Autor: manancial

  • Balada de Alzira

    Balada de Alzira

    As coisas não existem.
    O que existe é a ideia
    melancólica e suave

    que fazemos das coisas.

    A mesa de escrever é feita de amor
    e de submissão.
    No entanto
    ninguém a vê
    como eu vejo.
    Para os homens
    é feita de madeira
    e coberta de tinta.
    Para mim também
    mas a madeira
    somente lhe protege o interior
    e o interior é humano.

    Os livros são criaturas.
    Cada página um ano de vida,
    cada leitura um pouco de alegria
    e esta alegria
    é igual ao consolo dos homens
    quando permanecemos inquietos
    em resposta às suas inquietudes.
    As coisas não existem.
    A ideia, sim.

    A ideia é infinita
    igual ao sonho das crianças.

    –– extraído de “Balada de Alzira”, segundo livro de Hilda Hilst, publicado em 1951 pela Edições Alarico.

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  • A liberdade de ver os outros

    DFWDavid Foster Wallace

    Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

    – Bom dia, meninos. Como está a água?

    Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

    – Água? Que diabo é isso?

    Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude, mas é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

    Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

    Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras “virtudes”. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

    Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica – pelo menos no meu caso – é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

    Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de “ensinar os alunos como pensar” é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. “Aprender a pensar” significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

    Lembrem o velho clichê: “A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível.” Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão – a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

    Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

    Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

    Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

    De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um “boa noite, volte sempre” numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

    É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

    Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

    Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim – só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

    Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

    Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

    Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação “inferno do consumidor” não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

    Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

    Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

    No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

    O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas – e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

    O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

    Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros – no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

    Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência – consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor – daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: “Isto é água, isto é água.”

    É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.


    Este texto é a transcrição do discurso de que David Foster Wallace quando foi paraninfo de formatura, na Universidade Kenyon, em maio de 2005.
  • Como ‘Strange Fruit’ matou Billie Holiday

    billieholiday
    Foto de William P. Gottlieb. Billie Holiday e Mister at Downbeat em Nova York, ca. Fevereiro de 1947. Biblioteca do Congresso dos EUA

    por Brandon Weber em 20 de fevereiro de 2018 

    “Strange Fruit” pode ter sido escrita pelo compositor e poeta americano Abel Meeropol (também conhecido como Lewis Allen), mas desde que Billie Holiday cantou as três breves estrofes da música em 1937, ela se tornou a encarnação desta poesia.

    Holiday, nascida Eleanora Fagan, disse que sempre pensava em seu pai quando cantava “Strange Fruit”. Ele morreu aos 39 anos de idade depois que um “Hospital para Brancos” negou a ele tratamento médico. Por causa dessa memória, Holiday relutou em incorporar esta música ao seu repertório, mas acabou por fazê-lo como uma maneira de contar às pessoas sobre a realidade da vida sendo uma pessoa negra na América.

    “Isso me lembra como Pop morreu”, escreveu ela em sua autobiografia . “Mas eu preciso continuar cantando, não apenas porque as pessoas pedem, mas porque vinte anos depois da morte de Pop, as coisas que o mataram ainda estão acontecendo no sul”.

    A música era tão pungente para Holiday que ela estabeleceu algumas regras quando a cantava em seus shows: ela fechava o show com a música; os garçons parariam de servir quando ela começasse; e o recinto ficaria na escuridão total, exceto por um holofote em seu rosto. Não haveria bis.

    “Lady Day”, como Holiday era chamada por muitos na época, começou a trabalhar a música em seu repertório dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu assento no ônibus em Montgomery, Alabama. O escritor de jazz Leonard Feather se referiu à música como “o primeiro protesto significativo em palavras e música, o primeiro grito significativo contra o racismo”.

    As estrofes da música eram chocantes para alguns membros do público majoritariamente branco de Holiday:

    Árvores do sul dão frutos estranhos

    Sangue nas folhas e sangue na raiz

    Corpos negros balançando na brisa do sul

    Fruta estranha pendurada nas árvores.

    Às vezes, sua apresentação da música era recebida com uma feroz rejeição. Embora muitas pessoas soubessem que linchamentos de afro-americanos no sul eram comuns, houve resistência ao fim da prática entre os brancos do sul. O racismo, combinado com o desejo popular de limitar o poder federal sobre as ações locais, impediu as pessoas do Norte de tomarem medidas bem-sucedidas para acabar com os linchamentos no sul.

    No final, a insistência de Billie Holiday em executar “Strange Fruit” pode ter sido responsável por sua morte.

    Uma das principais tentativas de silenciá-la veio de um homem chamado Harry Anslinger, o primeiro comissário do Bureau Federal de Narcóticos e que era um racista extremo, mesmo para os anos 30. Como detalha Johann Hari em Chasing the Scream: Os Primeiros e Últimos Dias da Guerra contra as Drogas, Anslinger afirmou que os narcóticos fizeram os negros esquecerem seu lugar na sociedade americana, e que os músicos de jazz eram particularmente perigosos, criando músicas “satânicas” sob a influência da maconha.

    Holiday, que ao longo de sua carreira chamou a atenção do público para o impacto devastador da supremacia branca, também era usuária de drogas. Ela chamou a atenção de Anslinger, e ele  ordenou que Holiday parasse de tocar a música. Holiday se recusou e Anslinger aumentou seus esforços para silenciá-la.

    Depois que um dos homens de Anslinger foi pago para rastrear Holiday e forçá-la a comprar e usar heroína, ela passou dezoito meses na prisão. Após a sua libertação em 1948, o governo federal recusouse a renovar a sua licença de artista, que era obrigatória para qualquer artista tocando ou cantando em qualquer clube ou bar que servisse álcool.

    Isso minou totalmente sua carreira. Embora Holiday tenha conseguido realizar várias apresentações esgotadas no Carnegie Hall nos próximos anos, ela não podia mais viajar para tocar no circuito de clubes.

    Incapaz de se apresentar regularmente nos locais que amava, e de parar de se lembrar de uma infância que incluía ter sido violentada aos dez anos de idade e trabalhar em um bordel com sua mãe, Holiday finalmente começou a usar heroína novamente. Quando ela se internou em um hospital de Nova York em 1959, seu fígado estava com problemas, tomado pelo câncer. Ela estava emaciada, e seu coração e pulmões estavam comprometidos. Apesar de sua condição, ela não queria ficar lá. “Eles vão me matar. Eles vão me matar lá. Não deixem isso acontecer – ela implorava a amigos e familiares.

    De fato, os homens de Anslinger, pressentindo uma oportunidade macabra, apareceram ao lado da cama de seu hospital, algemaram-na, tiraram fotos, removeram presentes que as pessoas trouxeram para o quarto – flores, rádio, toca-discos, chocolates, revistas – e colocaram dois policiais na porta.

    Mesmo assim, quando os médicos começaram o tratamento com metadona, Holiday começou a melhorar, ganhando peso e melhorando lentamente. Mas então os homens de Anslinger impediram a equipe do hospital de administrar mais metadona. Ela sucumbiu à morte em poucos dias.

    A única versão filmada sobrevivente de Holiday tocando a música é do programa de televisão britânico de cabaré “Chelsea At Nine”, gravado em 25 de fevereiro de 1959 e lançado em março do mesmo ano, apenas alguns meses antes de sua morte. Sua voz é forte e impressionante; a emoção crua simplesmente devastadora.

     [youtube https://www.youtube.com/watch?v=dnlTHvJBeP0&w=560&h=315]

  • Minhas aventuras na psicodelia

    Helen Joyce

    psychedelic-seahorse
    United Archives/Carl Simon/Bridgeman Images Carl Simon: Vivendo no mar , século XX

    Tudo começou com uma resenha de livro. No ano passado, li um artigo de David Aaronovitch no Times de Londres sobre o livro Como mudar sua mente, de Michael Pollan. O livro trata de um ressurgimento do interesse em drogas psicodélicas, que foram amplamente banidas após as aventuras de Timothy Leary com LSD, a partir do final da década de 1960, em que ele incentivou a juventude americana a “ligar, sintonizar e abandonar”. Nos últimos anos, no entanto, os cientistas começaram a testar os usos terapêuticos dos psicodélicos em busca de efeitos em uma gama extraordinária de doenças, incluindo depressão, dependência e angústia do final da vida.

    Aaronovitch mencionou de passagem que ele estava intrigado o suficiente para reservar um “retiro psicodélico” na Holanda, administrado pela Sociedade Psicodélica Britânica, embora, no seu caso, sua esposa tenha batido o pé e ele tenha cancelado o retiro. Experimentar psicodélicos era algo que eu secretamente ansiava por fazer desde que era adolescente, mas sempre fui muito cautelosa e avessa a riscos. Quando fiquei mais velha, o momento pareceu passar. Hoje sou uma jornalista de meia-idade trabalhando em Londres, editora financeira do The Economist, esposa, mãe e, ao que parece, uma pessoa totalmente desprovida de tendências contraculturais.

