Categoria: trechos de livros

  • Imagine, por exemplo, que você nasceu em Chicago e nunca teve a mais remota vontade de visitar Hong Kong, que para você é apenas um nome no mapa; imagine que algum acontecimento, às vezes chamado de acidente, o coloca em contato com um homem ou uma mulher que mora em Hong Kong; e que você se apaixone. Hong Kong deixará imediatamente de ser um nome e se tornará o centro de sua vida. E você pode nunca saber quantas pessoas vivem em Hong Kong. Mas você saberá que um homem ou uma mulher mora lá sem o qual você não pode viver. E é assim que nossas vidas mudam, e é assim que somos redimidos.
    Que viagem é esta vida! Dependente, inteiramente, de coisas invisíveis. Se o seu amado mora em Hong Kong e não pode ir para Chicago, será necessário que você vá para Hong Kong. Talvez você passe sua vida lá e nunca mais veja Chicago. E, garanto-lhe, enquanto o espaço e o tempo o separarem de qualquer pessoa que você ame, você descobrirá muito sobre rotas marítimas, companhias aéreas, terremotos, fome, doenças e guerras. E você sempre saberá que horas são em Hong Kong, pois ama alguém que mora lá. E o amor simplesmente não terá escolha a não ser entrar em batalha com o espaço e o tempo e, além disso, vencer.

    James Baldwin

  • Quando você tem vinte anos, mesmo que você se sinta confuso e incerto a respeito dos seus objetivos, você tem um forte senso do que é a vida, e do que você é na vida, e pode vir a ser. Mais tarde…mais tarde há mais incerteza, mais sobreposição, mais retrocesso, mais falsas lembranças. Na juventude, conseguimos nos lembrar de toda a nossa curta vida. Mais tarde, a memória vira uma coisa feita de retalhos e remendos.
    O Sentido de um Fim, Julian Barnes
  • “O que me salvou quando menina no Arizona à espera de ficar adulta, à espera da hora de fugir para uma realidade mais ampla, foi a leitura de livros. Ter acesso à literatura, à literatura do mundo, era escapar da prisão da frivolidade nacional, do mau gosto, do provincianismo compulsório, da educação vazia, dos destinos imperfeitos e da má sorte”

    Susan Sontag

  • Flor que recorda

    Cerca de ríos, manantiales y arroyos de la campiña cubana, pero también en algunos patios y jardines húmedos, crece la mariposa (Hedychium coronarium), la flor nacional de Cuba desde 1936 a pesar de su exotismo, pues es originaria de la India, de acuerdo con datos de expertos.

    Parece orquídea, mas não. Cheira a gardênia, mas também não. Suas grandes pétalas, asas brancas, tremem querendo voar, ir-se embora do talo; e há de ser por isso que em Cuba é chamada de borboleta.

    Alessandra Riccio plantou, na terra de Nápoles, um bulbo de borboleta, trazido de Havana. Em terra estranha, a borboleta deu folhas, mas não floresceu. E passaram-se os meses e os anos, e continuava sem dar nada além de folhas quando uns amigos cubanos de Alessandra chegaram a Nápoles e ficaram em sua casa durante uma semana.

    Então, nos arredores da planta, soaram e ressoaram as vozes de sua terra, o antilhano jeito de dizer cantando: a planta escutou aquela música das palavras durante sete dias e sete noites, porque os cubanos falam acordados e dormindo também.

    Quando Alessandra disse adeus aos seus amigos e voltou do aeroporto, encontrou em sua casa uma flor branca recém-nascida.

    Eduardo Galeano

  • “E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente -tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?”

    Que saudade do Grande Sertão

    O que demaseia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.

