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  • Patina-se sempre no nevoeiro sangrento, mas com algumas referências. O caos não está mais do que a alguns metros. Magro êxito, na verdade.
    Que contraste com O poder absoluto, milagroso, da leitura! Uma vida inteira lendo teria satisfeito os meus desejos. Isso eu já sabia aos sete anos de idade. A textura do mundo é dolorosa, inadequada; não me parece que se possa modificá-la. Realmente, acho que uma vida inteira lendo teria sido melhor para mim. Tal vida não me foi dada.

    Michel Houellebecq em Extensão do Domínio da Luta

  • Mãe

    A mulher fia o filho.
    No silêncio do corpo
    inaugura-se: mãe.
    O ventre: curvatura de sol
    levantando-se
    em mansidão de horizonte.
    De si própria se esquece:
    tecelã da rosa que já aflora
    em crescimento lento
    no seu sangue.
    Zila Mamede
    Mãe, poema do livro Exercício da Palavra, de 1975
  • Adolescente

    Wislawa Szymborska

    Eu — adolescente?
    Se de repente ela me aparecesse aqui, agora,
    deveria saudá-la como a uma pessoa próxima,
    mesmo que me pareça estranha e distante?

    Derramar uma lágrima, beijar a testa
    somente pelo motivo
    de termos a mesma data de nascimento?

    Tanta dessemelhança entre nós
    que talvez só os ossos sejam os mesmos,
    o formato do crânio, as órbitas.

    Pois os olhos deles já parecem maiores,
    os cílios mais longos, a estatura mais alta
    e o corpo compactamente coberto
    de pele lisa, sem defeito.

    É verdade que nos unem parentes e amigos,
    mas no seu mundo quase todos estão vivos
    e no meu quase ninguém
    desse círculo comum.

    Tanto nos diferenciamos,
    de coisas tão diversas falamos, pensamos.
    Ela sabe pouco —
    mas com absoluta convicção.
    Eu sei muito mais —
    mas sem certezas.

    Me mostra os seus versos,
    escritos numa letra clara, caprichada,
    que eu já não tenho há anos.

    Leio esses versos, releio.
    Bom, talvez só este,
    se der para encurtar
    e corrigir aqui e ali.
    Para o resto não vejo futuro.

    A conversa não engata.
    No seu relógio pobre
    o tempo ainda é vacilante e barato.
    No meu, muito mais caro e preciso.

    Na despedida, nada: um sorriso casual
    e nenhuma emoção.

    Só quando some
    e na pressa esquece o cachecol.

    Um cachecol de pura lã,
    com listras coloridas,
    tricotado à mão para ela
    pela nossa mãe.

    Eu o guardo ainda.


  • A todos os pesquisadores e alunos…
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  • À DERIVA

    Horacio Quiroga – (1878 – 1937)

    O homem pisou algo esbranquiçado e, em seguida, sentiu a picadura no pé. Deu um salto e, ao voltar-se com um palavrão, viu uma jararacuçu que, enrodilhada, preparava um novo bote.

    O homem deu uma olhadela no pé, onde duas gotinhas de sangue se esforçavam em engrossar, e sacou o facão da cintura. A serpente viu a ameaça e afundou ainda mais a cabeça no centro de sua espiral; mas o facão caiu sobre ela, segregando-lhe as vértebras.

    O homem abaixou-se à mordedura, limpou as gotinhas de sangue e, durante um instante, examinou a ferida. Uma dor aguda brotava dos pontinhos violáceos e começava a invadir todo o pé. Apressadamente, atou com um lenço o tornozelo e seguiu pela picada até a fazenda.

    A dor no pé aumentava com a sensação de um inchaço tenso e, de repente, o homem sentiu três fulgurantes pontadas que, como relâmpagos, irradiavam-se a partir da ferida e subiam até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade. Uma secura metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, lhe arrancou um novo palavrão.

    Finalmente chegou à fazenda e lançou os braços à roda de um moinho. Os dois pontinhos violáceos agora desapareciam na monstruosa inchação de todo o pé. A pele parecia adelgaçada e a ponto de ceder, de tão esticada que estava. Quis chamar a mulher, mas a voz rebentou num ronco arrastado de garganta seca. A sede o devorava.

    ― Dorotea! ― consegui gritar num estertor. ― Dê-me cachaça!

    A mulher correu-lhe com um copo cheio, que o homem sorveu em três tragos. Mas não havia sentido gosto nenhum.

    ― Eu lhe pedi cachaça, não água! ― rugiu de novo. ― Dê-me cachaça!

    ― Mas é cachaça, Paulino! ― respondeu a esposa, espantada.

    ― Não! Você me trouxe água! Eu quero cachaça, já lhe disse!

    A mulher correu outra vez, voltando com a moringa. O homem tragou, um após o outro, mais dois copos. Contudo, nada sentiu na garganta.

    ― Bem, isto está horrível ― murmurou, olhando para o pé lívido, já tomado de um brilho gangrenoso. Sobre a funda atadura do tornozelo, a carne desbordava como um grande chouriço.

