
Categoria: poesia
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O velho cardigã azul do pai
Anne Carson
Agora está pendurado no espaldar da cadeira da cozinha
onde eu me sento sempre,
no espaldar da cadeira da cozinha, onde ele sempre se sentava.Eu o visto toda vez que chego,
como ele fazia, batendo as botas
para tirar a neve.Eu o visto e me sento no escuro.
Ele não teria feito isso.
E cortante o frio que desce do osso da lua no céu.Suas leis eram um segredo.
Mas eu me lembro do momento em que eu soube
que ele estava enlouquecendo dentro de suas leis.Ele estava parado na entrada da garagem quando cheguei.
Vestia o cardigã azul com os botões todos fechados até em cima.
Não só porque era uma tarde quente de julhomas o olhar em seu rosto…
como uma criança pequena que alguma tia vestiu de manhã bem cedo
para uma longa viagemem trens frios e plataformas ventosas
e vai se sentar muito ereto na borda do seu assento
enquanto as sombras como longos dedossobre os montes de feno que passam zunindo
continuam a impressioná-lo
porque ele está viajando de trás para a frente.Do livro Arquivo das Crianças Perdidas – Valeria Luiselli – p. 278
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O Amor
Maiakovski[…]Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuroRessuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por issoRessuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servisRessuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um barracoRessuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transformeE o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra -
Menstruação aos quarenta
Anne Sexton
Pensava num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino que toca,
mas no décimo primeiro mês da sua vida
sinto o Novembro
do corpo assim como o do calendário.
Daqui a dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terá entregue a sua colheita.
Neste tempo procuro a morte,
a noite para a qual me inclino,
a noite que desejo.
Bem, pois então—
fala dele!
Durante todo este tempo esteve no ventre.Pensava num filho…
Tu, o nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
tu, o dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do cachorro.
Dar-te-ei os meus olhos ou os dele?
Serás tu o David ou a Susana?
(Ouvi esses dois nomes e elegi-os.)
Podes ser igual aos homens da tua família,
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos originárias da Jugoslávia,
em qualquer parte o camponês, eslavo e determinado,
em qualquer parte o sobrevivente, pletórico de vida—
podia tudo isto ainda ser possível
com os olhos de Susana?Tudo isto sem ti—dois dias que se foram em sangue.
Morrerei sem ser baptizada,
a terceira filha que não azucrinaram.
A minha morte virá no dia do santo do meu nome,
O que há de errado com o dia do santo do meu nome?
É só um anjo do sol.
Mulher,
que teces uma teia de aranha sobre ti mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha—
morre.A minha morte pelos pulsos,
duas etiquetas com o meu nome,
sangue usado como um corpete
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita:
é uma habitação quente,
o lugar do sangue.
Deixa a porta aberta sobre as dobradiças!Dois dias para a tua morte
e dois dias até à minha.Amor! Essa rubra doença –
Ano após ano, David, deixar-me-ias furiosa!
David, Susana, David, David!
roliço e desgrenhado, assobiando na noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por ti no alpendre…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
ter-te-ia possuído antes de todas as mulheres,
chamando pelo nome,
chamando-te minha.Anne Sexton e a Poesia Confessional: antologia e tradução comentada”/Renato Marques de Oliveira
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A jornada
Um dia você finalmente descobriu
o que tinha de fazer e então começou,
mesmo que as vozes que te rodeavam
continuassem vociferando
péssimos conselhos –
mesmo que a casa inteira
começasse a estremecer
e você sentisse a velha fisgada
em seus calcanhares.
“Redima minha existência!”
clamaram as vozes.
Mas você não se deteve.
Sabia o que tinha de fazer,
mesmo que o vento o perseguisse
com seus dedos enrijecidos
com todas as suas forças,
mesmo que a melancolia por eles possuída
se mostrasse aterradora.
Já era tarde o suficiente,
e a noite, tempestuosa
e a estrada, repleta de galhos caídos
e pedras pelo caminho.
Porém lentamente,
ao deixar aquelas vozes para trás
as estrelas começaram a brilhar
através dos lençóis de nuvens,
e lá estava ocultada nova voz
que lentamente reconheceste como sua,
que se manteve em sua companhia
enquanto adentrava a passos largos
no mundo,
determinado a fazer
a única coisa que poderia fazer –
determinado a salvar
a única vida que pôde salvar.Mary Oliver
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Sonhando os seios
Mãe,
estranha face divina
sobre meu lar leitoso,
aquele delicado asilo,
te comi toda.
Toda minha falta te
engoliu como um prato.O que você ofertou
eu lembro em um sonho:
os braços sardentos me enlaçando,
o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando meu sapato,
os seios pendurados como dois tacos
e então me atingindo assim,
me curvando.Os seios que eu soube à meia-noite
soam como o mar em mim agora.
Mãe, ponho abelhas em minha boca
para me impedir a comida
mas isso de nada adiantou.
No fim cortaram fora seus seios
e o leite derramou deles
nas mãos do cirurgião
e ele os abraçou.
Eu os tomei dele
e plantei-os.Coloquei um cadeado
em você, Mãe, querida humana morta,
para que seus grandes sinos,
aqueles queridos pôneis brancos,
sigam galopando, galopando,
onde quer que você esteja.Anne Sexton
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A pequena morte
“A pequena morte“, de Eduardo Galeano
“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”(De Mulheres, tradução de Eric Nepomuceno, edição da L&PM.)
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Contagem regressiva
Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.Ana Cristina César