    E ainda assim… por impulso, eu resolvi tentar. Só depois que reservei eu contei ao meu marido. Ele ficou confuso, mas disse que estava tudo bem por ele, desde que eu não decidisse sob a influência dos psicodélicos, que não o amava mais. Meu filho de dezoito anos achou a coisa toda muito engraçada (acontece que sua mãe “se ligar” é uma boa maneira de fazer com que as drogas pareçam menos legais).

    *

    Um dia, depois de fechar a seção de finanças e economia daquela semana do The Economist, subi no trem Eurostar para Amsterdã. No dia seguinte, conheci meus companheiros de viagem – dez no total, de várias partes da Europa e dos Estados Unidos – em um escritório de Amsterdã. De acordo com as instruções que recebemos, cada um de nós comprou duas porções de trufas “High Hawaiian” – fungos macios e marrons claros em uma embalagem a vácuo – a um preço com desconto de 40 euros, e paramos por quatro dias em um antigo celeiro reformado no campo.

    Eu tinha o pressentimento de que, além de qualquer experiência psicodélica que eu pudesse ter, haveria também muitos cânticos e mãos dadas a estranhos. Sou ateia e cética convicta: não acredito em chi ou acupuntura e não tenho tempo para cristais e sinos. Mas, consciente de que é arrogante permanecer indiferente em tais circunstâncias, decidi que me jogaria no que me pedissem.

    E assim, eu não apenas pratiquei ioga e meditação, mas também me envolvi em longos períodos de agitação em todo o corpo, com os olhos fechados e “tom vocal” – emitindo um som, qualquer som, a cada expiração. Olhei nos olhos de alguém que acabara de conhecer e perguntei repetidamente, conforme as instruções: “O que a liberdade significa para você?” Entrei para “círculos de compartilhamento”. Tudo isso pretendia nos preparar para a viagem. Os facilitadores falaram sobre a importância do seu “todo” (ou estado de espírito) e de se sentir seguro e confortável no seu “ambiente” (onde você está e com quem está).

    Um dos meus companheiros de viagem havia participado de um teste de psilocibina no King’s College London. Ele e três outros receberam aleatoriamente um placebo ou uma dose baixa, normal ou alta do medicamento em forma de pílula. Era óbvio, ele disse, que ele era o único que recebeu o placebo. Para tornar as viagens ruins menos prováveis, os pesquisadores haviam aconselhado os participantes a não resistir a qualquer coisa que acontecesse: “Se você vir um dragão, vá em direção a ele”. E fascinante foi o motivo de ele ter participado desse retiro. “Todos eles tinham dragões”, ele me disse. “Eu também queria um dragão.”

    As pessoas que tomaram psicodélicos geralmente classificam a experiência entre as mais profundas de suas vidas. Da minha parte, eu não estava procurando por mim mesma, por Deus, ou por transcendência; nem estava procurando alívio para depressão ou pesar, tenho uma vida feliz e gratificante. Mas fiquei impressionada com algo que Pollan discute em seu livro: estudos em que os terapeutas usavam viagens para tratar o vício.

    Eu nunca fumei e não tenho vícios dramáticos, mas os hábitos de tomar café durante a manhã e um copo de vinho uma ou duas noites quase me dominaram nos últimos anos. Nenhum dos dois parecia sério, mas ambos passaram a parecer necessidades – parte de um padrão maior de uma vida apressada e sem liberdade, com muitas coisas feitas por compulsão, em vez de desejo ou prazer.

    São os de meia-idade e não os jovens que mais poderiam se beneficiar de uma “experiência do numinoso”, disse Carl Jung, citado por Pollan.

    *

    No grande dia, nos reunimos na sala principal, cada um de nós com um colchão e uma máscara para os olhos, depois de uma benção ritual com sálvia ardente e muitos refrões de uma música chamada “Tall Trees”. Os facilitadores colocaram uma lista de de música criada para o uso terapêutico da psilocibina, envolvendo harpas, cachimbos e canto coral. Cada um de nós tinha nossas trufas trituradas em um copo, e os facilitadores serviram chá de gengibre, o que ajudaria com náuseas leves que podem ocorrer com a droga. Houve uma segunda infusão e, se quiséssemos, uma terceira. Pedi um terceiro copo, mas nunca bebi. Em alguns minutos, meu campo de visão estava cheio de fractais cintilantes. Deitei e fechei os olhos – e fui embora, para não voltar, por várias horas.

    Depois de um tempo imensurável, a náusea desaparece, e a visão também. Agora tudo o que vejo são trechos desconexos – fósseis de cavalos-marinhos em azul, verde e areia; lascas de osso… e então experimento o que é chamado de “dissolução do ego”: perco todo o senso de um “eu”. O tempo para. As notas da música tocando deixam de se seguir em sequência: elas se tornam objetos sólidos, pilares e, quando se partem, eu desapareço em uma fenda entre duas notas. Tudo caminha para um escuro confuso e eu me dissolvo no nada.

    Isso não chega nem perto de descrever a experiência. De fato, talvez seja tão cansativo ler como a maioria dos relatos de viagens, como ouvir sobre o sonho de outra pessoa. Mas essa experiência de deixar de ser ainda parece profunda – não porque eu realmente pense que, quando morrer, desaparecerei em uma fenda entre duas notas solidificadas (embora sim, por favor, se isso for uma opção), mas porque se concretizou algo que antes, havia sido apenas um experimento mental: a idéia de não-ser, da dissolução final da morte – algo sobre o qual, como mãe ateia, eu tive que conversar com meus filhos. Eu tinha experimentado um final. E o que eu disse era verdade: não havia eu em mente, então eu não me importei.

    *

    Após um período de tempo incomensurável, percebi novamente que eu existia. Finalmente, consegui me sentar e abrir os olhos. As duas facilitadoras – ambas muito amáveis ​​na realidade – foram transformadas em deusas: Atena e Afrodite, talvez. Eu me senti envergonhada até de olhar para elas. O agradável celeiro convertido se tornara Valhalla, com as vigas de madeira douradas, as velas esculpidas em porcelana iluminadas por dentro. Uma das deusas me ofereceu um copo de água e fiquei fascinada por sua substância, profundidade e clareza, maravilhada com o fato de que alguma coisa pudesse ser tão bonita.

    Coloquei meus fones de ouvido e ouvi minha música favorita, Musique à Grande Vitesse , de Michael Nyman. Ouvi suas complexas linhas entrelaçadas como nunca as ouvira antes, de alguma forma estavam separadas e simultâneas. Finalmente, quando minha viagem chegou ao fim, algo me levou a fazer o tipo de dança performática tediosa que eu não suporto assistir. Pior, eu dancei esta obra-prima não de pé, mas deitada e me contorcendo no colchão.

    Quando todos comparamos anotações no dia seguinte, descobri que minhas experiências haviam sido atípicas. Um homem havia se barbeado – o melhor barbear de todos os tempos, aparentemente, feito com um pequeno diamante; outro falou com árvores; outros se encontraram com Jesus, Maomé e Buda. Eu senti inveja da pessoa que havia saído e mergulhado no estame de uma flor, viajando primeiro para um nível celular e depois para um nível atômico, antes de voltar para uma vista panorâmica de todo o país, que ele via como jardim.

    Alguns de meus companheiros de viagem falaram em sentir uma conexão intensa com todos os seres vivos, até mesmo um amor absoluto por todos os seres. Mas eu me encontrei sozinha no universo. Na noite anterior, surpreendi-me dizendo a outro participante que achava que meus dias, sempre cercada de muita gente, era desgastante. Qualquer um que me conhece me descreveria como sociável, mas agora eu vi, muito claramente, que precisava ser mais autônoma. Naquela noite, escrevi: “Hábitos. Você não precisa. Solidão.”

    *

    Mesmo depois de voltar para casa, eu ainda me sentia espaçada, feliz. Não vi Deus, mas durante meses depois me lembrei de uma sombra pálida da beleza que havia experimentado olhando o copo de água ou a vela acesa ou ouvindo a música de Nyman. Eu contei ao meu marido sobre isso – ele não sente vontade de experimentar (embora deseje estar lá para ver a dança performática). Fiz pequenas mudanças para melhorar a vida, como comprar fones de ouvido com cancelamento de ruído para poder ouvir música corretamente e me sentir sozinha no meu trajeto. Para minha alegria, minha consciência da música ainda está aumentada. Meses se passaram antes que eu bebesse café ou álcool novamente; e ainda bebo muito menos do que antes.

    Acima de tudo, tenho uma agradável sensação de distância dos aborrecimentos do dia a dia. Eu me sinto menos permeável. Eu tive que me observar com o desapego de uma maneira que, de outra forma, poderia levar anos de psicoterapia para ser alcançada.