    As dores fulgurantes se sucediam em contínuos relâmpagos, e chegavam agora à virilha. A atroz secura da garganta, que a respiração parecia afoguear ainda mais, aumentava a olhos vistos. Quando tentou se erguer, um vômito fulminante o manteve meio minuto com a testa encostada à moenda.

    Mas o homem não queria morrer. Então, descendo à beira do rio, embarcou na canoa. Sentando-se à popa, pôs-se a remar até o meio do Paraná. Ali, a corrente, nas imediações do Iguaçu, percorre seis milhas e ela o levaria em menos de cinco horas a Tacurú-Pucú.

    O homem, com um ímpeto sombrio, pôde mesmo chegar ao meio do rio; mas, ali, as suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa e, depois de um novo vômito ― desta vez, de sangue ―, elevou o olhar para o Sol, que já transpunha a mata.

    Até a metade da coxa, toda a perna era um bloco disforme e duríssimo, que rebentava a roupa. O homem cortou a atadura e abriu a calça com a faca: o baixo-ventre desbordou inchado, terrivelmente doloroso, com grandes manchas lívidas. O homem estimou que não mais poderia chegar sozinho a Tacarú-Pacú e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, com quem estava intrigado há muito tempo.

    Agora, a corrente do rio precipitava-se até a banda brasileira, e o homem pôde atracar sem dificuldades. Arrastou-se na picada margem acima, mas, a uns vinte metros, exausto, ficou estendido de peito.

    ― Alves! ― gritou com as forças que pôde. E assuntou em vão.

    ― Compadre Alves! Não me negue este favor! ― gritou novamente, erguendo a cabeça. No silêncio da floresta, não ouviu um ruído sequer. O homem teve ainda coragem para chegar à canoa, e a corrente, arrebatando-a de novo, velozmente levou-a à deriva.

    Ali, o Paraná afunda num imenso cânion, cujas paredes, elevando-se uns cem metros, represam funebremente o rio. A partir das margens orladas de negros blocos de basalto, ergue-se a floresta, igualmente negra. Mais adiante, nos flancos e por detrás, erige-se a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio, rodopiante, se precipita, em incessantes borbulhas de água lodosa. A paisagem é agressiva e nela reina um silêncio de morte. Mas, ao entardecer, aquela beleza ― sombria e calma ― adquire uma singular majestade.

    O Sol já havia caído quando o homem, meio estendido no fundo da canoa, experimentou um violento calafrio. E, de repente, num sobressalto, aprumou pesadamente a cabeça; sentia-se melhor. Somente lhe doía a perna, a sede diminuía e o seu peito, agora livre, se abria em lenta inspiração.

    O veneno começava a esvair-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem e, embora não tivesse força para mover a mão, contava com a descida do orvalho para recompor-se de todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.

    O bem-estar avançava e, com ele, uma sonolência cheia de recordações. Já não sentia nada, na perna ou no ventre. O seu compadre Gaona viveria ainda em Tacurú-Pacú? Será que veria também Mr. Dougald, o seu ex-patrão, e o receptor de madeira do obraje[1]?

    Chegaria logo? O céu, no poente, se abria agora num abajur de ouro, e o rio dourava, também. Na costa paraguaia, já entenebrecida, a mata deixava cair sobre o rio a sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores cítricas e mel silvestre. Um casal de araras sobrevoou bem alto e silenciosamente, rumo ao Paraguai.

    Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando ocasionalmente em torno de si mesma, ante o borbotão de um redemoinho. O homem que seguia nela se sentia cada vez melhor, enquanto pensava no exato tempo que havia passado sem ver o seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez não, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isto mesmo, seguramente.

    De repente, sentiu que estava gelado até o peito.

    O que seria isso? E a respiração…

    Havia conhecido o receptor de madeiras de Mr. Dougalad, Lorenzo Cubilla, em Puerto Esperanza, numa Sexta-feira Santa… Sexta-feira? Sim, ou fora numa quinta?…

    O homem esticou lentamente os dedos da mão.

    ― Numa quinta-feira…

    E parou de respirar.

    [1] Estabelecimento de exploração florestal.

  • Inevitável egoísmo da humanidade

    Quando for mais velho, compreenderá que a coisa mais necessária para tornar este mundo um lugar tolerável é reconhecer o inevitável egoísmo da humanidade. É absurdo exigir altruísmo por parte dos outros: para que sacrificariam eles os seus desejos aos nossos? Quando quiser compreender que cada um, no mundo, se preocupa apenas consigo próprio, exigirá menos dos seus semelhantes. Já não lhe causarão decepções e passará a olhá-los com mais simpatia. Os homens buscam, na vida, uma única coisa: o prazer.

