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  • Desta casta

    Tenho saído por aí, bruxa maldita,
    assombrado no escuro, na noite bravia;
    tramando o mal, minha espécie milita
    sobre casas comuns onde a lanterna luzia:
    sozinha, doze dedos, de loucura vasta.
    Mulheres assim não são mulheres, eu sabia.
    Eu tenho sido desta casta.

    Tenho achado grutas mornas sob o céu,
    enchido-as de potes, entalhes, estantes,
    móveis, panos, incontável cacaréu;
    para vermes e duendes preparo lanches:
    enfileirando-os, queixosa, exausta.
    Mulheres assim ninguém entendeu.
    Eu tenho sido desta casta.

    Tenho andado na sua caleça, cocheiro,
    acenado braços nus às vilas que passam,
    aprendendo as rotas finais, no fogareiro
    sobrevivo às chamas que pernas assam
    e fendem ossos, onde a carroça se arrasta.
    Mulheres assim de morrer não se vexam.
    Eu tenho sido desta casta.

    Anne Sexton

  • Mães

    para J. B.

    Oh mãe,
    aqui no seu colo,
    tão bom quanto uma cuia de nuvens,
    eu, sua criança gananciosa,
    recebo seu seio,
    o mar embalado em pele,
    e seus braços,
    raízes cobertas de musgo
    e com novos brotos surgindo
    tirando-me risos com cócegas.
    Sim, estou noiva de meu ursinho
    mas ele tem o mesmo cheiro seu
    assim como o cheiro meu.
    Pego nos dedos seu colar
    que é todo olhos de anjo.
    Seus anéis que cintilam
    são como a lua na lagoa.
    Suas pernas me balançam pra cima e pra baixo,
    suas queridas pernas cobertas de nylon,
    são os cavalos em que montarei
    à eternidade.

    Oh mãe,
    depois deste colo da infância
    nunca mais poderei sair
    ao mundo das pessoas grandes
    como uma estranha,
    algo inventado,
    ou vacilação
    quando outro alguém
    está tão vazio como um sapato.

    Anne Sexton

  • O que esperamos na ágora reunidos

    “O que esperamos na ágora reunidos?
    É que os bárbaros chegam hoje.

    Por que tanta apatia no senado?
    Os senadores não legislam mais?

    É que os bárbaros chegam hoje
    Que leis hão de fazer os senadores?
    Os bárbaros que chegam as farão.

    Por que o imperador se ergueu tão cedo
    e de coroa solene se assentou
    em seu trono, à porta magna da cidade?

    É que os bárbaros chegam hoje.
    O nosso imperador conta saudar
    o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
    um pergaminho no qual estão escritos
    muitos nomes e títulos.

    Por que hoje os dois cônsules e os pretores
    usam togas de púrpura, bordadas,
    e pulseiras com grandes ametistas
    e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
    Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
    de ouro e prata finamente cravejados?

    É que os bárbaros chegam hoje,
    tais coisas os deslumbram.

    Por que não vêm os dignos oradores
    derramar o seu verbo como sempre?

    É que os bárbaros chegam hoje
    e aborrecem arengas, eloquencias.

    Por que subitamente esta inquietude?
    (Que seriedade nas fisionomias!)
    Por que tão rápido as ruas se esvaziam
    e todos voltam para casa preocupados?

    Porque é já noite, os bárbaros não vêm
    e gente recém-chegada das fronteiras
    diz que não há mais bárbaros.

    Sem bárbaros o que será de nós?
    Ah! eles eram uma solução.”

     

    Konstantinos Kaváfis (Alexandria, 29 de abril de 1863 – Alexandria, 29 de abril de 1933) – Considerado um dos maiores poetas gregos modernos. Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu. traduzido por José Paulo Paes.

  • Sobre labirintos e portas

     

    O escritor Pedro Rodrigues Salgueiro me encaminhou trecho de uma carta de Rosa de Luxemburgo, escrita da prisão de Breslau, numa noite natalina de 1917. Ela diz: “No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida, sob os passos lentos e pesados da sentinela, canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir.” O texto me deixou inquieto porque veio sem qualquer apresentação ou justificativa, aparentemente por nenhum motivo, grifado com um pequeno título: noite.

    É possível tatear no escuro à procura de uma saída, mesmo que as portas pareçam fechadas. Não é difícil reconhecer que o escuro existe, basta ligar a televisão ou o rádio, ler os jornais e ir ao cinema. Ou olhar pela janela do carro. Você nem precisa frequentar como paciente a emergência de um hospital público ou uma delegacia de polícia. Não vá tão longe.