    Pesquisadores que procuram usar psicodélicos para fins terapêuticos falam sobre a verossimilhança e a intensidade da experiência. Eles acham que o efeito é causado por um desligamento temporário da “rede de modo padrão” – as partes do cérebro que nos permitem refletir, lembrar o passado e imaginar o futuro. Ao mesmo tempo, novas conexões neurais são formadas, o que pode explicar o senso de maior consciência, os sentimentos de unidade e a sinestesia que algumas pessoas experimentam (a mistura de sentidos, na qual um som pode ser “visto” ou uma visão pode ser ouvida ou sentida ao toque). Isso pode explicar por que uma única viagem psicodélica às vezes pode aliviar até a depressão crônica mais grave. As pessoas deprimidas geralmente dizem que são incapazes de desviar sua atenção de pensamentos repetitivos e infelizes e que não sentem mais prazer.

    Eu pretendo tomar psicodélicos novamente. Da próxima vez, eu gostaria de sentir as árvores crescendo ou transformar o mundo em um jardim. Gostaria de viajar durante o verão para que, ao invés de Valhalla, eu pudesse ver uma planta crescer em Yggdrasil, a poderosa árvore da mitologia nórdica. Eu gostaria de contemplar a beleza de uma íris ou uma flor de maracujá, em vez de um copo da Ikea. Talvez, em vez de realizar meus próprios giros absurdos em um colchão, eu possa assistir a um vídeo de uma grande bailarina dançando.

    “É possível sentir-me diferente sobre as coisas”, escrevi para mim mesma no dia em que voltei da minha viagem. “Você não precisa ser quem sempre foi. Mais coisas são escolhas do que você imaginava. As coisas comuns são muito bonitas se você tem olhos para ver.

    11 de outubro de 2019 às 07:00

  • Um guia para ter cultura

    vidaeobrapaulofrancis
    Quero muito ler este livro, deve ser uma delícia

    Uma bibliografia básica para quem quer compreender a aventura da humanidade

    Paulo Francis

    OESP – 30/05/91

    Pedem minha ficha acadêmica para jovens vestibulandos… Não tenho. Tentei um mestrado na Universidade Columbia em Nova York 1954, mas desisti, aconselhado pelo professor-catedrático Eric Bentley. Achou que eu perdia o meu tempo. Li toda a literatura relevante, de Ésquilo a Beckett, e sabia praticamente de cor a Poética de Aristóteles. Em alguns meses se lê tudo que há de importante em teatro. Li e reli anos a fio.

    Mas, sem o doutorado ou nem sequer mestrado, me proponho fazer algumas indicações aos jovens, que, no meu tempo, seriam supérfluas, mas que, hoje, talvez tenham o sabor de novidade. Falo de se obter cultura geral. É fácil.

    Educação era a transmissão de um acúmulo de conhecimentos. Hoje, é uma adulação da juventude, que supostamente deve fazer o que bem entende, estar na sua, como dizem, e o resultado é que os reitores de universidades sugerem que não haja mais nota mínima de admissão, que se deixe entrar quem tiver nota menos baixa. Deve haver exceções, caso contrário o mundo civilizado acabaria, mas a crise é real, denunciada por gente como o príncipe Charles, herdeiro do trono inglês, e por intelectuais como Alan Bloom, que consideram a universidade perdida nos EUA. No Brasil, houve a Reforma Passarinho nos anos 80. A ditadura militar tinha o mesmo vício da esquerda. Queria ser popular. Era populista. Quis facilitar o acesso universitário ao povo, como reza o catecismo populista. Ameaça generalizar o analfabetismo.

    Não há alternativa à leitura. Me proponho apontar alguns livros essenciais ao jovem, um programa mínimo mesmo, mas que, se cumprido, aumentará dramaticamente a compreensão do estudante do mundo em que está vivendo.

    Começando pelo Brasil, é indispensável a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha. É curto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. É cara do far-te-ei, a forma oblíqua de que Jânio se gaba. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides mostra o choque central entre o Brasil que descende da Europa e o Brasil tropicalista, nativo, selvagem. Euclides apresenta argumentos hoje superados sobre a superioridade da Europa, mas nem por isso deixa de estar certo. Tudo bem ter simpatia pelo índio e o sertanejo, o matuto, mas nosso destino é ser, à brasileira, à nossa moda, um país moderno nos moldes da civilização européia. Euclides começou o livro para destruir Antônio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Robert Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e Paz, de Tolstoi.

    Mas o importante para o jovem é essa escolha entre o primitivo irredentista dos Canudos e a civilização moderna, porque é o que terá de enfrentar no cotidiano brasileiro. É o nosso drama irresolvido.

    Leia algum dos grandes romances de Machado de Assis. O mais brilhante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para estilo, é o que se deve emular. O coloquialismo melodioso e fluente de Machado. É um grande divertimento esse livro. Eu recomendaria ainda para os que tem dificuldade de manejar a língua O Memorial de Aires. É o livro mais bem escrito em português que há.

    Os gregos são um dos nossos berços. Representam a luz e a doçura, na frase de um educador inglês, Mathew Arnold (também poeta e crítico). Arnold falava contra a tradição judaico-cristã, dominante na nossa cultura, na nossa vida, a da Bíblia e do Novo Testamento, que predominaram no mundo ocidental desde o Século V da Era Cristã, quando o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. Estudos gregos sérios só começaram no Século IXX, quando se tornaram currículo universitário, porque antes os padres e pastores não deixavam.

    Mas leia originais. Escolhi quatro. Depois de se informar sobre Platão na enciclopédia do seu gosto, se deve ler A Apologia, que é a explicação de Sócrates a seus críticos, quando foi condenado à morte, e Simpósio, um diálogo de Platão. Platão não confiava na palavra escrita. Dizia que era morta. Preferia a forma de diálogo.

    Na Apologia se discute o que é mais importante na vida intelectual. A liberdade de ter opiniões contra as ortodoxias do dia. Ajudará o estudante a pensar por si próprio e ter a coragem de suas convicções.

    Depois, o delicioso Simpósio. É uma discussão sobre o amor, tudo que você precisa saber sobre o amor sensual, o altruístico, o que chamam de platônico, é o amor centrado na sabedoria.

    Platão colocou, à parte Sócrates, seu ídolo, no Diálogo, Aristófanes, o grande gozador de Sócrates. Na boca de Aristófanes põe uma de suas idéias mais originais. Que o ser humano era hermafrodita, parte homem parte mulher, e que cada pessoa, depois da separação, procura recuperar sua parte perdida, e daí a predestinação da mulher certa para um homem e do homem certo para uma mulher.

    Imprescindível também ler As Vidas, de Plutarco, o grande biógrafo da Antiguidade. Ficamos sabendo como eram os grandes nomes em carne e osso, de Alexandre, paranóico, a Júlio César, contido, a Antônio e Cleópatra. Shakespeare baseou grande parte de suas peças em Plutarco e leu em tradução inglesa, porque Shakespeare, como nós, não sabia latim ou grego. E, finalmente, como história, leia A Guerra do Peloponeso, de Tucídides. É sobre a guerra entre Atenas, Esparta, Corinto e outras, durante 27 anos, no Século V antes de Cristo. Lendo sobre Péricles, o líder ateniense, Cleon, o führer espartano, e Alcebíades, o belo, jovem e traiçoeiro Alcebiades, nunca mais nos surpreenderemos com qualquer ato de político em nossos dias. É o maior livro de história já escrito. Sempre atual.

    Da Roma original basta ler Os Doze Césares, de Suetônio, e Declínio e Queda do Império Romano, de Gibbon. Mais um banho de natureza humana.

    Meu conhecimento científico é quase nenhum. Mas li, claro, a Lógica da Pesquisa Científica, de Karl Popper, quando entendi o que esses cabras querem. Para quem quer um começo apenas, recomendo o prefácio do Novum Organum, de Francis Bacon, que quer dizer, o título, novo instrumento, e Bacon explica o método científico e o que objetiva a ciência. E para complementá-lo leia o prefácio dos Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Isaac Newton, e o prefácio de Bertrand Russell e Alfred North Whitehead de seus Principios da Matemática Também vale a pena ler a História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, e o capítulo sobre Positivismo Lógico que é a filosofia calcada no conhecimento científico. Em resumo, tudo que pode ser provado lógica e matematicamente, é filosofia.O resto não é. Acho isso perfeitamente aceitável. Dispenso o resto.

    É nas artes que está a sabedoria. Como viver bem sem ler Hamlet, de Shakespeare? Está tudo lá em linguagem incomparável, é de uma clareza exemplar, tudo que nós já sentimos, viremos a sentir, ou possamos sentir.

    Preferi citar junto com Shakespeare uma peça grega, que considero vital: Antígona, de Sófocles. Há uma tradução de Antígona, em verso, por Guilherme de Almeida, que Cacilda Becker representou no Teatro Brasileiro de Comédia.