    W. Somerset Maugham – Servidão Humana

  • Desfado – Ana Moura

    Desfado – Ana Moura

     

    Quer o destino que eu não creia no destino
    E o meu fado é nem ter fado nenhum
    Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
    Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

    Ai que tristeza, esta minha alegria
    Ai que alegria, esta tão grande tristeza
    Esperar que um dia eu não espere mais um dia
    Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

    Ai que saudade
    Que eu tenho de ter saudade
    Saudades de ter alguém
    Que aqui está e não existe
    Sentir-me triste
    Só por me sentir tão bem
    Alegre sentir-me bem
    Só por eu andar tão triste

    Ai se eu pudesse não cantar ai se eu pudesse
    E lamentasse não ter mais nenhum lamento
    Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
    Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro

    Ai que desgraça esta sorte que me assiste
    Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
    Na incerteza que nada mais certo existe
    Além da grande certeza de não estar certa de nada

    Ai que saudade
    Que eu tenho de ter saudade
    Saudades de ter alguém
    Que aqui está e não existe
    Sentir-me triste
    Só por me sentir tão bem
    Alegre sentir-me bem
    Só por eu andar tão triste

     

    Composição: Pedro Da Silva Martins

  • Amor depois de amor

    Love after love

    The time will come
    when, with elation
    you will greet yourself arriving
    at your own door, in your own mirror
    and each will smile at the other’s welcome,

    and say, sit here. Eat.
    You will love again the stranger who was your self.
    Give wine. Give bread. Give back your heart
    to itself, to the stranger who has loved you

    all your life, whom you ignored
    for another, who knows you by heart.
    Take down the love letters from the bookshelf,

    the photographs, the desperate notes,
    peel your own image from the mirror.
    Sit. Feast on your life.

    WALCOTT, Derek. “Love after love”. In:_____. Collected poems. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1986.


    Amor depois de amor

    Vai vir o tempo
    em que você, orgulhoso,
    vai saudar a si mesmo chegando
    à sua própria porta, em seu próprio espelho,
    e vão trocar sorrisos de boas-vindas,

    você vai dizer, sente-se. Coma.
    Vai amar o estranho que um dia você foi.
    Dê vinho. Dê pão. Devolva seu coração
    pra ele mesmo, o estranho que o amou

    por toda a sua vida, e a quem você ignorou
    por outro alguém, que o conhece de cor.
    Pegue da estante as cartas de amor,

    as fotografias, as anotações desesperadas,
    descasque seu reflexo do espelho.
    Sente-se. Sirva-se da vida.

    WALCOTT, Derek. “Amor depois de amor”. Trad. Rodrigo Garcia Lopes. In blog Estúdio Realidade. URL: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2011/12/amor-depois-de-amor-derek-walcott.html. Acessado em 1 de março de 2017.

    (mais…)

  • Nunca serei vencida

    Nunca serei vencida.
    Não o serei
    senão à força de vencer.
    Cada armadilha estendida
    fechando-me cada vez mais
    no amor
    que acabará por ser o meu
    túmulo,
    acabarei a minha vida numa cela
    de vitórias.
    Sozinha,
    a derrota encontra chaves,
    abre portas.
    A morte,
    para atingir o fugitivo,
    tem de se pôr em movimento,
    perder essa fixidez
    que nos faz reconhecer
    que ela é o duro contrário
    da vida.
    Ela dá-nos o fim do cisne
    atingido em pleno voo,
    de Aquiles agarrado pelos cabelos
    por não sabermos que sombria Razão.
    Como a mulher asfixiada no vestíbulo
    da sua casa de Pompeia,
    a morte não faz mais do que prolongar
    no outro mundo os corredores
    da fuga.
    A minha morte será
    de pedra.
    Conheço as passagens,
    as curvas,
    as armadilhas,
    todas as minas da Fatalidade.
    Não posso perder-me.
    A morte,
    para me matar,
    terá necessidade da minha
    cumplicidade.

    MARGUERITE YOURCENAR,
    in FOGOS (trad. de Maria da Graça Morais Sarmento, Difel, 1995)

  • A Vida da Bruxa

    Tradução de Ana Santos

    Quando eu era criança
    havia uma velha em nosso bairro
    a quem chamávamos A Bruxa.
    O dia todo ela espiava da sua janela no segundo andar
    por trás das cortinas enrugadas
    e às vezes abria a janela
    e gritava: Saiam da minha vida!
    Seu cabelo era como alga
    e sua voz como rocha.

    Penso nela às vezes
    e me pergunto se é nela que me transformo.
    Meus sapatos apontam para cima como os de um bufão.
    Montes do meu cabelo, enquanto escrevo isto,
    enrolam-se sozinhos feito dedos.
    Lanço as crianças para fora,
    pá por pá.
    Só meus livros me ungem,
    e alguns amigos,
    os que penetram minhas veias.
    Talvez esteja virando eremita,
    abrindo a porta apenas para
    uns poucos animais especiais?
    Talvez meu crânio esteja demasiado cheio
    e não tenha uma brecha através da qual
    possa tomar sopa?
    Talvez eu tenha fechado as cavidades
    para prender os deuses?
    Talvez, embora meu coração
    seja um gato de manteiga,
    eu o esteja inflando como a um zepelim.
    Sim. É a vida da bruxa,
    escalar a primordial escalada,
    um sonho dentro de um sonho,
    e então sentar-me aqui,
    um cesto de fogo nas mãos.

    Anne Sexton