Categoria: poesia

  • À Espera dos Bárbaros

    Konstantinos Kaváfis

    O que esperamos na ágora reunidos?

    É que os bárbaros chegam hoje.

    Por que tanta apatia no senado?
    Os senadores não legislam mais?

    É que os bárbaros chegam hoje.
    Que leis hão de fazer os senadores?
    Os bárbaros que chegam as farão.

    Por que o imperador se ergueu tão cedo
    e de coroa solene se assentou
    em seu trono, à porta magna da cidade?

    É que os bárbaros chegam hoje.
    O nosso imperador conta saudar
    o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
    um pergaminho no qual estão escritos
    muitos nomes e títulos.

    Por que hoje os dois cônsules e os pretores
    usam togas de púrpura, bordadas,
    e pulseiras com grandes ametistas
    e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
    Por que hoje empunham bastões tão preciosos
    de ouro e prata finamente cravejados?

    É que os bárbaros chegam hoje,
    tais coisas os deslumbram.

    Por que não vêm os dignos oradores
    derramar o seu verbo como sempre?

    É que os bárbaros chegam hoje
    e aborrecem arengas, eloqüências.

    Por que subitamente esta inquietude?
    (Que seriedade nas fisionomias!)
    Por que tão rápido as ruas se esvaziam
    e todos voltam para casa preocupados?

    Porque é já noite, os bárbaros não vêm
    e gente recém-chegada das fronteiras
    diz que não há mais bárbaros.

    Sem bárbaros o que será de nós?
    Ah! eles eram uma solução.

    Poesia Moderna da Grécia – José Paulo Paes

  • 21 de março : Dia Mundial da Árvore e da Floresta e Dia Mundial da Poesia

    ” As árvores crescem sós. E a sós florescem.

    Começam por ser nada. Pouco a pouco
    se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

    Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
    e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

    Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
    e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
    e os frutos dão sementes,
    e as sementes preparam novas árvores.

    E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
    Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
    Sós.
    De dia e de noite.
    Sempre sós.

    Os animais são outra coisa.
    Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
    fazem amor e ódio, e vão à vida
    como se nada fosse.

    As árvores não.
    Solitárias, as árvores,
    exauram terra e sol silenciosamente.
    Não pensam, não suspiram, não se queixam.

    Estendem os braços como se implorassem;
    com o vento soltam ais como se suspirassem;
    e gemem, mas a queixa não é sua.

    Sós, sempre sós.
    Nas planícies, nos montes, nas florestas,
    a crescer e a florir sem consciência.

    Virtude vegetal viver a sós
    e entretanto dar flores.”

    Antonio Gedeão, Poema da Árvore. In Movimento Perpétuo.🌱🌿🌳

  • Benedict Houart

  • FERNANDO PESSOA, in POESIAS INÉDITAS (1930-1935), [(Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990)]
    NÃO DIGAS NADA!
    Não digas nada!
    Não, nem a verdade!
    Há tanta suavidade
    Em nada se dizer
    E tudo se entender —
    Tudo metade
    De sentir e de ver…
    Não digas nada!
    Deixa esquecer.
    Talvez que amanhã
    Em outra paisagem
    Digas que foi vã
    Toda esta viagem
    Até onde quis
    Ser quem me agrada…
    Mas ali fui feliz…
    Não digas nada.
    p. 167
    23-8-1934
  • ALICE VIEIRA, in OS ARMÁRIOS DA NOITE, capa de Heduardo Kiesse/ ParadoXos (Caminho, 2014)
    esperar que voltes é tão inútil como o
    sorriso escancarado dos mortos na
    necrologia dos jornais
    e no entanto de cada vez que
    a noite se rasga em barulhos no elevador e
    um telefone se debruça de um sexto andar
    sinto que ainda ficou uma palavra minha
    esquecida na tua boca
    e que vais voltar
    para
    a
    devolver
    *
  • De amor nada mais resta que um Outubro
    e quanto mais amada mais desisto:
    quanto mais tu me despes mais me cubro
    e quanto mais me escondo mais me avisto.
    E sei que mais te enleio e te deslumbro
    porque se mais me ofusco mais existo.
    Por dentro me ilumino, sol oculto,
    por fora te ajoelho, corpo místico.
    Não me acordes. Estou morta na quermesse
    dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
    nem teus zelos amantes a demovem.
    Mas quanto mais em nuvem me desfaço
    mais de terra e de fogo é o abraço
    com que na carne queres reter-me jovem.
    Natália Correia, in “Poesia Completa”
  • Velha

    Estou com medo de agulhas.
    Estou cansada de lençóis de borracha e tubos.
    Estou cansada de rostos que eu não conheço
    e agora penso que a morte está começando.
    A morte começa como um sonho,
    repleto de objetos e do riso da minha irmã.
    Nós estamos jovens e nós caminhamos
    e colhemos mirtilos selvagens.
    em todo o caminho para Damariscotta.
    Ó Susan, ela gritou.
    você manchou o seu corpete novo.
    Gosto doce –
    minha boca tão cheia
    e o doce azul se esgotando
    em todo o caminho para Damariscotta.
    O que você está fazendo? Me deixe em paz!
    Você não vê que estou sonhando?
    Em um sonho você nunca tem oitenta.

    Anne Sexton

    http://www.mallarmargens.com/2019/01/quatro-poemas-de-anne-sexton-por.html

     

  • Exame de Rotina

    Catarina Costa

    Meu pai foi diagnosticado
    No meu seio esquerdo

    Do jeito que meu pai é aventureiro
    é capaz de querer ir até o mediastino
    um drible duplamente invisível
    feito o drible do tempo até
    o meridiano

    os médicos querem tirá-lo de lá
    dizem que não é saudável
    para uma moça jovem como eu
    nem para uma mulher
    amorosa como minha mãe
    acomodar esse senhor tão espaçoso
    que ao se espreguiçar
    se estende do mamilo à axila

    eu discuto com os médicos

    Deixo que meu pai fique
    contanto que fique
    em silêncio

    Sem atrapalhar minha mãe
    que aperta minha mão
    sem receio algum

  • CONSOLO ANTIGO

    por Anna Belle Kaufman

     

    Quando minha mãe morreu,
    um de seus pães de mel ficou no freezer.
    Eu não suportaria vê-lo desaparecer,
    assim ele esperou, perdoado,
    em sua caverna de gelo
    atrás das bandejas de metal
    por mais dois anos.

    No meu quadragésimo primeiro aniversário
    Eu o despedacei,
    uma ressurreição retangular,
    levantei o peso morto
    na palma da minha mão.

    Antes de descongelar,
    Eu parti, com faca serrilhada,
    a mais fina das fatias —
    Eucaristia judaica.

    Os quadrados âmbar,
    seus painéis translúcidos de nozes
    com gosto – um pouco queimado
    – de freezer,
    de geada,
    uma iguaria fermentada
    entregue
    de uma delicatessen no submundo.

    Eu ansiava por recordar a vida, não a morte –
    seu corpo imóvel na camisola rosa sobre a cama,
    do mesmo jeito que eu deito
    no berço raso dos lençóis espalhados
    depois que eles a levaram embora,
    inalando seu perfume uma última vez.

    Fecho os olhos, saboreio uma hóstia de
    pão sagrado na língua e
    tento provar minha mãe, para entender
    a mensagem que ela assou nestes pães
    quando estava muito doente para comê-los:

    Eu te amo.
    Isso vai acabar.
    Deixe algo de doçura
    e substância
    na boca do mundo.

  • Leminski