    Antígona é o que há de melhor na mulher. É a jovem princesa cujos irmãos morreram em rebelião contra o tio, o rei Creon, e ela quer enterrá-los, porque na religião grega espíritos não descansam enquanto os corpos não são enterrados. Creon não quer que sejam enterrados, como advertência pública a subversivos. Antígona desafia Creon. Ele manda matá-la. Ela morre. Seu noivo se suicida. É o filho de Creon, que enlouquece. Parece um dramalhão, mas não é. É a alma feminina devassada em toda sua possibilidade fraterna. Hegel achava que Antígona era o choque de dois direitos, o direito individual e o direito do Estado. E assim definiu a tragédia.

    A melhor história de Roma é a de Theodore Mommsem. A melhor história da Renascença é a de Jacob Buckhardt. Tudo que você precisa saber.

    E aprenda com um dos mais famosos autodidatas, Bernard Shaw (o outro é Trotski). Leia todos os prefácios das peças dele. São uma história universal. Um estalo de Vieira na nossa cabeça. Em um dia você lê todos. Anotando, uma semana. Também vale a pena ler a Pequena História do Mundo, de H.G.Wells, superada em muitos sentidos, mas insuperável como literatura.

    Passo tranqüilo pelo Iluminismo. Foi tão incorporado a nossa vida, que não é necessário ler Voltaire ou Diderot. Os livros de Peter Gay sobre o Iluminismo são excelentes. Dizem tudo que se precisa saber. Se se quer saber mesmo o que foi o cristianismo, a obra insuperada e As Confissões de Santo Agostinho, uma das grandes autobiografias, à parte a questão religiosa.

    Não é preciso ler A Origem das Espécies, de Darwin, mas é um prazer ler Viagens de um Naturalista ao redor do Mundo, as aventuras de Darwin como botânico e zoólogo, a bordo do navio inglês Beagle, nos anos 1830, pela América do Sul, com páginas inesquecíveis sobre Argentina, Brasil e Galápagos, que está até hoje como Darwin encontrou (e o Brasil e Argentina, na sua alma?)

    Houve três grandes revoluções no mundo, a americana, a francesa e a russa. A literatura não poderia ser mais copiosa. Mas basta ler, por exemplo, Cidadãos, de Simon Schama, para se ter um relato esplêndido da revolução interrompida, 1789-1794, na França, e concluir com o livro de Edmund Wilson, Rumo à Estação Finlândia. Schama é conservador, Wilson não era, quando escreveu, fazia fé, ainda na década de 30, como tanta gente, na Revolução Russa. Mas a esta altura, e mesmo antes de ele morrer, em 1972, é fácil notar que a Revolução Russa não teve o Terror interrompido, como a Francesa, mas continuou até Gorbachev revelar o seu imenso fracasso.

    O melhor livro sobre a Revolução Francesa é História da Revolução em França, de Edmund Burke, de 1790, que previu o Terror de Robespierre e Saint-Just. Se o estudante quer um livro a favor da Revolução Francesa, leia, o título é o de sempre, o de Gaetano Salvemini. A favor da russa a de Sukhanov, que a Oxford University Press resumiu num volume, ou A Revolução Russa, de Trotski, um clássico revolucionário. Mas os fatos falam mais alto que o brilho literário de Trotski.

    Sobre a Revolução Americana não conheço livro bom algum traduzido, mas por tamanho e qualidade, um volume só, sugiro a da editora Longman, A History of the United States of America, do jovem historiador inglês Hugh Brogan, 749 págs, apenas, quando comprei custava US$ 25. Tem tudo que é importante.

    Em economia, a Abril publicou 50 volumes dos principais economistas. Eu não perderia tempo. Têm tanta relação com a nossa vida como tiveram Zélia e a criançada assessora. Mas há o Dicionário de Economia, também da Abril. Quando tascarem o jargão, você consulta para saber, ao menos, o que significa a embromação. Economia se resume na frase do português: quem não tem competência não se estabelece.

    Dos romances do Século IXX, Guerra e Paz, de Tolstoi, e Crime e Castigo, de Dostoiewski, me parecem absolutamente indispensáveis. Guerra e Paz porque é o retrato completo de uma sociedade como uma grande família, porque rimos e choramos sem parar, porque contém um mundo e as inquietações do protagonista, Pierre Bezhukov, que até hoje não foram respondidas. Crime e Castigo, porque exemplifica toda a filosofia de Nietzsche de uma maneira acessível e profundamente dramática, de como o cérebro humano é capaz de racionalizar qualquer crime, que tudo é relativo, em suma, a pessoa que pensa e age, como Raskolnikoff, o protagonista. Vale tudo. Dostoiewski, para nos impedir de aniquilar uns aos outros, acrescenta que não se pode viver sem piedade.

    Dos modernos, Proust é maravilhoso, mas penoso, Joyce é desnecessário, mas vale a pena ler as obras-primas de Thomas Mann, A Montanha Mágica, para saber o que foi discutido filosoficamente neste século, e Dr. Fausto, que leva o relativismo niilista que domina a cultura moderna e de que precisamos nos livrar, se vamos sobreviver culturalmente, como civilização, e não como meros consumidores, num nível abjeto de satisfação animal.

    Há muitas obras que me encantaram e não estou, de forma alguma, excluindo autores ou quaisquer livros. A lista que fiz me parece o básico. Em algumas semanas, duas horas por dia, se lê tudo.(1) Duvido que se ensine qualquer coisa de semelhante nas nossas universidades. Se eu estiver enganado, dou com muito prazer a mão à palmatória.


    NOTA:

     

    (1) Evidentemente, é a isso o que podemos chamar de “cultura utilitarista” da pequena burguesia, ou então, já agora e como previa Carpeaux, de “cultura de super-mercado“.

  • Trazendo uma filha de volta do abismo com poemas

    Por Betsy MacWhinney 

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    26 de fevereiro de 2015

    Quando George W. Bush foi reeleito em 2004, minha filha de 13 anos, Marisa, ficou tão brava que parou de usar sapatos.

    Ela escolheu a rebelião mais ineficaz que se possa imaginar: dois pezinhos descalços contra o mundo. Ela declarou que não voltaria a usar sapatos até termos um novo presidente.

    Eu aprendi cedo na maternidade que não vale a pena brigar com seus filhos sobre roupas, então eu assisti silenciosamente enquanto ela andava descalça todas as manhãs, andando pela entrada de automóveis de cascalho na escuridão fria e chuvosa para esperar o ônibus.

    A diretora me ligou algumas vezes, declarando que Marisa tinha que começar a usar sapatos ou seria suspensa. Passei as mensagens, mas minha filha continuou sua marcha descalça.

    Após cerca de quatro meses, ela vestiu sapatos sem comentar. Eu não perguntei o porquê. Eu não tinha certeza se o uso de sapatos era um sinal de falha ou maturidade; Perguntar a ela parecia que poderia adicionar insultos desnecessários a lesões.

    Mas toda a sua rebelião naquele ano não foi tão inofensiva. Eu temia que ela estivesse agindo de maneira perigosa.

    Enquanto caminhávamos pela mercearia um dia, ela pegou um abacate, fazendo com que a manga da blusa recuasse, revelando uma cicatriz assustadora no pulso ao longo do lugar onde estaria uma pulseira.

    Peguei a mão dela. “Oh, Marisa. Você deve estar sofrendo tanto!

    Ela desviou o olhar, sem dizer nada.

    Tentei reprimir uma onda de náusea gelada pelo conhecimento de que minha filha estava se machucando.

    Fiz o que os pais fazem: procurei profissionais e segui seus conselhos. Marisa foi a um terapeuta sozinha, e nós fomos juntas a outro diferente.

    Senti uma pontada de horror no estômago, quando um psiquiatra me disse, na frente de Marisa: “Ela não deve ser deixada sozinha e não pode lidar com nada perigoso. Nada de facas. Se você tiver algum medicamento em casa, mantenha-o trancado e longe dela.

    Mais tarde, naquela noite, descarregamos a máquina de lavar louça juntos, ela de um lado, eu do outro. Inconscientemente, passei para ela uma faca afiada para guardar.

    “Mãe, você tem certeza de que pode confiar em mim com isso?” Ela disse brincando.

    Eu me mantive muito bem até esse ponto, pelo menos na frente dela, mas comecei a soluçar incontrolavelmente quando ela disse isso.

    Ela pareceu surpresa e me deu um abraço. “Eu vou ficar bem”, ela prometeu.

    Comecei o Tuesday Night Dinners, para o qual convidaria todos que sabíamos que ficariam bem com a cena caótica de um jantar em família durante a semana.

    Às vezes, três pessoas apareciam, às vezes 20, e comíamos o tipo de comida simples que uma mãe que trabalha pode juntar entre chegar em casa às 17h e ter pessoas chegando às 17h30.

