textos – Caderno https://caderno.nalua.blog My WordPress Blog Wed, 15 Mar 2023 15:58:30 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 https://caderno.nalua.blog/2023/03/15/1722-2/ https://caderno.nalua.blog/2023/03/15/1722-2/#respond Wed, 15 Mar 2023 15:58:30 +0000 https://caderno.nalua.in/?p=1722
Podia ser simples 🙂

A História do Jornaleiro Mal Educado

Um executivo acompanha o seu amigo ao trabalho, e o amigo do executivo, como de costume, parou na banca para comprar o jornal. O amigo cumprimentou o jornaleiro educada e respeitosamente, mas como retorno recebeu um tratamento rude, grosseiro e desrespeitoso.
O amigo do executivo pagou o jornal que foi atirado em sua direção pelo dono da banca, sorriu atenciosamente e desejou ao jornaleiro um bom dia. Quando desciam pela rua, o executivo perguntou:
– Ele sempre te trata dessa forma desrespeitosa?
– Sim.
– E você é sempre tão educado e respeitoso com ele?
– Sim, sou.
– E por que você é tão educado e respeitoso com ele, já que ele é tão grosso com você?
– Simples: porque não vou deixar que a atitude dele determine a minha.
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https://caderno.nalua.blog/2023/03/11/1718-2/ https://caderno.nalua.blog/2023/03/11/1718-2/#respond Sat, 11 Mar 2023 21:28:52 +0000 https://caderno.nalua.in/?p=1718 A questão sobre qual é o significado da vida foi contemplada por quase todos os seres humanos que pensam, sentem e respiram, e de forma memorável por vários ícones culturais, incluindo Carl Sagan, Henry Miller , Anaïs Nin , David Foster Wallace, Richard Feynman e tantos outros.

Mas uma das meditações mais incomuns e comoventes sobre essa eterna questão vem, de maneira inusitada, mas com uma precisão cristalina, da lendária antropóloga Margaret Mead .

Em uma carta de 1926 encontrada em To Cherish the Life of the World: Selected Letters of Margaret Mead (sem tradução em português)- o mesmo livro magnífico que nos deu as cartas de amor de Margaret Mead para sua alma gêmea, Ruth Benedict, e seus pensamentos prescientes sobre a sexualidade humana – Mead relata um sonho particularmente intrigante. Mais do que um mero registro sobre o inconsciente, o sonho se desdobra em uma poderosa metáfora para o significado da vida – para a beleza do não-saber, para a admiração como alimento da alma e para a questão do que é “suficiente”.

Mead escreve:

Ontem à noite tive o sonho mais estranho. Eu estava em um laboratório com o Dr. Boas e ele estava conversando comigo e com um grupo de outras pessoas sobre religião, insistindo que a vida deve ter um sentido, que o homem não poderia viver sem significado. Então ele fez uma massa de material gelatinoso do azul mais lindo que eu já tinha visto – e ele parecia estar perguntando a todos nós o que fazer com isso. Lembro-me de pensar que era muito bonito, mas eu me perguntava impotente para que servia. As pessoas iam e vinham fazendo sugestões absurdas. De alguma forma, o Dr. Boas tentou colocar as sugestões em prática – mas as pessoas sempre iam embora zangadas ou desapontadas – e, finalmente, depois de termos ficado acordados a noite toda, todos eles desapareceram e éramos apenas nós dois. Ele olhou para mim e disse, apelando: “Toque”. Peguei um pouco da beleza surpreendentemente azul em minhas mãos e senti com grande emoção que era matéria viva.

De The Marginalian – Maria Popova

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https://caderno.nalua.blog/2023/03/11/1711-2/ https://caderno.nalua.blog/2023/03/11/1711-2/#respond Sat, 11 Mar 2023 21:06:26 +0000 https://caderno.nalua.in/?p=1711
Não penses. Que raio de mania essa de estares sempre a querer pensar. Pensar é trocar uma flor por um silogismo, um vivo por um morto. Pensar é não ver. Olha apenas, vê. Está um dia enorme de sol. Talvez que de noite, acabou-se, como diz o filósofo da ave de Minerva. Mas não agora. Há alegria bastante para se não pensar, que é coisa sempre triste. Olha, escuta. Nas passagens de nível, havia um aviso de «pare, escute, olhe» com vistas ao atropelo dos comboios. É o aviso que devia haver nestes dias magníficos de sol. Olha a luz. Escuta a alegria dos pássaros. Não penses, que é sacrilégio.
Vergílio Ferreira
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Flor que recorda https://caderno.nalua.blog/2022/06/12/flor-que-recorda/ https://caderno.nalua.blog/2022/06/12/flor-que-recorda/#respond Sun, 12 Jun 2022 23:56:34 +0000 https://caderno.nalua.in/?p=1683
Cerca de ríos, manantiales y arroyos de la campiña cubana, pero también en algunos patios y jardines húmedos, crece la mariposa (Hedychium coronarium), la flor nacional de Cuba desde 1936 a pesar de su exotismo, pues es originaria de la India, de acuerdo con datos de expertos.

