Categoria: poesia

  • Mãe, eu quero ir-me embora

    Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
    daquilo que disseste quando os meus seios começaram
    a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
    murcharam tão depressa as rosas que me deram —
    se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
    deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

    Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
    cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
    só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
    que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
    os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
    deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
    e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

    Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
    caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
    Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
    não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
    as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
    embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
    de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
    uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

    Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
    nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
    hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
    Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
    essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
    o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
    foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
    tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
    virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

    Maria do Rosário Pedreira “Mãe, eu quero ir-me embora” in O Canto do Vento nos Cipestres (2001)

  • Para uma criança de cinco anos

     

    Um caracol escala o peitoril da janela
    do seu quarto, depois de uma noite de
    chuva. Você me chama para ver,
    e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
    ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
    para que ninguém o esmague. Você entende
    e o carrega para fora, com mão diligente,
    para comer uma flor amarela.
    Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
    sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
    de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
    de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
    seus parentes mais próximos, e que abasteci
    das verdades mais duras muitos outros.
    Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
    e nós tratamos os caracóis com gentileza.

    ADCOCK, Fleur. “For a Five-Year Old”.

    In: Poems 1960-2000, Hexham: Bloodaxe Books, 2000.

    [Tradução: Nelson Santander]

  • Receita

    Ilustração de Antônio Benetazzo, morto pela ditadura

    O poema de hoje é um poema de resistência.

    Poesia brasileira de resistência à ditadura, feita nos anos sombrios

    RECEITA

    Nicolas Behr

    Ingredientes:
    2 conflitos de gerações
    4 esperanças perdidas
    3 litros de sangue fervido
    5 sonhos eróticos
    2 canções dos beatles

    Modo de preparar

    dissolva os sonhos eróticos
    nos dois litros de sangue fervido
    e deixe gelar seu coração
    leve a mistura ao fogo
    adicionando dois conflitos de gerações
    às esperanças perdidas
    corte tudo em pedacinhos
    e repita com as canções dos beatles
    o mesmo processo usado com os sonhos
    eróticos mas desta vez deixe ferver um
    pouco mais e mexa até dissolver
    parte do sangue pode ser substituído
    por suco de groselha
    mas os resultados não serão os mesmos
    sirva o poema simples ou com ilusões

    Nicolas Behr
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolas_Behr

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Benetazzo

  • Horas Tardias

     

    Nas noites de verão o mundo
    se move ao alcance do ouvido
    na interestadual com seus silvos
    e rugidos, uma ocasional sirene
    que nos provoca arrepios.
    Às vezes, em noites claras e serenas,
    vozes flutuam em nosso quarto,
    lunares e fragmentadas,
    como se o céu as houvesse liberado
    bem antes de nosso nascimento.

    No inverno fechamos as janelas
    e lemos Tchekhov,
    quase a chorar por seu mundo.

    Que luxo, sermos tão felizes
    que podemos nos afligir
    por conta de vidas imaginárias

    Lisel Mueller – tradução de J. A. Rodrigues

  • Ruminações

    Donizete Galvão

    Nunca saí dessa roceira Minas
    que nos dá aflição e dor como herança.
    Lamaçal de bosta de vaca
    no curral bem em frente da casa.
    Cheiro de leite azedo nos latões
    e de óleo queimado para expulsar bernes.
    Jardins de dália e corações magoados,
    chás de consolda e escaldados de quirera.
    A avó socando o arroz no pilão,
    preparando decoada para o sabão
    ou com rodilhas para o feixe de lenha.
    Compras sem um item supérfluo
    anotadas nas cadernetas de armazém.
    Terras tomadas por sapé e sorocaba
    e vendidas para pagar promissórias.
    Vidas acanhadas atrás de janelas
    na cidade que não definha nem prospera.
    Rancores cultivados durante anos,
    as mesquinharias de parentes.
    Amor ressabiado, apenas sugerido,
    abraços sem calor, corpos com arestas.
    Podem dar-me asas, cheques de viagem,
    mandar-me para velejar em Bizâncio.
    Recolho, rumino e regurgito
    a as aspereza daqueles dias.
    Rejeito sua rica hospedagem.
    Sou um estranho em suas festas.
    Nunca saí desse círculo de ferro.
    Nunca saí dessa Minas que não termina.

