
Autor: caderno
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FERNANDO PESSOA, in POESIAS INÉDITAS (1930-1935), [(Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990)]NÃO DIGAS NADA!Não digas nada!Não, nem a verdade!Há tanta suavidadeEm nada se dizerE tudo se entender —Tudo metadeDe sentir e de ver…Não digas nada!Deixa esquecer.Talvez que amanhãEm outra paisagemDigas que foi vãToda esta viagemAté onde quisSer quem me agrada…Mas ali fui feliz…Não digas nada.p. 16723-8-1934
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ALICE VIEIRA, in OS ARMÁRIOS DA NOITE, capa de Heduardo Kiesse/ ParadoXos (Caminho, 2014)esperar que voltes é tão inútil como osorriso escancarado dos mortos nanecrologia dos jornaise no entanto de cada vez quea noite se rasga em barulhos no elevador eum telefone se debruça de um sexto andarsinto que ainda ficou uma palavra minhaesquecida na tua bocae que vais voltarparaadevolver*
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De amor nada mais resta que um Outubroe quanto mais amada mais desisto:quanto mais tu me despes mais me cubroe quanto mais me escondo mais me avisto.E sei que mais te enleio e te deslumbroporque se mais me ofusco mais existo.Por dentro me ilumino, sol oculto,por fora te ajoelho, corpo místico.Não me acordes. Estou morta na quermessedos teus beijos. Etérea, a minha espécienem teus zelos amantes a demovem.Mas quanto mais em nuvem me desfaçomais de terra e de fogo é o abraçocom que na carne queres reter-me jovem.Natália Correia, in “Poesia Completa”
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Velha
Estou com medo de agulhas.
Estou cansada de lençóis de borracha e tubos.
Estou cansada de rostos que eu não conheço
e agora penso que a morte está começando.
A morte começa como um sonho,
repleto de objetos e do riso da minha irmã.
Nós estamos jovens e nós caminhamos
e colhemos mirtilos selvagens.
em todo o caminho para Damariscotta.
Ó Susan, ela gritou.
você manchou o seu corpete novo.
Gosto doce –
minha boca tão cheia
e o doce azul se esgotando
em todo o caminho para Damariscotta.
O que você está fazendo? Me deixe em paz!
Você não vê que estou sonhando?
Em um sonho você nunca tem oitenta.Anne Sexton
http://www.mallarmargens.com/2019/01/quatro-poemas-de-anne-sexton-por.html
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Podia ser simples
—A História do Jornaleiro Mal Educado
Um executivo acompanha o seu amigo ao trabalho, e o amigo do executivo, como de costume, parou na banca para comprar o jornal. O amigo cumprimentou o jornaleiro educada e respeitosamente, mas como retorno recebeu um tratamento rude, grosseiro e desrespeitoso.O amigo do executivo pagou o jornal que foi atirado em sua direção pelo dono da banca, sorriu atenciosamente e desejou ao jornaleiro um bom dia. Quando desciam pela rua, o executivo perguntou:– Ele sempre te trata dessa forma desrespeitosa?– Sim.– E você é sempre tão educado e respeitoso com ele?– Sim, sou.– E por que você é tão educado e respeitoso com ele, já que ele é tão grosso com você?– Simples: porque não vou deixar que a atitude dele determine a minha. -
Exame de Rotina
Catarina Costa
Meu pai foi diagnosticado
No meu seio esquerdoDo jeito que meu pai é aventureiro
é capaz de querer ir até o mediastino
um drible duplamente invisível
feito o drible do tempo até
o meridianoos médicos querem tirá-lo de lá
dizem que não é saudável
para uma moça jovem como eu
nem para uma mulher
amorosa como minha mãe
acomodar esse senhor tão espaçoso
que ao se espreguiçar
se estende do mamilo à axilaeu discuto com os médicos
Deixo que meu pai fique
contanto que fique
em silêncioSem atrapalhar minha mãe
que aperta minha mão
sem receio algum -
A questão sobre qual é o significado da vida foi contemplada por quase todos os seres humanos que pensam, sentem e respiram, e de forma memorável por vários ícones culturais, incluindo Carl Sagan, Henry Miller , Anaïs Nin , David Foster Wallace, Richard Feynman e tantos outros.
Mas uma das meditações mais incomuns e comoventes sobre essa eterna questão vem, de maneira inusitada, mas com uma precisão cristalina, da lendária antropóloga Margaret Mead .