  • e, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho,
    e se um outro acordou inseto na mente de um escritor,
    e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu,
    e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz,
    e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários,
    tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol”

    João Anzanello Carrascoza In: Caderno de Um Ausente

  • TODAS AS HISTÓRIAS JÁ FORAM CONTADAS

    Trata-se de uma afirmação muito comum no discurso pós-moderno: tudo já foi feito, e, principalmente, todas as histórias já foram contadas. Será? Será que já contamos todas as histórias sobre o parto, a experiência de um parto normal? A experiência de uma cesárea? A dor de dar à luz um bebê morto? Sobre a violência obstétrica, sobre a depressão pós-parto, sobre a amamentação? Sobre não querer amamentar e sobre não poder amamentar? Será que já contamos todas as histórias sobre a experiencia da menstruação? E da menopausa? Quantos romances falam sobre a menopausa? Será que já contamos todas as histórias sobre esterilização forçada, sobre não querer ser mãe, sobre querer ser mãe e não poder, sobre ter um filho negro ou indígena ou homossexual ou trans, sobre o medo da violência das pessoas e instituições sobre esse filho? Será que já contamos todas as histórias sobre o que significa ser uma mulher negra? E uma mulher indígena? E sobre mulheres ou homens trans? Será que já contamos todas as histórias sobre o sexo entre duas mulheres? E sobre o amor entre duas mulheres? Será que já contamos todas as histórias sobre aborto? Sobre aborto espontâneo de um filho desejado e sobre aborto malfeito, sobre a menina que engravida e é obrigada a ser mãe, sobre a menina que engravida? Será mesmo que todas as histórias já foram contadas?

    Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

  • Literatura Indígena

    Literatura indígena. Quando os europeus chegaram no continente, a maior parte das culturas eram ágrafas, muitas ainda são, e lembro das palavras do xamā Davi Kopenawa, que chama os livros de peles de árvores mortas. Para Kopenawa, nós matamos árvores com o intuito de gravar ali o que nossa memória inepta não é capaz de lembrar. Me pergunto, o que será a literatura indígena?
    Talvez antes seja necessário pensar nas semelhanças e diferenças entre os tantos povos indígenas. Como comparar os Guarani, que resistem em grandes cidades como Rio e São Paulo, e etnias no mais profundo da Amazônia sem quase nenhum contato com a civilização “branca”?
    Mas talvez antes mesmo de começar estes questionamentos seja importante se fazer uma outra pergunta: o que é literatura? Costumamos associá-la à palavra escrita, como se esta fosse a única possibilidade. Gosto de imaginar que literatura é toda linguagem metafórica, toda linguagem simbólica: nosso corpo, uma árvore, um sonho, todo gesto de interpretação a partir deles é literatura. Um corpo que dança é literatura, a adivinhação do formato de uma nuvem. O filho que cresce no útero pode ser literatura. A voz que já não sai da garganta um homem, uma planta que perdeu as flores, um rio, um vulcão.
    Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

  • Correio Literário

    W.K., Lublin

    Por enquanto suas observações têm caráter puramente particular–dizem respeito a pessoas e ambientes delineados de forma tão nebulosa e fragmentada que não conseguiriam prender a atenção do leitor. Aliás, não entendemos bem por que na carta para a redação o senhor fala em «mania de escrever», como se fosse uma doença vergonhosa que é preciso forçosamente curar o mais rápido possível. Não há nada de anormal na necessidade de anotar seus pensamentos e vivências; pelo contrário, é uma manifestação natural da cultura literária pessoal, o que se aplica, afinal, não só aos escritores, mas, em geral, a todas as pessoas cultas! Quando lemos publicações de antigos cadernos de memórias ou cartas, ficamos admirados com o brilho da excelente forma literária dessas confissões – escritas com frequência por pessoas que não eram literatas nem tencionavam ser… Hoje, basta a pessoa escrever algumas paginazinhas e ela já se pergunta quanto vale aquilo, já lhe atormentam pensamentos sobre a publicação e ela deseja saber se vale a pena «perder seu tempo»… É triste que cada frase formulada de maneira mais ou menos graciosa deva imediatamente valer a pena. E se for valer a pena só daqui a dez ou vinte anos? Ou se nunca chegar a valer a pena no sentido público, mas, em vez disso, ajudar o escritor nos momentos mais difíceis e enriquecer sua própria individualidade? Isso não serve de nada?

    Wisława Szymborska  – Correio Literário página 31

  • “Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós.”
    G. K. Chesterton, Ortodoxia.