Categoria: poesia

  • Balada de Alzira

    Balada de Alzira

    As coisas não existem.
    O que existe é a ideia
    melancólica e suave

    que fazemos das coisas.

    A mesa de escrever é feita de amor
    e de submissão.
    No entanto
    ninguém a vê
    como eu vejo.
    Para os homens
    é feita de madeira
    e coberta de tinta.
    Para mim também
    mas a madeira
    somente lhe protege o interior
    e o interior é humano.

    Os livros são criaturas.
    Cada página um ano de vida,
    cada leitura um pouco de alegria
    e esta alegria
    é igual ao consolo dos homens
    quando permanecemos inquietos
    em resposta às suas inquietudes.
    As coisas não existem.
    A ideia, sim.

    A ideia é infinita
    igual ao sonho das crianças.

    –– extraído de “Balada de Alzira”, segundo livro de Hilda Hilst, publicado em 1951 pela Edições Alarico.