Parece orquídea, mas não. Cheira a gardênia, mas também não. Suas grandes pétalas, asas brancas, tremem querendo voar, ir-se embora do talo; e há de ser por isso que em Cuba é chamada de borboleta.

Alessandra Riccio plantou, na terra de Nápoles, um bulbo de borboleta, trazido de Havana. Em terra estranha, a borboleta deu folhas, mas não floresceu. E passaram-se os meses e os anos, e continuava sem dar nada além de folhas quando uns amigos cubanos de Alessandra chegaram a Nápoles e ficaram em sua casa durante uma semana.

Então, nos arredores da planta, soaram e ressoaram as vozes de sua terra, o antilhano jeito de dizer cantando: a planta escutou aquela música das palavras durante sete dias e sete noites, porque os cubanos falam acordados e dormindo também.

Quando Alessandra disse adeus aos seus amigos e voltou do aeroporto, encontrou em sua casa uma flor branca recém-nascida.

Eduardo Galeano

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TODAS AS HISTÓRIAS JÁ FORAM CONTADAS https://caderno.nalua.blog/2022/03/13/todas-as-historias-ja-foram-contadas/ Sun, 13 Mar 2022 16:36:34 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1475 Trata-se de uma afirmação muito comum no discurso pós-moderno: tudo já foi feito, e, principalmente, todas as histórias já foram contadas. Será? Será que já contamos todas as histórias sobre o parto, a experiência de um parto normal? A experiência de uma cesárea? A dor de dar à luz um bebê morto? Sobre a violência obstétrica, sobre a depressão pós-parto, sobre a amamentação? Sobre não querer amamentar e sobre não poder amamentar? Será que já contamos todas as histórias sobre a experiencia da menstruação? E da menopausa? Quantos romances falam sobre a menopausa? Será que já contamos todas as histórias sobre esterilização forçada, sobre não querer ser mãe, sobre querer ser mãe e não poder, sobre ter um filho negro ou indígena ou homossexual ou trans, sobre o medo da violência das pessoas e instituições sobre esse filho? Será que já contamos todas as histórias sobre o que significa ser uma mulher negra? E uma mulher indígena? E sobre mulheres ou homens trans? Será que já contamos todas as histórias sobre o sexo entre duas mulheres? E sobre o amor entre duas mulheres? Será que já contamos todas as histórias sobre aborto? Sobre aborto espontâneo de um filho desejado e sobre aborto malfeito, sobre a menina que engravida e é obrigada a ser mãe, sobre a menina que engravida? Será mesmo que todas as histórias já foram contadas?

Carola Saavedra – O Mundo Desdobrável

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O adágio, a paz e a simplicidade https://caderno.nalua.blog/2022/03/13/o-adagio-a-paz-e-a-simplicidade/ Sun, 13 Mar 2022 16:14:55 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1470 Affonso Romano de Sant’Anna

Eu queria era escrever sobre o poder de certas árias musicais, tão simples que nos esfacelam o coração. Dessas que a gente ouve e fica em pura contemplação. Dessas que a gente não tem dúvida: não foram fabricadas, não foram compostas, nasceram prontas, como pronta nasce uma flor da semente de si mesma, naturalmente.

Que força têm certas árias! Não quero citar nomes, mas não resisto e cito logo um exemplo universal: o adágio do Concerto de Aranjuez, do compositor espanhol Joaquín Rodrigo.

Não há ninguém até hoje que tenha resistido a essa música. Tenho certeza que toda vez que soam aqueles instrumentos num quebranto árabe e espanhol o mundo se torna melhor. E se conseguissem tocar esse trecho da música em todos os quarteirões do mundo, incluindo os mares e desertos, poder-se-ia dizer que num certo instante o mundo foi irremediavelmente feliz.

Há inumeráveis músicas bonitas, benfeitas e inteligentes, mas há algumas árias que a gente ouve e pensa: o homem ainda tem salvação; se alguém parecido com a gente foi capaz de fazer isto, então nem tudo está perdido.

