Autor: manancial

  • trecho de regresso a tipasa

    “(…) eu contemplava o mar que, nessa hora, se erguia imperceptivelmente num movimento cansado, e saciava as duas sedes que ninguém pode enganar por muito tempo sem murchar: a sede de amar e a de admirar. Porque não ser amado é apenas questão de pouca sorte, mas não ser capaz de amar é uma desgraça. Todos nós, atualmente, morremos dessa desgraça. Porque a violência e o ódio murcham o coração e a prolongada luta por justiça esgota o próprio amor que lhe deu origem. No clamor em que vivemos o amor é impossível e a justiça não basta. E é por isto que a Europa odeia a luz do dia e não sabe senão opor a injustiça a si própria. Contudo, a fim de impedir que a justiça se endureça como um belo fruto cor de laranja que possui uma polpa seca e amarga, eu descobri novamente em Tipasa que devemos manter intacto, dentro de nós, um frescor, uma fonte de alegria, saber amar o dia que escapa à injustiça e, uma vez conquistada essa luz, retornar ao combate. Aqui reencontrei a beleza antiga, um céu jovem, e avaliei minha sorte, compreendendo que nos piores anos de nossa loucura a lembrança desse céu jamais me abandonara. Foi ele que, no final das contas, me impediu de desesperar. Sempre soube que as ruínas de Tipasa eram mais jovens que nossos canteiros de obras ou nossos escombros. Ali, o mundo recomeçava todos os dias numa luz sempre nova. Oh luz! Este é o clamor de todos os personagens de dramas antigos quando colocados diante de seu destino. Este também era o nosso último recurso, e eu sabia disto agora. Nas profundezas do inverno finalmente descobri um verão invencível em mim.”

    Camus, Regresso a Tipasa

  • Sempre fui metido a ser artista e, pra ser sincero, a maior parte da vida isso me constrangeu. Primeiro que não pegava bem, coisa de gente desajuizada, segundo, que direito eu tinha? É coisa de quem tá querendo ser – era o diagnóstico. Ah lá o menino, querendo ser. Dessas coisas de artista meu pai tinha um nome: brincadeira sem futuro. Ah lá o menino, cas brincadeira sem futuro.
    Querendo ser de cantar, de imitar ator, de imitar os bicho, de desenhar cidade com bloco vermelho no chão do quintal e inventar uma história pra cada pessoa, que na verdade eram pedrinhas que eu riscava uns quadrados em volta e chamava de casas. Quer dizer, eu não só tinha o problema de querer ser, como ainda inventava de querer que as coisas sejam.
    Isso de querer que as coisas sejam é donde vem as artes tudo. Nesse ponto todo mundo tem um lado metido a artista. Basta dizer que o amor é uma brincadeira sem futuro. Aliás, o futuro é um lugar pros economistas e pras baratas (não necessariamente nesta ordem). Se bem que pode não ser, porque como disse, tem gente, muita gente, ainda querendo que as coisas sejam. Vai saber.
    Um dia eu descobri um novo chão de quintal, se chama livro. Ali dá pra botar toda sorte de brincadeira sem futuro e, por falar nisso, se chama “Os Dias Antes de Nenhum” o meu segundo que será lançado muito, muito, muito em breve.
    Torço pra que vocês visitem o próprio quintal de vez em quando, torço pra que ainda queiram ser e torço pra que ainda queiram que as coisas sejam.
    Ricardo Terto

  • Sobre labirintos e portas

     

    O escritor Pedro Rodrigues Salgueiro me encaminhou trecho de uma carta de Rosa de Luxemburgo, escrita da prisão de Breslau, numa noite natalina de 1917. Ela diz: “No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida, sob os passos lentos e pesados da sentinela, canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir.” O texto me deixou inquieto porque veio sem qualquer apresentação ou justificativa, aparentemente por nenhum motivo, grifado com um pequeno título: noite.

    É possível tatear no escuro à procura de uma saída, mesmo que as portas pareçam fechadas. Não é difícil reconhecer que o escuro existe, basta ligar a televisão ou o rádio, ler os jornais e ir ao cinema. Ou olhar pela janela do carro. Você nem precisa frequentar como paciente a emergência de um hospital público ou uma delegacia de polícia. Não vá tão longe.

    As trevas sempre existiram e Plínio, O Velho, até escreveu que encarar a luz é para os mortais a coisa mais aprazível e o que está sob a terra é nada. O que jaz escondido pertence ao mundo da ignorância. Quando desejamos conhecer algo, trazemos para a luz. A luz da ciência, a luz do conhecimento, a luz da razão.

    Mas, prefiro a luz do conhecimento, que não é necessariamente a luz da razão. O logos, este saber dos gregos que no ocidente chamou-se ciência, e que explica o que a mitologia deixou de explicar, não preenche todo o saber. Permanece o espaço da não razão, que não é necessariamente treva.

    A ciência não nos colocou no lugar mais calmo e justo, isso já sabemos. O medo de que algo inevitável está para acontecer atormenta nosso sono. Do mesmo jeito que atormentava o dos povos antigos, ao pressentirem o exército inimigo sitiando suas muralhas. Qual a diferença entre as bolas de fogo arremessadas das máquinas de guerra medievais e o fogo de uma bomba atômica? A morte está no fim de tudo, não importa a intensidade da explosão.