    Os pais de suas amigas vinham com os adolescentes e, pelo menos naquela noite, a casa estava animada com as pessoas. Eu queria que a vida chegasse até ela. Eu queria que ela flutuasse na corrente de conexões ricas.

    Outras noites foram preenchidas com silêncios sombrios e delicados, pontuados por pequenos conflitos: eu resistindo à vontade de perguntar como ela estava, porque eu tinha medo do que poderia aprender e ela lutando bravamente  para entender a adolescência.

    Enquanto ela tocava violão no quarto, tentei não espionar do lado de fora da porta fechada, mas quando a música parou, tive que respirar através do pânico, me perguntando se ela ainda estava a salvo.

    Não estava claro para ela se deveria se preocupar em crescer. Ela me perguntava: “Você gosta da sua vida?” O tom dela implicava o julgamento da minha vida sem que ela precisasse explicá-la: você dirige, trabalha em um cubículo, faz um monte de tarefas e ainda está sozinha. Qual é o objetivo?

    Um dia, meu filho chegou da escola falando sobre um vandalismo ocorrido na escola primária. “Alguém pintou com spray em todo o pátio da escola”, disse ele. “Coisas como ‘Muitos arbustos, (bushes) para poucas árvores’. “

    Olhei de lado para Marisa. Ela encontrou meus olhos e olhou para baixo, confirmando minhas suspeitas. Não sou fã de vandalismo, mas fiquei feliz em saber que ela se importava tanto com alguma coisa.

    Acontece que ela fez a pichação com um garoto, que foi pego e obrigado a pagar uma multa. Pedi à minha filha que ligasse para a família do menino e confessasse o que ela fez e me ofereci para pagar metade da multa, o que eles aceitaram.

    Então eu comecei a deixar poemas nos sapatos dela pela manhã. Ela usara os sapatos como uma forma de protesto silencioso, então decidi que os usaria para manter uma posição tranquila de esperança. Quando uma de suas principais estratégias como mãe envolve deixar a “Frente de libertação do agricultor louco” de Wendell Berry no lugar do seu filho, fica claro que as coisas não estão indo muito bem.

    O que eu queria que ela soubesse é: as pessoas já sofreram antes, lutaram para encontrar a esperança e olhem tudo o que fizeram com ela. Eles fizeram poesia que caiu bem no seu sapato, o mesmo sapato que você não usava há quatro meses por causa do seu desespero.

    Antes de ela ir para a escola de manhã, eu queria que ela lesse o poema “Wild Geese” de Mary Oliver que fala sobre não ter que ser bom e não ter que andar de joelhos por quilômetros, se arrependendo. Como Oliver escreve: “Você só precisa deixar o animal macio do seu corpo amar o que ele ama”.

    Ou isso, do Sr. Berry: “Seja alegre, apesar de ter considerado todos os fatos.”

    Isso importaria para ela? Ela receberia minha mensagem de que o mundo a amava e realmente deveria tentar começar a amá-lo de volta?

    Será que eu a convenceria de que, ainda que as coisas estejam terríveis no mundo, ela poderia, mesmo assim, encontrar motivos para calçar sapatos todos os dias? Criar um filho que não tinha esperança para o futuro parecia o meu maior fracasso de todos os tempos.

    Normalmente não convido poesia para minha vida cotidiana. Como ecologista, abraço a ciência. Mas tudo o que eu tinha para oferecer a ela naquele momento eram os pensamentos de outras pessoas que lutavam para ter uma vida significativa e colocaram esses pensamentos nas melhores e mais piores palavras que puderam.

    De repente, fiquei impressionado – eu, aquela que ama ciência, dados, fatos e razão – que, quando se trata de motivar, era com a poesia que eu podia contar. A poesia sabia onde a esperança vivia e poderia provocar aquele nó na garganta que me lembra que tudo vale a pena. A ciência não poderia fazer isso.

    Eu acreditava, inexplicavelmente, que era urgente entregar as palavras perfeitas no sapato dela todos os dias. Parecia que a vida dela dependia disso.

    Um dia, liguei atrasado para o trabalho para comprar uma tesoura e um bastão de cola em um minimercado de posto de gasolina. Levei os suprimentos e uma pilha de revistas descartadas para um restaurante mexicano barato para tomar café ruim e montar poemas em forma de bilhetes de resgate, como se minha filha tivesse sido seqüestrada e eu tivesse que disfarçar a escrita para recuperá-la.

    Procurei freneticamente a palavra “ossos” para que eu pudesse acenar para a sexualidade dela com Roethke, “eu conhecia uma mulher, adorável em seus ossos”, mas supersticiosamente não queria cortar a palavra “ossos” de uma manchete sinistra. Eu esperava que ninguém perguntasse por que eu estava atrasada, pois eu não tinha ideia de por onde começar, de como explicar.

    Por algumas semanas, ela não comentou os poemas. Ela sabia que eu estava fazendo isso porque tinha que remover os poemas do sapato antes de colocá-los de manhã. Senti-me mais animada, no entanto, ao encontrar um poema bem gasto e muitas vezes dobrado em um bolso enquanto lavava a roupa.

    Com o passar dos dias, ela se envolveu mais com a vida. Ela fez planos, começou a correr, plantou sementes, decorou o quarto. Pude ver que para ela calçar os sapatos não era derrota, mas maturidade.

    Em algum momento, eu sabia que ela havia saído de um longo túnel escuro. Eu também sabia que não seria o último túnel dela.

    As pessoas mais otimistas costumam se esforçar mais. Eles não conseguem entender o que está acontecendo no mundo com suas crenças, e a disparidade é alarmante.

    Ela ficou temporariamente presa na encruzilhada da tristeza causada por um cenário político sombrio, na transição para uma escola medíocre e nas vastas questões existenciais de uma adolescente curiosa.

    Em retrospecto, meu projeto de poesia foi uma coisa  inofensiva que me manteve benevolentemente fora do caminho, enquanto ela lutava não apenas para ver o horizonte, mas para marchar bravamente em direção a ele.

    Alguns anos atrás, ela foi entrevistada para se juntar a um grupo de estudantes em uma longa viagem à Serra Leoa. O professor explicou que provavelmente seria um período muito difícil, longe de casa, com dificuldades físicas e mentais.

    “O que você faria”, ele perguntou a Marisa, “se você chegasse ao abismo, e ele começasse a falar?”

    “Bem”, respondeu ela, “eu realmente teria muitas perguntas para o abismo.”


    Betsy MacWhinney, é ecologista em Duvall, Washington, e está trabalhando em um livro de memórias sobre pais solteiros.

  • O Manifesto Hosltee

    Esta é sua vida.
    Faça o que você ama e o faça com frequência.
    Se você não gosta de algo, mude-o.
    Se não gosta do seu trabalho, saia dele.
    Se você não tem tempo suficiente, pare de assistir TV.
    Se você está procurando pelo amor da sua vida, pare; ele vai estar te esperando quando você começar a fazer as coisas que você ama.
    Pare de analisar demais, a vida é simples.
    Todas as emoções são bonitas.
    Quando você comer, aprecie cada último pedaço.
    Abra sua mente, braços e coração para novas coisas e pessoas, nós somos unidos nas nossas diferenças.
    Pergunte à próxima pessoa que você vir qual é a paixão dela e compartilhe seu sonho inspirador com ela.
    Viaje frequentemente; se perder vai te ajudar a se encontrar.
    A vida é sobre as pessoas que você encontra, e o que você cria com elas, então saia e comece a criar.
    A vida é curta.
    Viva seu sonho e compartilhe a sua paixão.

    (Vamos esquecer que isso foi feito por uma empresa)

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    holstee.com/manifesto
    [vimeo 34414313 w=640 h=360]

    The Holstee Manifesto Lifecycle Video from Holstee on Vimeo.

  • A Viagem crepuscular de Walter Benjamin

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    Fotografia panorâmica de Paris em 1845 feita por Friedrich von Martens (1809-1875)

    George Steiner

    O crítico analisa “O Trabalho das Passagens”, obra fundamental de um dos principais pensadores alemães do século 20

    Inconclusão é a palavra-chave do modernismo. As elaborações sistemáticas da epistemologia e do historicismo do século 19, o “omnium gatherum” projetado com humor por Coleridge e que ganhou forma de leviatã para Hegel e Auguste Comte, desapareceram. Adorno afirma que “a totalidade é a mentira”. Uma poética do fragmentário, dos “fragmentos que apóiam nossa ruína”, habita a literatura moderna. Isso não exclui gradação. Pelo contrário. O inacabado, de final aberto, em Proust ou nos “Cantos”, de Pound, em “Moses und Aron”, de Schoenberg, a “forma aperta” de Musil, gera seus próprios modelos de imensidão incompleta.

