minha existência!”
    clamaram as vozes.
    Mas você não se deteve.
    Sabia o que tinha de fazer,
    mesmo que o vento o perseguisse
    com seus dedos enrijecidos
    com todas as suas forças,
    mesmo que a melancolia por eles possuída
    se mostrasse aterradora.
    Já era tarde o suficiente,
    e a noite, tempestuosa
    e a estrada, repleta de galhos caídos
    e pedras pelo caminho.
    Porém lentamente,
    ao deixar aquelas vozes para trás
    as estrelas começaram a brilhar
    através dos lençóis de nuvens,
    e lá estava ocultada nova voz
    que lentamente reconheceste como sua,
    que se manteve em sua companhia
    enquanto adentrava a passos largos
    no mundo,
    determinado a fazer
    a única coisa que poderia fazer –
    determinado a salvar
    a única vida que pôde salvar.

    Mary Oliver

  • Na verdade, vivemos

    com muitos mistérios maravilhosos
    a serem entendidos.
    Como pode a grama ser nutritiva
    na boca dos cordeiros.
    Como podem os rios e as pedras estarem em permanente
    aliança com a gravidade
    enquanto nós mesmos sonhamos flutuar.
    Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
    que nunca mais se quebram.
    Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
    das cicatrizes dos golpes,
    chegam ao conforto de um poema.
    Deixem-me manter sempre a distância
    dos que pensam ter todas as respostas.

    Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
    Vejam! e riem de assombro
    e inclinam reverentes a cabeça.

    Mary Oliver, Evidence: Poems