    No filme Sonhos, do japonês Akira Kurosawa, alguns soldados se perdem na tempestade de neve quando procuram um forte. Amarram-se uns aos outros para não se extraviarem. Cuidam em não dormir. Mas a fadiga e o sono são irresistíveis. O comandante deita e sonha com a morte. Ela vem buscá-lo, sedutora e bela. Ele acorda e grita por seus homens. Tateiam há dias, dão voltas sem nunca acharem o fortim que os acolherá e salvará suas vidas. Por fim, escutam um toque de corneta bem próximo. Sempre estiveram há alguns passos da salvação, mas, no escuro, não divisavam nada.

    Nunca existirá uma porta, afirmou Jorge Luis Borges ao escrever sobre labirintos. Pior que afirmar não existirem portas é dizer que estamos sós, ligados numa rede de comunicação, que não nos coloca em contato verdadeiro com ninguém. Dura metáfora. Dura muralha de pedra.

    Como responder à pergunta dos personagens de Tchekhov – o que fazer? – se a resposta é sempre: não sei. Ou que o mais importante é transformar a vida e que o resto é inútil. Transformar que vida?

    Dos fios de uma Rosa de Luxemburgo prisioneira, me aparece a crença de que o segredo não é outro senão a própria vida; de que a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo. Basta saber olhar.
    Ronaldo Correia de Brito

  • A jornada

    Um dia você finalmente descobriu
    o que tinha de fazer e então começou,
    mesmo que as vozes que te rodeavam
    continuassem vociferando
    péssimos conselhos –
    mesmo que a casa inteira
    começasse a estremecer
    e você sentisse a velha fisgada
    em seus calcanhares.
    “Redima minha existência!”
    clamaram as vozes.
    Mas você não se deteve.
    Sabia o que tinha de fazer,
    mesmo que o vento o perseguisse
    com seus dedos enrijecidos
    com todas as suas forças,
    mesmo que a melancolia por eles possuída
    se mostrasse aterradora.
    Já era tarde o suficiente,
    e a noite, tempestuosa
    e a estrada, repleta de galhos caídos
    e pedras pelo caminho.
    Porém lentamente,
    ao deixar aquelas vozes para trás
    as estrelas começaram a brilhar
    através dos lençóis de nuvens,
    e lá estava ocultada nova voz
    que lentamente reconheceste como sua,
    que se manteve em sua companhia
    enquanto adentrava a passos largos
    no mundo,
    determinado a fazer
    a única coisa que poderia fazer –
    determinado a salvar
    a única vida que pôde salvar.

    Mary Oliver

  • Na verdade, vivemos

    com muitos mistérios maravilhosos
    a serem entendidos.
    Como pode a grama ser nutritiva
    na boca dos cordeiros.
    Como podem os rios e as pedras estarem em permanente
    aliança com a gravidade
    enquanto nós mesmos sonhamos flutuar.
    Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
    que nunca mais se quebram.
    Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
    das cicatrizes dos golpes,
    chegam ao conforto de um poema.
    Deixem-me manter sempre a distância
    dos que pensam ter todas as respostas.

    Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
    Vejam! e riem de assombro
    e inclinam reverentes a cabeça.

    Mary Oliver, Evidence: Poems

  • Sonhando os seios

    Mãe,
    estranha face divina
    sobre meu lar leitoso,
    aquele delicado asilo,
    te comi toda.
    Toda minha falta te
    engoliu como um prato.

    O que você ofertou
    eu lembro em um sonho:
    os braços sardentos me enlaçando,
    o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,
    os dedos de sangue atando meu sapato,
    os seios pendurados como dois tacos
    e então me atingindo assim,
    me curvando.

    Os seios que eu soube à meia-noite
    soam como o mar em mim agora.
    Mãe, ponho abelhas em minha boca
    para me impedir a comida
    mas isso de nada adiantou.
    No fim cortaram fora seus seios
    e o leite derramou deles
    nas mãos do cirurgião
    e ele os abraçou.
    Eu os tomei dele
    e plantei-os.

    Coloquei um cadeado
    em você, Mãe, querida humana morta,
    para que seus grandes sinos,
    aqueles queridos pôneis brancos,
    sigam galopando, galopando,
    onde quer que você esteja.

    Anne Sexton

  • Sonetos que não são

    Aflição de ser eu e não ser outra.
    Aflição de não ser, amor, aquela
    Que muitas filhas te deu, casou donzela
    E à noite se prepara e se adivinha

    Objeto de amor, atenta e bela.
    Aflição de não ser a grande ilha
    Que te retém e não te desespera.
    (A noite como fera se avizinha.)

    Aflição de ser água em meio à terra
    E ter a face conturbada e móvel.
    E a um só tempo múltipla e imóvel

    Não saber se se ausenta ou se te espera.
    Aflição de te amar, se te comove.
    E sendo água, amor, querer ser terra.
    Hilda Hilst


     

    Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos. E o que você lembra da história comum familiar costuma ser completamente diferente daquilo que seus irmãos lembram. Às vezes troco algumas cenas do passado com a minha irmã Martina, como quem troca figurinhas: e o lar infantil desenhado por uma e pela outra quase não têm pontos em comum. Os pais dela se chamavam igualzinho aos meus e moravam numa rua com o mesmo nome, mas certamente eram outras pessoas. De maneira que nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.
    Rosa Montero – A Louca da Casa

  • A pequena morte

    A pequena morte“, de Eduardo Galeano
    “Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

    (De Mulheres, tradução de Eric Nepomuceno, edição da L&PM.)

  • Contagem regressiva

    Acreditei que se amasse de novo
    esqueceria outros
    pelo menos três ou quatro rostos que amei
    Num delírio de arquivística
    organizei a memória em alfabetos
    como quem conta carneiros e amansa
    no entanto flanco aberto não esqueço
    e amo em ti os outros rostos.

    Ana Cristina César