Categoria: poesia

  • Feliz aniversário, Mãe

    Feliz Aniversário, Mãe, onde quer que você esteja ou não esteja.
    “E hoje era o teu dia de festa!
    Meu presente é buscar-te.
    Não para vires comigo:
    para te encontrares com os que, antes de mim,
    vieste buscar, outrora.
    Com menos palavras, apenas.
    Com o mesmo número de lágrimas.
    Foi lição tua chorar pouco,
    para sofrer mais.
    Aprendi-a demasiadamente.
    Aqui estamos, hoje.
    Com este dia grave, de sol velado.
    De calor silencioso.
    Todas as estátuas ardendo.
    As folhas, sem um tremor.
    Não tens fala, nem movimento nem corpo.
    E eu te reconheço.”
    Elegia – Cecília Meirelles
  • Cinzas

    No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
    Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
    Tive filhos com dores.
    Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
    eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
    Não luto mais daquele modo histérico,
    entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
    e a seu modo pacifica.
    As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
    Meu apetite se aguça, estalo as juntas de boa impaciência.
    Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
    Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
    um copo mal lavado. Mas que importa?
    Que importam as cinzas,
    se há convertidos em sua matéria ingrata,
    até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
    Este vale é de lágrimas.
    Se disser de outra forma, mentirei.
    Hoje parece maio, um dia esplêndido,
    os que vamos morrer iremos aos mercados.
    O que há neste exílio que nos move?
    Digam-no os legumes sobraçados
    e esta elegia.
    O que escrevi, escrevi
    porque estava alegre.

    Adélia Prado

  • Repenso o mundo

    Repenso o mundo, segunda edição,
    segunda edição corrigida,
    aos idiotas o riso,
    aos tristes o pranto,
    aos carecas o pente,
    aos cães botas.
    Eis um capítulo:
    A Fala dos Bichos e das Plantas,
    com um glossário próprio
    para cada espécie.
    Mesmo um simples bom-dia
    trocado com um peixe,
    a ti, ao peixe, a todos
    na vida fortalece.
    Essa há muito pressentida,
    de súbito revelada,
    improvisação da mata.
    Essa épica das corujas!
    Esses aforismos do ouriço
    compostos quando imaginamos
    que, ora, está só adormecido!
    O tempo (capítulo dois)
    tem direito de se meter
    em tudo, coisa boa ou má.
    Porém — ele que pulveriza montanhas
    remove oceanos e está
    presente na órbita das estrelas,
    não terá o menor poder
    sobre os amantes, tão nus
    tão abraçados, com o coração alvoroçado
    como um pardal na mão pousado.
    A velhice é uma moral
    só na vida de um marginal.
    Ah, então todos são jovens!
    O sofrimento (capítulo três)
    não insulta o corpo.
    A morte
    chega com o sono.
    E vais sonhar
    que nem é preciso respirar,
    que o silêncio sem ar
    não é uma música má,
    pequeno como uma fagulha,
    a um toque te apagarás.
    Morrer, só assim. Dor mais dolorosa
    tiveste segurando nas mãos uma rosa
    e terror maior sentiste ao som
    de uma pétala caindo no chão.
    O mundo, só assim. Só assim
    viver. E morrer só esse tanto.
    E todo o resto — é como Bach
    tocado por um instante
    num serrote.
    Wisława Szymborska, Poemas

  • Nostalgia

    NOSTALGIA
    Havia uma macieira no quintal –
    terá sido
    há quarenta anos – atrás,
    apenas prados. Rastos
    de açafrão na relva húmida.
    Fiquei naquela janela:
    final de abril. A primavera
    nas flores no quintal vizinho.
    Quantas vezes, na verdade, floriu
    a árvore no meu aniversário,
    no dia exato, não
    antes, não depois? Substituição
    do imutável
    para o mutante, a evolução.
    Substituição da imagem
    pela terra implacável . Que
    eu sei sobre este lugar,
    o papel da árvore que por décadas
    parecia um bonsai, vozes
    vindo dos campos de ténis –
    Campos. Cheiro de relva alta, corte novo.
    Como se espera de um poeta lírico.
    Olhámos para o mundo uma vez, na infância.
    O resto é memória.

    LOUISE GLUCK, in MEADOWLANDS

    (Hopewell, New Jersey, 1996),

    tradução de CARLOS CAMPOS

  • Bois Dormindo

    à Tomé Filgueira

    A paz dos bois dormindo era tamanha
    (mas grave era tristeza do seu sono)
    e tanto era o silêncio da campina
    que ouviam nascer as açucenas.
    No sono os bois seguiam tangerinos
    que abandonando relhos e chicotes
    tangiam-nos serenos com as cantigas
    aboiadeiras e um bastão de lírios.

    Os bois assim dormindo caminhavam
    destino não de bois mas de meninos
    libertos que vadiassem chão de feno;

    e ausentes de limites e porteiras
    arquitetassem sonhos (sem currais)
    nessa paz outonal de bois dormindo.

  • Cinzas – Adélia Prado

    No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita,
    Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
    Tive filhos com dores.
    Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
    eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
    Não luto mais daquele modo histérico,
    entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
    e a seu modo pacifica.
    As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de sonho.
    Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
    Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
    Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
    um copo mal lavado. Mas que importa?
    Que importam as cinzas,
    se há convertidos em sua matéria ingrata,
    até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
    Este vale é de lágrimas.
    Se disser de outra forma, mentirei.
    Hoje parece maio, um dia esplêndido,
    os que vamos morrer iremos aos mercados.
    O que há neste exílio que nos move?
    Digam-no os legumes sobraçados
    e esta elegia.
    O que escrevi, escrevi
    porque estava alegre.