    No modernismo a forma não é um ato concluído, mas processo e constante revisão. O tema preponderante é, depois de Mallarmé, o da natureza problemática, da ilegitimidade, de passar a ser, simplesmente. A inconclusão, o excesso de esboços, de rascunhos, anotações e emendas circundam, ironizam e subvertem o texto por meio da constante sugestão e implicação de decisões alternativas, do que “poderia ter sido” -outra vez uma categoria que faz de Coleridge o pré-modernista.

    Muito antes de Valéry, a intuição dizia que qualquer texto, música ou obra de arte acabada, ainda mais publicada, significava a morte de sua intenção, da visão conceitual que a originara. Surpreendentemente, essa convenção da inconclusão encerra os dois atos representativos da filosofia do século 20: “Ser e Tempo”, de Heidegger, não teve sua prometida terceira parte; e onde estão as totalidades formais de Wittgenstein?

    As circunstâncias externas influíram. No barbarismo do século 20, os artistas, escritores e intelectuais foram frequentemente caçados, transformando-se em exilados e refugiados, expulsos de sua língua, das comunidades de reconhecimento em que suas criações poderiam se ter desdobrado. Foram forçados a produzir textos curtos e esópicos sob a pressão da necessidade material e da censura. Manuscritos foram confiscados, e maquetes, destruídas. Telas e partituras foram literalmente esmigalhadas. Mas existe na condição moderna uma pressão mais profunda contra a perfeição, quando essa palavra significa “realização concluída”.

    A aceleração e a violência da história recente, o desaparecimento em grande escala dos privilégios da privacidade, do silêncio e do lazer, que permitiam o exercício clássico da leitura e da resposta estética, a economia do efêmero, do descartável e reciclável que alimenta o mercado de consumo em massa, seja na mídia, seja na fábrica, militam contra as representações de completude e totalidade. Como poderíamos reunir a confiança quase megalômana que comanda a ordenação do mundo na “Comédia Humana”, de Balzac (1799-1850), ou na tetralogia de Wagner (1813-83)? A colagem feita de detritos, de coisas efêmeras, de utensílios banais com as bordas gastas é um espelho para os tempos.

    Cada um desses componentes se aplica a Walter Benjamin. Muito antes da catástrofe, a sua autoconsciência e o cenário de sua sensibilidade foram os do migrante e do desabrigado. O ritmo de sua existência era peregrino. Qualquer espécie de domesticidade era intermitente. Benjamin (1892-1940) foi, como diz o anti-semitismo com desprezo, um “Luftmensch” (homem de vento), que só se sentia em casa em hotéis baratos, pensões, locações temporárias ou no quarto de hóspedes de amigos compreensivos.

    O efêmero foi recuperado e reforçado com as vigas de uma erudição muitas vezes monumental, mas o gênio da inconclusão, a sensação de que, à exceção de alguns, todos os seus textos são uma série de rascunhos, que temem o desfecho, desconfiam da finalização, é inconfundível

    Suas companhias eróticas eram agitadas e invadiam a solidão natural de um errante. O credo do provisório, do incompleto, dominou qualquer noção de espírito e de desejo em sua não-carreira. Por outro lado, ou simultaneamente, o envolvimento de Benjamin com o marxismo, seu “pas-de-deux” com o sionismo e a idéia reiterada de emigrar para a Palestina, seus flertes com o haxixe, suas alusões ao mesmo tempo ardentes e irônicas de que poderia haver um lugar para ele na instituição acadêmica possuíam um caráter difuso e inevitavelmente fragmentado. Tinham a instabilidade passageira e a intermitência articulada dos cafés em que eram sonhados e discutidos interminavelmente. Talvez a sala de leitura da Biblioteca Nacional em Paris tenha sido o que mais se aproximou da terra natal de Benjamin. Seu suicídio num hotel decrépito de fronteira (entre a França e a Espanha, em 1940) foi emblemático -sendo o emblema e sua clarividência alegórica um dos temas fulcrais de Benjamin- de sua crepuscular viagem .

    Vida precária

    Seus textos refletem imediatamente esse desabrigo. A primeira dissertação, rejeitada, sobre o barroco alemão, “A Origem do Drama Barroco Alemão”, é a única monografia completa. A obra de Benjamin existe em forma de ensaios, prefácios, palestras, roteiros para rádio e um corpo considerável de jornalismo. Resenhas de livros, relatos de viagens, folhetins sobre uma ampla variedade de temas culturais e sociais -de cinema a casas de bonecas, de excursões bibliográficas à arquitetura- expressam ao mesmo tempo a vida precária de Benjamin e as colagens contingentes tão típicas de suas inclinações. A inspirada tradução de Proust permaneceu um torso. O extenso artigo de enciclopédia sobre Goethe foi recusado pelos editores soviéticos. Uma quantidade razoável se perdeu por inteiro. Os imponentes volumes de “Escritos Completos” representam um milagre enganoso. O efêmero foi recuperado e reforçado com as vigas de uma erudição muitas vezes monumental (existe em Benjamin um empenho de detalhismo talmúdico e “odium philologicum”). Mas o gênio da inconclusão, a sensação de que, à exceção de alguns, todos os seus textos são uma série de rascunhos, que temem o desfecho, desconfiam da finalização, é inconfundível. Portanto é absolutamente apropriado que a realização máxima de Benjamin consista em 18 anotações aforísticas: as famosas e enormemente importantes “teses” sobre o conceito de história, com sua evocação do “vendaval que veio do Paraíso” e tudo dispersou.

    Gênese labiríntica

    A gênese de “O Trabalho das Passagens” é labiríntica, assim como Benjamin. Foi em 1927, sob o impacto de “O Camponês de Paris”, de Aragon, que Benjamin começou a planejar um ensaio tendo Paris como tema. Há evidências de que mesmo nessa fase prematura estavam em jogo certos temas cardinais: a Paris do século 19 como “o abrigo da coletividade”; as mudanças provocadas pelo consumo urbano de produtos mercantis; as fantasias surrealistas que poderiam se relacionar à demolição da velha “Passage de l’Opéra”. Inicialmente Benjamin via seu projeto como uma “féerie” dialética, uma rubrica talvez mais precisa e sugestiva do que todas as posteriores. Quando terminou de trabalhar com o material, no exílio parisiense em 1934, Benjamin tinha em mente vários títulos possíveis: “Passagenarbeit” (O Trabalho das Passagens/Galerias), sem dúvida, estaria muito mais no espírito da empreitada. Denota uma “obra em progresso”, um canteiro de construção. A alternativa frequente era “Paris -Capital do Século 19”, versão conhecida pelos que acompanharam e apoiaram a pesquisa.

    A labuta de Benjamin se estenderia, com constantes interrupções, por mais de 13 anos. Sua “misère” cada vez mais profunda, que ele via claramente como o fracasso do Front Populaire, a vã esperança de moldar as “Passagens” aos desejos de Horkheimer e Adorno -mestres-de-obras recalcitrantes, mas indispensáveis- e a eclosão de uma guerra mundial tornaram a tarefa um pesadelo e ao mesmo tempo algo essencial. Ela forneceu a Walter Benjamin um eixo em torno do qual organizaria seu trabalho e sua vida. Além disso, os sucessivos projetos de Benjamin nas cartas a Gershom Scholem, em esboços enviados ao Instituto de Pesquisas Sociais, no plano geral de 1939 eram tão espaçosos, tão fluidos que poderiam incluir projetos paralelos como a antiga idéia da monografia sobre Baudelaire ou a continuação de uma pesquisa sobre literatura francesa moderna, com ênfase especialmente no surrealismo e em Proust. O trabalho passou por diversas fases. O esboço de 1935 prevê seis partes principais. O de 1939 é um pentagrama, moldado no edifício em cinco partes de “Flores do Mal”. A descoberta de Benjamin, por meio de “L’Enfermé”, de Gustave Geffroy, do líder revolucionário utópico Louis-Auguste Blanqui, em 1936-37, modifica profundamente as “Passagens”. A cosmologia mística de Blanqui, em seu “L’Eternité par les Astres”, de 1872, torna-se vital. Benjamin relacionará a terrível visão de Blanqui do universo “como catástrofe permanente” à doutrina de Nietzsche do “eterno retorno” e ao sentimento de vitimização social e política de Baudelaire como o verdadeiro inferno na terra em “As Litanias de Satã”.

