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Museu
Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.Há um leque — onde os rubores?
Há espadas — onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias.
Um bedel bolorento tira um doce cochilo,
o bigode pendido sobre a vitrine.Metais, argila, pluma de pássaro
triunfam silenciosos no tempo.
Só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do Egito.A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a luva.
A bota direita derrotou a perna.Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
E como ele adoraria sobreviver!Wislawa
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O maior tesão da vida não é transar gostoso, não é ter orgasmos múltiplos e nem ser milionário. Nada disso nos livra das nossas mazelas de existir – rico também toma antidepressivo, bonito também vai ao psiquiatra e intelectual também faz análise. O maior tesão da vida é dar conta de encontrar um sentido para viver. a ciência não o tem, filosofia também não e a religião muito menos. O sentido de viver é pessoal.
Não há maior prazer do que ser capaz de construir uma tela de proteção existencial que seja capaz de nos proteger do desespero e da loucura – a melhor alegria de viver é ser capaz de construir algo de si pelo enfrentamento de si naquilo que ninguém pode resolver por você.
O maior tesão não é colecionar transas, adquirir bens ou ostentar ideias. Não é a arrogância de se entupir antidepressivos, cirurgias plásticas, próteses e anabolizantes. O maior tesão da vida está no vazio que nada disso preenche.
Não existe o ser – no sentido de que sabemos sobre nós mesmos. Existe o ter, no sentido de que temos esse vazio – e precisamos criar alguma borda de sentido em torno dele. Esse – sim – é o nosso maior tesão de viver!Evaristo Magalhães – Psicanalista
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Repito. É preciso repeti-lo muito. O trabalho de uma mulher, desde que se levanta até a hora que vai pra cama, é tão pesado quanto um dia de guerra, pios que a jornada de trabalho de um homem, porque ela, ela precisa inventar seu emprego do tempo de acordo com o emprego do tempo das outras pessoas, das pessoas de sua família e das pessoas das instituições externas.
(Marguerite Duras, A vida material p. 46)
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”Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente.”
Valter Hugo Mãe
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Ocaso do Século
Wislawa Szymborska
Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX.
Agora já não tem mais jeito,
os anos estão contados,
os passos vacilantes,
a respiração curta.Coisas demais aconteceram,
que não eram para acontecer,
e o que era para ter sido
não foi.Era para se chegar à primavera
e à felicidade, entre outras coisas.Era para o medo deixar os vales e as montanhas.
Era para a verdade atingir o objetivo
mais depressa que a mentira.Era para já não mais ocorrerem
algumas desgraças:
a guerra por exemplo,
e a fome e assim por diante.Era para ter sido levada sério
a fraqueza dos indefesos,
a confiança e similares.Quem quis se alegrar com o mundo
depara com uma tarefa
de execução impossível.A burrice não é cômica.
A sabedoria não é alegre.
A esperança
já não é aquela bela jovem
et cetera, infelizmente.Era para Deus finalmente crer no homem
bom e forte
mas bom e forte
são ainda duas pessoas.Como viver – me perguntou alguém numa carta,
a quem eu pretendia fazer
a mesma pergunta.De novo e como sempre,
como se vê acima,
não há perguntas mais urgentes
do que as perguntas ingênuas.Tradução de Regina Przybycien
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A Vida Na Hora
A VIDA NA HORA
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado
eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
conheço.
Isso é justo — pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.Wisława Szymborska, Poemas








