Autor: caderno

  • Insônia

    Quero escrever um poema irritado.
    Quero vingar meu sono dividido
    (busco palavras que interroguem essa alquimia
    do poema, que vire a noite em fogo vário
    e a lua em pegada escondida atrás do muro
    — vagaroso desmoronar de extinto voo).
    Quero um poema ainda não pensado,
    que inquiete as marés de silêncio da palavra
    ainda não escrita nem pronunciada,
    que vergue o ferruginoso canto do oceano
    e reviva a ruína que são as poças d’água.
    Quero um poema para vingar minha insônia.

    Olga Savary

  • A Surpresa

    Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.

    Crônica extraída do livro: A Descoberta do Mundo – Clarice Lispector

  • Em 2006 uma professora de ensino médio pediu a seus alunos que escrevessem para escritores/as famosos/as solicitando conselhos de escrita. Kurt Vonnegut foi o único a responder e sua resposta foi excêntrica:

    “Querida Escola Xavier, Sra. Lockwood, e Srs. Perin, McFeely, Batten, Maurer e Congiusta: agradeço pelas cartas amigáveis. Vocês com certeza sabem como animar um velhote muito velhinho (84) em seus anos crepusculares. Não faço mais aparições públicas porque agora me pareço com nada menos que uma iguana. O que teria a dizer a vocês, aliás, não demoraria muito, a saber: pratiquem qualquer arte, música, canto, dança, atuação, desenho, pintura, escultura, poesia, ficção, ensaio, reportagem, não importa quão bem ou mal não para ganhar dinheiro e fama, mas pra mas experimentar o devir, descobrir o que está dentro de vocês, fazer suas almas crescerem. É sério! Começando neste momento, façam arte e façam isso pelo resto de suas vidas. Façam um desenho engraçado da Sra. Lockwood e deem a ela.
    Dancem em casa depois da escola, cantem no chuveiro e assim por diante. Façam uma carinha em seu purê de batatas. Finjam que vocês são Conde Drácula. Aqui vai uma tarefa para esta noite, e espero que a Sra. Lockwood os reprovem se não fizerem isso:
    Escrevam um poema de seis linhas, sobre qualquer coisa, contanto que seja rimado. Não há partida de tênis justa sem uma rede. Façam o melhor que puderem. Mas não contem a ninguém o que estão fazendo.
    Não mostrem ou recitem pra ninguém, nem mesmo para sua namorada ou pais ou qualquer outra coisa, ou para a Sra. Lockwood. OK? Rasguem o poema em pedaços minúsculos e descartem os pedaços em recipientes de lixo amplamente separados.
    Vocês descobrirão que já foram gloriosamente recompensados por seus poemas. Vocês experimentaram o tornar-se, aprenderam muito mais sobre o que está dentro de vocês e fizeram suas almas crescerem.

    Deus abençoe vocês!”

    Kurt Vonnegut.


    Fonte:

  • Essa poesia eu vi quando assiti pela primeira vez os vivos e os mortos , nos anos 90. Desde que vi fiquei apaixonada. Mas só depois da internet é que vim a saber a origem dela, e alguma historinha por trás. Parece que faz parte do folclore gaélico e Lady Gregory (dramaturga, poeta, folclorista inglesa) traduziu/adaptou para o inglês. Dizem que ela cortou algumas partes, ou reduziu a métrica, algo assim. E dizemq ue também em inglês ficou mais forte. De toda forma a tradução é belíssima. Eu ainda sou encantada com ela.


    Votos Partidos
    Era tarde a noite passada.
    O cão falava de você.
    O pássaro cantava no pântano.
    Falava de você.
    Você é o pássaro solitário das florestas.
    Que você fique sem companhia,
    Até achar-me.
    Você prometeu e me traiu.
    Disse que estaria junto a mim
    Quando os carneiros fossem arrebanhados.
    Eu assobiei e gritei cem vezes.
    E não achei nada lá,
    A não ser uma ovelha balindo.
    Você prometeu uma coisa difícil.
    Um navio de ouro sob um mastro prateado.
    Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
    E uma branca e bela praça à beira-mar.
    Você prometeu algo impossível.
    Que me daria luvas de pele de peixe.
    E sapatos de asas de ave.
    E roupa da melhor seda da Irlanda.
    Minha mãe disse para eu não falar com você.
    Nem hoje, nem amanhã. Nem Domingo.
    Foi um mau momento para dizer-me isso.
    Como trancar a porta após ter a casa arrombada.
    Você tirou o leste de mim.
    Tirou o oeste de mim.
    Tirou o que existe à minha frente.
    Tirou o que há atrás.
    Tirou a lua.
    Tirou o sol de mim,
    E meu medo é grande.
    Você tirou Deus de mim.

  • Otimismo

    de Jane Hirshfield

    Cada vez mais admiro a resiliência.
    Não a simples resistência de um travesseiro,
    cuja espuma volta sempre à mesma forma,
    mas a tenacidade sinuosa de uma árvore:
    encontrando a luz recém-bloqueada de um lado,
    ela se transforma no outro.
    Uma inteligência cega, é verdade.
    Mas dessa persistência
    surgiram tartarugas, rios, mitocôndrias, figos
    – toda essa terra resinosa e irretratável.