    Espirais sarcásticas

    O sombrio rufo de tambor nas “Passagens” é o das sucessivas derrotas do proletariado em 1830, 1839, 1848 e 1871, às quais Benjamin acrescenta as de 1930 nas democracias ocidentais, assim como no fascismo, no nazismo e no stalinismo (essa é, na verdade, uma leitura bastante parcial do radicalismo utópico de Blanqui). Mas agora, em sua incessante luta para encontrar gêneros narrativos e analíticos adequados, o leviatã muitas vezes encalhado de Benjamin alcançará o “ciclo infernal de repetição”, o terror hipnótico do déjà vu. Como numa prisão de Piranesi, as “arcadas” se transformam em espirais sarcásticas. No entanto, há “Leitmotifs” interessantes nesse labirinto. Benjamin pretende abrir “arcadas” entre a psicologia de massa, tingida de elementos freudianos, uma sociologia materialista, a estética e uma escatologia altamente pessoal, às vezes esotérica. As “Passagens” serão uma análise onírica do grande sono em que o capitalismo mergulhou a consciência coletiva. O mundo de sonhos assim engendrado é cheio de objetos e de promessas libidinosos fetichizados (consumo excessivo e publicidade). Enquanto Aragon e o surrealismo permanecem no “reino de sonhos”, Benjamin busca a “constelação do despertar”. O espaço histórico real, a cartografia do urbanismo, deve substituir a mitologia impressionista de Aragon e Breton. Assim, para Aragon, a “passagem” parisiense, ou galeria, é uma experiência a ser metaforizada; para Benjamin é uma realidade socioeconômica cuja utilização de vidro e metal é ao mesmo tempo decisiva e ambígua. Os objetos devem ser lidos como Freud lê os sonhos. No capitalismo, os próprios objetos são sonhos coletivos que extraem seu poder alucinatório da produção em massa e do merchandising. “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” de Freud foi antecipada pelas sagas visionárias do mercantilismo e da expansão urbana em Balzac e Zola. Essas percepções clarividentes devem ser validadas pelo diagnóstico clássico da reificação e alienação em “História e Consciência de Classe” de Lukács (de maneiras que Scholem considerou simplesmente inadmissíveis, o marxismo de Benjamin era um híbrido inquietante de Lukács e Trótski). Sem dúvida, o mapeamento dos esgotos de Paris feito por Benjamin, dos vastos porões sob a metrópole burguesa, das moradias e sótãos cheios de memórias e brinquedos, tem sua contrapartida na anatomia tríplice da psique definida por Freud. Mas esse mapeamento, vivamente influenciado pelo “flashback” e pelo close-up, pelas técnicas de montagem da fotografia e do cinema, pretende dar uma visão da destruição dos valores pelo capitalismo e pelo mercado de massa. Escrevendo para Scholem, Benjamin descobre uma taquigrafia incisiva: o Hamlet do surrealismo será sucedido por seu Fortinbrás. Os adormecidos devem ser despertados. Essas linhas complexas são tramadas por certos personagens. O catador de trapos -aqui Benjamin recorre a Baudelaire e ao “trapeiro de Paris” de Félix Pyat- é um dos protagonistas. Em suas rondas na madrugada, o trapeiro recolhe os fragmentos descartados, perdidos ou desprezados das esperanças e decepções humanas. “Dire que j’ai tout Paris, là dans cet osier.” (E dizer que tenho Paris inteira aqui neste cesto). Essa recuperação dos detritos da história, como sabemos, é o cerne do programa de Walter Benjamin.

     Figuração do messiânico

    Na montagem aparentemente caótica do “chiffonnier” estão os verdadeiros “Denkmaler eines Nicht-mehr-Seins” (“monumentos ao que não é mais”). A ressurreição do efêmero, do desconsiderado, do rejeitado transforma o trapeiro em uma figuração do messiânico. Importância comparável tem o “flâneur”, mais um tema crucial em Baudelaire (Benjamin traduz “A Une Passante”, de Baudelaire). Todos esses temas se reúnem nas frívolas perambulações do “flâneur”, cuja atitude e cujo voyeurismo despreocupado combinam perfeitamente com a geografia das “passagens”. De maneiras relacionadas tanto à coleta do trapeiro quanto à do bibliófilo, Benjamin foi um compilador apaixonado -o “flâneur” subverte o programa utilitário e determinista da cidade. Ele encontra tesouros ou vestígios de ruínas por acaso. As gírias hoje erodidas de “mooning” (divagar) e de “swanning about” (vagar) codificam precisamente os símbolos do peregrino apreciados por Baudelaire e por Benjamin. Eternamente, o “chiffonnier” e o “flâneur” cruzarão em seus caminhos com a prostituta. Ela também é essencial ao elenco. As calçadas são sua nave mercante. Se a prostituta encarna fantasias arquetípicas de eros, de intimidades a serem “colhidas”, é também o agente emblemático na polêmica marxista sobre a escravidão do capitalismo em seu aspecto mais indecente, assim como na narrativa freudiana da angústia e do desejo libidinoso da classe média. A fenomenologia da prostituição no Segundo Império e na belle époque permite que Benjamin entrelace economia, sociologia e psicanálise com um repertório inesgotável de precedentes literários. Especificamente, ela esclarece as compulsões obsessivas, as coleções repetidas: a prostituta coleciona clientes e é colecionada por eles. Nessa encruzilhada, Benjamin se inteira do “erotismo da aquisição e coleção” de Georges Bataille, da paradoxal libertação dos “objetos” (o corpo feminino) da servidão da utilidade. “Escrever história é citá-la”, declara Benjamin, sabendo que em espanhol “citar” significa se “encontrar com”, “marcar um encontro”. Ninguém refletiu de maneira mais aguda sobre a natureza da citação do que Walter Benjamin. Somente Coleridge alcança as arriscadas profundezas da poética do empréstimo de Benjamin (os “Cadernos” de Coleridge são o que temos de mais próximo, em espírito e letra, ao “Trabalho das Passagens”). Anteriormente Benjamin havia sugerido a composição de um livro feito inteiramente de citações. Não no sentido banal, de um dicionário de citações, mas como um mosaico coeso, como uma hélice “recombinadora”, situando cada frase sob uma nova luz.

    Documentação e citação

    No apreciado modelo de Lichtenberg, Benjamin brincava com a idéia de um livro de aforismos constituído de citações que poderiam ser truncadas, fundidas e até alteradas (tática conhecida por Montaigne). Que demonstração mais articulada do “eterno retorno” -sombras de um futuro Borges- do que a licença para articular verdades frescas e novos insights em palavras já utilizadas com exatamente a mesma aparência externa? Toda documentação é citação. Que outros meios de lembrança possuímos?

    Como o conhecemos, “O Trabalho das Passagens” consiste essencialmente em trechos citados de mais de 850 fontes, na maior parte recolhidos na Biblioteca Nacional de Paris. Sua identificação, sua organização em 26 pastas principais, ou “convolutos”, e as notas explicativas são o mérito do esforço prodigioso e da erudição de Rolf Tiedemann. Sua edição surgiu em 1982 como o volume cinco, partes um e dois, da “Suhrkamp Collected Works”.

    A prostituição dá poder à industrialização, à tecnocracia de eros; mas também se relaciona à subversão e à paródia dos racionalismos e valores no cassino dos capitalistas-burgueses -o frequentador das prostitutas e o jogador compulsivo se assemelham

    Escondido por Bataille durante a ocupação alemã de Paris, o material chegou a Nova York no final de 1947. Apesar de extensa pesquisa textual, ainda há grande imprecisão sobre os planos finais de Benjamin quanto à sequência em que apresentaria o material e sobre sua evidente intenção de continuar a pesquisa. Colocado de maneira simples: ninguém tem autoridade para decretar se Walter Benjamin desejava ou não que seu vasto “canteiro de obras” fosse publicado de maneira semelhante à atual. A pasta “A” reúne material básico sobre as arcadas de Paris, sobre as novas mercearias e lojas de departamentos, sobre as personagens dos vendedores. O “Guide Illustré de Paris” de 1852 serve como fio de Ariadne. As referências são tipicamente variadas: incluem monografias sobre empresas funerárias (um negócio florescente), sobre litografia, os cafés de Paris, a regulamentação oficial dos nomes de produtos, além de Chesterton analisando Dickens, a “Comédia Humana”, os textos de Börne e Baudelaire. Michelet e Heine são homenageados. “A influência dos negócios comerciais em Lautréamont e Rimbaud deve ser examinada!” Benjamin enuncia seu tema subjacente: “Sobre a “intoxicação religiosa das grandes cidades” de Baudelaire. As lojas de departamentos são templos dedicados a essa intoxicação”.