Em uma carta de 1926 encontrada em To Cherish the Life of the World: Selected Letters of Margaret Mead (sem tradução em português)- o mesmo livro magnífico que nos deu as cartas de amor de Margaret Mead para sua alma gêmea, Ruth Benedict, e seus pensamentos prescientes sobre a sexualidade humana – Mead relata um sonho particularmente intrigante. Mais do que um mero registro sobre o inconsciente, o sonho se desdobra em uma poderosa metáfora para o significado da vida – para a beleza do não-saber, para a admiração como alimento da alma e para a questão do que é “suficiente”.
Mead escreve:
Ontem à noite tive o sonho mais estranho. Eu estava em um laboratório com o Dr. Boas e ele estava conversando comigo e com um grupo de outras pessoas sobre religião, insistindo que a vida deve ter um sentido, que o homem não poderia viver sem significado. Então ele fez uma massa de material gelatinoso do azul mais lindo que eu já tinha visto – e ele parecia estar perguntando a todos nós o que fazer com isso. Lembro-me de pensar que era muito bonito, mas eu me perguntava impotente para que servia. As pessoas iam e vinham fazendo sugestões absurdas. De alguma forma, o Dr. Boas tentou colocar as sugestões em prática – mas as pessoas sempre iam embora zangadas ou desapontadas – e, finalmente, depois de termos ficado acordados a noite toda, todos eles desapareceram e éramos apenas nós dois. Ele olhou para mim e disse, apelando: “Toque”. Peguei um pouco da beleza surpreendentemente azul em minhas mãos e senti com grande emoção que era matéria viva.
De The Marginalian – Maria Popova
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CONSOLO ANTIGO
por Anna Belle Kaufman
Quando minha mãe morreu,
um de seus pães de mel ficou no freezer.
Eu não suportaria vê-lo desaparecer,
assim ele esperou, perdoado,
em sua caverna de gelo
atrás das bandejas de metal
por mais dois anos.No meu quadragésimo primeiro aniversário
Eu o despedacei,
uma ressurreição retangular,
levantei o peso morto
na palma da minha mão.Antes de descongelar,
Eu parti, com faca serrilhada,
a mais fina das fatias —
Eucaristia judaica.Os quadrados âmbar,
seus painéis translúcidos de nozes
com gosto – um pouco queimado
– de freezer,
de geada,
uma iguaria fermentada
entregue
de uma delicatessen no submundo.Eu ansiava por recordar a vida, não a morte –
seu corpo imóvel na camisola rosa sobre a cama,
do mesmo jeito que eu deito
no berço raso dos lençóis espalhados
depois que eles a levaram embora,
inalando seu perfume uma última vez.Fecho os olhos, saboreio uma hóstia de
pão sagrado na língua e
tento provar minha mãe, para entender
a mensagem que ela assou nestes pães
quando estava muito doente para comê-los:Eu te amo.
Isso vai acabar.
Deixe algo de doçura
e substância
na boca do mundo. -
Imagine, por exemplo, que você nasceu em Chicago e nunca teve a mais remota vontade de visitar Hong Kong, que para você é apenas um nome no mapa; imagine que algum acontecimento, às vezes chamado de acidente, o coloca em contato com um homem ou uma mulher que mora em Hong Kong; e que você se apaixone. Hong Kong deixará imediatamente de ser um nome e se tornará o centro de sua vida. E você pode nunca saber quantas pessoas vivem em Hong Kong. Mas você saberá que um homem ou uma mulher mora lá sem o qual você não pode viver. E é assim que nossas vidas mudam, e é assim que somos redimidos.
Que viagem é esta vida! Dependente, inteiramente, de coisas invisíveis. Se o seu amado mora em Hong Kong e não pode ir para Chicago, será necessário que você vá para Hong Kong. Talvez você passe sua vida lá e nunca mais veja Chicago. E, garanto-lhe, enquanto o espaço e o tempo o separarem de qualquer pessoa que você ame, você descobrirá muito sobre rotas marítimas, companhias aéreas, terremotos, fome, doenças e guerras. E você sempre saberá que horas são em Hong Kong, pois ama alguém que mora lá. E o amor simplesmente não terá escolha a não ser entrar em batalha com o espaço e o tempo e, além disso, vencer.James Baldwin