    As trevas sempre existiram e Plínio, O Velho, até escreveu que encarar a luz é para os mortais a coisa mais aprazível e o que está sob a terra é nada. O que jaz escondido pertence ao mundo da ignorância. Quando desejamos conhecer algo, trazemos para a luz. A luz da ciência, a luz do conhecimento, a luz da razão.

    Mas, prefiro a luz do conhecimento, que não é necessariamente a luz da razão. O logos, este saber dos gregos que no ocidente chamou-se ciência, e que explica o que a mitologia deixou de explicar, não preenche todo o saber. Permanece o espaço da não razão, que não é necessariamente treva.

    A ciência não nos colocou no lugar mais calmo e justo, isso já sabemos. O medo de que algo inevitável está para acontecer atormenta nosso sono. Do mesmo jeito que atormentava o dos povos antigos, ao pressentirem o exército inimigo sitiando suas muralhas. Qual a diferença entre as bolas de fogo arremessadas das máquinas de guerra medievais e o fogo de uma bomba atômica? A morte está no fim de tudo, não importa a intensidade da explosão.

    No filme Sonhos, do japonês Akira Kurosawa, alguns soldados se perdem na tempestade de neve quando procuram um forte. Amarram-se uns aos outros para não se extraviarem. Cuidam em não dormir. Mas a fadiga e o sono são irresistíveis. O comandante deita e sonha com a morte. Ela vem buscá-lo, sedutora e bela. Ele acorda e grita por seus homens. Tateiam há dias, dão voltas sem nunca acharem o fortim que os acolherá e salvará suas vidas. Por fim, escutam um toque de corneta bem próximo. Sempre estiveram há alguns passos da salvação, mas, no escuro, não divisavam nada.

    Nunca existirá uma porta, afirmou Jorge Luis Borges ao escrever sobre labirintos. Pior que afirmar não existirem portas é dizer que estamos sós, ligados numa rede de comunicação, que não nos coloca em contato verdadeiro com ninguém. Dura metáfora. Dura muralha de pedra.

    Como responder à pergunta dos personagens de Tchekhov – o que fazer? – se a resposta é sempre: não sei. Ou que o mais importante é transformar a vida e que o resto é inútil. Transformar que vida?

    Dos fios de uma Rosa de Luxemburgo prisioneira, me aparece a crença de que o segredo não é outro senão a própria vida; de que a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo. Basta saber olhar.
    Ronaldo Correia de Brito

  • Na verdade, vivemos

    com muitos mistérios maravilhosos
    a serem entendidos.
    Como pode a grama ser nutritiva
    na boca dos cordeiros.
    Como podem os rios e as pedras estarem em permanente
    aliança com a gravidade
    enquanto nós mesmos sonhamos flutuar.
    Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
    que nunca mais se quebram.
    Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
    das cicatrizes dos golpes,
    chegam ao conforto de um poema.
    Deixem-me manter sempre a distância
    dos que pensam ter todas as respostas.

    Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
    Vejam! e riem de assombro
    e inclinam reverentes a cabeça.

    Mary Oliver, Evidence: Poems

  • Sonetos que não são

    Aflição de ser eu e não ser outra.
    Aflição de não ser, amor, aquela
    Que muitas filhas te deu, casou donzela
    E à noite se prepara e se adivinha

    Objeto de amor, atenta e bela.
    Aflição de não ser a grande ilha
    Que te retém e não te desespera.
    (A noite como fera se avizinha.)

    Aflição de ser água em meio à terra
    E ter a face conturbada e móvel.
    E a um só tempo múltipla e imóvel

    Não saber se se ausenta ou se te espera.
    Aflição de te amar, se te comove.
    E sendo água, amor, querer ser terra.
    Hilda Hilst


     

    Sempre pensei que a narrativa é a arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar, e nessa conversa sobre nós mesmos há muitíssima conversa fiada: nós nos mentimos, nos imaginamos, nos enganamos. O que contamos hoje sobre a nossa infância não tem nada a ver com o que contaremos dentro de vinte anos. E o que você lembra da história comum familiar costuma ser completamente diferente daquilo que seus irmãos lembram. Às vezes troco algumas cenas do passado com a minha irmã Martina, como quem troca figurinhas: e o lar infantil desenhado por uma e pela outra quase não têm pontos em comum. Os pais dela se chamavam igualzinho aos meus e moravam numa rua com o mesmo nome, mas certamente eram outras pessoas. De maneira que nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.
    Rosa Montero – A Louca da Casa