    Catacumbas da megalópole

    A pasta “C” é uma descida às catacumbas da megalópole, à decomposição que rói seu caminho pela cidade opulenta. Na epígrafe (uma paixão de Benjamin), o Avernus de Virgílio confronta o depoimento de Apollinaire sobre o envelhecimento de Paris. Nessa parte, a própria voz de Benjamin se destaca de modo incomum. O “flâneur” sugere um panorama de toda a cidade, desdobrando-se em ritmo cinematográfico. “Paris foi construída sobre um sistema de cavernas do qual o ruído do metrô e da ferrovia sobe à superfície e ao qual cada ônibus ou caminhão que passa impõe um eco prolongado.” Esse submundo, celebrado em “Os Miseráveis” por Victor Hugo, conecta as grutas e catacumbas da Baixa Idade Média às operações de contrabando dos séculos 16 e 18. Espíritos anárquicos e clandestinos esconderam-se nessa escuridão buliçosa. “Na entrada, uma caixa de correio: última oportunidade de mandar algum sinal para o mundo que se está deixando.” Por meio da biografia “Charles Méryon”, de G. Geffroy, Benjamin acrescenta a seu registro o Homem da Multidão de Poe e alusões ao cavernoso. Os arcos triunfais de Paris -Benjamin brinca com o rito de passagem das pessoas que os atravessam- são edificados sobre um labirinto de espaços subterrâneos. A arrogante cidade desmoronaria para dentro? A pasta “D” narra o tédio, a “noia”, o grande cenário psicológico de Baudelaire, com figurações nietzschianas de “eterno retorno”. Benjamin inclui o fascinante estudo de Jean Tardieu sobre o “Ennui”. Pode ser considerado “uma espécie de breviário para o século 20”. Benjamin classifica o tédio como “a superfície exterior do evento inconsciente”, como o tecido cinza “em que nos envolvemos quando sonhamos”. É o ornamento do dândi, a fonte do frenesi do jogador e da peregrinação do “flâneur”. Na pasta “D” Blanqui torna-se uma presença central. Sua cosmologia de ficção científica deve ser relacionada ao “Zaratustra” de Nietzsche. “A essência do evento mítico é o retorno” -a circularidade carregada tanto de promessa como de terror. A pasta “E” se concentra nas interações entre a brutal modernização de Paris por Haussmann no Segundo Império e as insurreições nas barricadas, que os novos bulevares inibiriam com suas linhas de fogo para a artilharia. A crítica de Engels à tática de barricadas aparece depois de longos trechos do estudo de Georges Laronze sobre o estranho rótulo dado por Haussmann e Fourier à construção de barricadas como “um trabalho não remunerado, mas apaixonado”. Os sangrentos combates de rua durante a guerra civil espanhola prolongam os de Paris de 1830, 1848 e na Comuna. A pasta “H”, sobre o colecionador, é uma peça autobiográfica de grande pungência. Invocando os ensinamentos de Bergson sobre a elasticidade do tempo em relação às percepções individuais dos objetos, Benjamin explica como as coisas parecem atingir, capturar o colecionador. O “colecionador vive como num sonho”. As anotações tornam-se tão densas que só podem esclarecer os conhecedores do idioma de Benjamin: “Matéria destruída: a elevação da mercadoria”. O colecionador separa o objeto de sua matriz funcional, inserindo-o numa colagem; mas seria interessante estudar o bibliófilo “como o único tipo de colecionador que não remove completamente seus tesouros do contexto funcional”. Também se deve notar o desprezo de Marx pela servidão do colecionador à reificação e pela idolatria aos modismos do mercado. Há muito de Benjamin na breve entrada: “Animais (pássaros, formigas), crianças e homens velhos como colecionadores”. No envelope “J” (mas seriam essas rubricas do próprio Benjamin?) estão os tijolos do tão desejado livro sobre Baudelaire. Aqui tudo é virtualmente citação do mestre, de seus contemporâneos e biógrafos anteriores. Nadar, Victor Hugo, os Goncourt, a “opinião muito justa” de Proust sobre a posição de Sainte-Beuve a respeito de Baudelaire aglomeram-se ao redor da figura titular e da “necessidade supra-individual de seu modo de vida”. As pastas “K” e “L” tratam dos sonhos, com componentes extraídos de Freud e Jung. Mas também aparecem arquitetos como Giedion e Le Corbusier. “Arcadas e passagens sem lado de fora como o sonho.” Museus de cera podem ser considerados casas de sonhos “par excellence”. Aqui, um artigo de Ernst Bloch, sempre um assistente importante, embora ambíguo, abre caminho. A pasta “D” contém uma das observações seminais de Benjamin: “Nos campos em que temos interesse, o conhecimento vem apenas em relâmpagos. O texto é o longo trovão que o segue”.

    Andorinhas migratórias

    A epígrafe da pasta “O” cita o amor como “uma ave de passagem”. Nas galerias que formam o andar superior das arcadas se aninham as mulheres conhecidas como “hirondelles”, as andorinhas migratórias para aquisição sexual. A prostituição dá poder à industrialização, à tecnocracia de eros. Mas também se relaciona à subversão e à paródia dos racionalismos e valores no cassino dos capitalistas-burgueses. O frequentador das prostitutas e o jogador compulsivo se assemelham.

    As reflexões pioneiras de Walter Benjamin sobre a fotografia, Daguerre e seu diorama revolucionário estão reunidas na pasta “Q”. Esse material abre diretamente com o tema dos espelhos, cujo gênio tutelar, para Benjamin, é Mallarmé. Os espelhos conjugam os usos evoluídos do vidro, essenciais na construção das “passagens” e transformados em expoentes no Crystal Palace. Novas formas de iluminação artificial (“T”) modificam todo o potencial das imagens e da simulação. A lâmpada a gás transmuta os espaços internos em grutas encantadas. As novas intensidades da iluminação revestem o céu urbano. Benjamin volta-se em seguida para os ensinamentos socioutópicos de Saint-Simon e o desenvolvimento das ferrovias. Novamente, temas cruciais são anotados num código provisório e opaco: a “emancipação da carne” apregoada por B.P. Enfantin, o apóstolo de Saint-Simon, “deve ser comparada às teses de Feuerbach e às visões de Georg Büchner. O materialismo antropológico está incluído no dialético”. Grande parte da esperança radical e utópica do século 19 tinha uma estrutura conspiratória e clandestina. Daí o papel vital das conspirações, da “compagnonnage” proibida e dos grupos anárquicos (pasta “V”). De Babeuf e os “carbonari” a Bakunin e as células niilistas, a necessária modulação dos sonhos em pesadelos ativos falam da violência no subterrâneo. A revolução não-violenta é o ideal de Fourier (“W”). Na lógica perfeita, “o falangismo é uma máquina feita de seres humanos”. O dossiê X é feito de trechos de textos marxistas clássicos, sob a luz condutora do comentário de Karl Korsch. O breve tratamento das bonecas e autômatos que conclui a sequência alfabética é um dos mais sugestivos. As bonecas musicais são as sereias-glórias das arcadas. Sabemos que o autômato de xadrez, com seu jogador anão oculto, é o ícone preferido de Benjamin para a ação teológica inerente à história secular. “O Projeto das Arcadas” não é “legível” num sentido imediato. É uma “loja de curiosidades antigas” (Benjamin cita repetidamente o título de Dickens), uma caverna de tesouros de Aladim num sótão, um quarto de despejo metafísico-histórico e uma casa de bonecas de incrível mobiliário para vasculhar e meditar, exatamente como fazem o “flâneur”, o catador e o colecionador na própria encenação de Benjamin.

    Ideal de beleza frígida

    De vez em quando, um único aforismo ou um rótulo en passant abrem grandes panoramas. A liquidação da fertilidade na organização tecnológica do mundo torna-se manifesta pelo ideal de beleza frígida do “Jugendstil”: o gênio da alegoria impede que o grande artista (Baudelaire) sucumba ao abismo da mitologia; as revoluções são o ar fresco da cidade pujante, elas abrem e desmitificam seus sonhos estáticos e empacotados; e, sobretudo, “meu pensamento se relaciona à teologia como o mata-borrão se relaciona à tinta. Está saturado dela. Se dependesse do mata-borrão, porém, nada do que está escrito permaneceria” -a máxima de um escritor obcecado por espelhos e por grafologia.

    A primeira tradução para inglês, de Howard Eiland e Kevin McLaughlin, segue em geral minuciosamente a edição comentada e revista de Tiedemann. Assim como as notas, as explicações sobre o material colhido preliminarmente e as colaborações editoriais. Mas há problemas. Embora cuidadosa, a tradução para inglês e anglo-americano contraria a própria textura do afresco a-não-ser-concluído de Benjamin. A edição de Benjamin pela Harvard University Press, hoje em progresso monumental, é um empreendimento admiravelmente generoso. Os volumes iniciais superam a erudição oferecida primeiramente pela Suhrkamp. Mas no caso das “Passagens”, um esforço colossal talvez tenha sido mal direcionado. Encerrando essas 1.073 páginas densamente impressas, somos assombrados pelo veredicto de Benjamin sobre Mallarmé, de que “a obra é a máscara mortuária de sua concepção”.


    George Steiner é catedrático do Churchill College, em Cambridge, e um dos mais importantes críticos literários vivos, autor, entre outros, de “Extraterritorial” e “Linguagem e Silêncio” (Companhia das Letras). Este texto foi originalmente publicado no “The Times Literary Supplement”. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0402200103.htm