  • De passagem

    Lisel Mueller

    Com que rapidez o mel filtrado
    da luz da tarde
    flui para a escuridão

    e o fechado broto livra-se
    de seu singular mistério
    a fim de desabrochar:

    como se o que existe, exista
    para poder perder-se
    e tornar-se precioso.

  • Imortalidade

    Lisel Mueller

    No castelo da Bela Adormecida
    o relógio bate cem anos
    e a garota na torre volta ao mundo.
    O mesmo ocorre com os criados na cozinha,
    que nem sequer esfregam os olhos.
    A mão direita do cozinheiro, levantada
    há exatamente um século,
    completa seu arco descendente
    até a orelha esquerda do ajudante de cozinha;
    as tensas cordas vocais do garoto
    libertam finalmente
    o sofrido lamento aprisionado,
    e a mosca, capturada no meio de um salto
    acima da torta de morango,
    cumpre sua missão permanente
    e mergulha no doce e vermelho esmalte.

    Quando criança, eu tinha um livro
    com uma gravura dessa cena.
    Eu era muito jovem para perceber
    como o medo persiste, e como
    o ódio que provoca o medo persiste,
    que sua trajetória não pode ser alterada
    ou rompida, apenas interrompida.
    Minha atenção estava na mosca;
    no fato de que este corpo leve
    com suas asas transparentes
    e o tempo de vida de um dia humano
    ainda ansiava por sua cota particular
    de doçura, um século depois.

    Trad.: Nelson Santander

  • As Causas

    Todas as gerações e os poentes.
    Os dias e nenhum foi o primeiro.
    A frescura da água na garganta
    De Adão. O ordenado Paraíso.
    O olho decifrando a maior treva.
    O amor dos lobos ao raiar da alba.
    A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
    A Torre de Babel e a soberba.
    A lua que os Caldeus observaram.
    As areias inúmeras do Ganges.
    Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
    As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
    Os passos do errante labirinto.
    O infinito linho de Penélope.
    O tempo circular, o dos estóicos.
    A moeda na boca de quem morre.
    O peso de uma espada na balança.
    Cada vã gota de água na clepsidra.
    As águias e os fastos, as legiões.
    Na manhã de Farsália Júlio César.
    A penumbra das cruzes sobre a terra.
    O xadrez e a álgebra dos Persas.
    Os vestígios das longas migrações.
    A conquista de reinos pela espada.
    A bússola incessante. O mar aberto.
    O eco do relógio na memória.
    O rei que pelo gume é justiçado.
    O incalculável pó que foi exércitos.
    A voz do rouxinol da Dinamarca.
    A escrupulosa linha do calígrafo.
    O rosto do suicida visto ao espelho.
    O ás do batoteiro. O ávido ouro.
    As formas de uma nuvem no deserto.
    Cada arabesco do caleidoscópio.
    Cada remorso e também cada lágrima.
    Foram precisas todas essas coisas
    Para que um dia as nossas mãos se unissem.

    Jorge Luis Borges, in “História da Noite”

  • Quando à noite desfolho e trinco as rosas
    É como se prendesse entre os meus dentes
    Todo o luar das noites transparentes,
    Todo o fulgor das tardes luminosas,
    O vento bailador das Primaveras,
    A doçura amarga dos poentes,
    E a exaltação de todas as esperas.

    Sophia de Mello Breyner Andresen

  • Tudo o que eu queria
    Era para sempre
    esse eterno deslumbramento
    de pássaro aprendendo o voo
    de rio aprendendo a montanha
    Tudo o que eu queria
    era para sempre
    esse fôlego, esse brilho
    esse abraçar o mundo
    como se o mundo fosse um filho
    e coubesse entre os braços.

    – Roseana Murray