É assim: começa a soar um concerto. Por exemplo, o Concerto 21, para piano e orquestra, de Mozart. Aí, apesar de já ser Mozart e você achar que Mozart não pode superar a si mesmo, de repente, ele parte para a maior lição de humildade, que é a aspiração de qualquer grande artista; escolhe duas ou três notinhas, que nas mãos dos inábeis passariam desapercebidas, e começa a pingá-las no piano. Começa o movimento chamado Andante. Aí, não tem jeito. Você tira o olho do livro, tira o olho das amarguras, tira o olho do desamor, esquece das dívidas, olha a natureza interior com uma forma suave e deixa a alma respirar beleza.

Um dia estava num avião sobrevoando a Transilvânia, vejam só, aquela região de vampiros, estava indo para Jerusalém e de repente o comandante anunciou que íamos ter uma turbulência e por isto era necessário apertar os cintos etc. Mas como apertar os cintos se no headphone começou a soar o Andante do Concerto para violino de Mendelssohn?

Caísse o avião, eu não estava nem aí. Anunciassem o que quisessem, toda e qualquer tragédia, há muito eu já estava nos céus entre querubins e serafins. Tenho certeza de que no dia em que Mendelssohn compôs essa parte do concerto, o Senhor, do alto de sua clemência, perdoou todos os pecados dele e de sua descendência até a quarta geração.

Não falei ainda do Adágio de Albinoni. E o que essa música já fez pelo coração dos jovens amantes, só se compara ao que Aranjuez continua inapelavelmente a fazer quando nas tardes os amantes se encontram e diluem os corações, um nas doçuras do outro.

Estou me dando conta que privilégio muito os andantes e os adágios. Devo confessar que tenho um fraco por adágios e andantes. Aí a alma da gente começa a passear num parque de folhas secas, como se estivesse num dourado outono. O adágio tem essa força, essa gravidade, essa densidade, como se estivéssemos num ritual, caminhando para alguma coisa digna que dá sentido à nossa vida. Quando começa um movimento mais ríspido e espevitado, minha alma agradece, mas quer mesmo é adágio e andante, porque o ritual harmônico das almas é que dá sentido à vida.

Algum maldoso poderia dizer: “Você está citando só musiquinhas populares dentro da música clássica”. Aí, eu exclamo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Eu também já tive minha fase de glorificar os modernos e modernosos, — e entre eles há tanta coisa que eu gosto! —, mas estou falando de uma coisa totalmente diferente, e se você não está me entendendo, finja que está, e prossigamos”.

Acho que a idade da sabedoria, ou algo que se aproxime a isto, tem muito a ver com adágios e andantes. Na Grécia, os pensadores, quando queriam pensar algo grave, saíam andando fora dos muros da cidade, a conversar, peripateticamente. Andar e conhecer, colocar a alma em ritmo de adágio, pura meditação, ainda que acompanhada.

Na infância e juventude predomina o allegro vivace. E bom para começar. Mas a alma se refestela mesmo é quando irrompe o denso e suave adágio da maturidade.

Há uma série de músicas que nos enchem tanto de vida, que dizemos: “Essa é a música que eu queria ouvir na hora de morrer”. De minha parte, já pensei até em preparar uma gravação para isto. É a única maneira de compensar a feiura dos cemitérios e suas deprimentes capelas. Seria realmente mais digno ir sendo levado por uma verde campina enquanto soassem Mozart, Mendelssohn, Bach, Albinoni, Telemann, Vivaldi e outros.

Não gosto de músicas que contrariem a natureza. E a música era outra coisa antes de o mundo conhecer a poluição industrial.

Por isto, minha amiga, toque mais uma vez o Concerto de Aranjuez na sua alma. Deite-se entre as almofadas da tarde e vá sorvendo o silêncio da noite, porque a vida é harmonia e musicalmente se ama melhor.

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O que você está lendo? https://caderno.nalua.blog/2021/10/07/o-que-voce-esta-lendo/ Thu, 07 Oct 2021 14:40:35 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1411 Todos nós fazemos muitas perguntas uns aos outros: “Onde você passou as férias?” “Como você dormiu?” Ou, minha favorita, enquanto olho os últimos pedaços de bolo de chocolate no prato de sobremesa de um amigo, “Você vai terminar isso?” (Uma pergunta apresentada de forma memorável no filme Diner de 1982.)
Mas há uma pergunta que acho que devemos fazer uns aos outros com muito mais frequência, e é “O que você está lendo?”
É uma pergunta simples, mas poderosa, e pode mudar vidas, criando um universo compartilhado para pessoas que de outra forma estão separadas por cultura e idade e por tempo e espaço.
Lembro-me de uma mulher que me disse que adorava ser avó, mas sentia-se tristemente sem contato com o neto. Ela morava na Flórida. Ele e os pais moravam em outro lugar. Ela ligava para ele e perguntava sobre a escola, sobre seu dia. Ele sempre respondia com monossílabos: Tô bem. Nada. Não.
E então um dia ela perguntou o que ele estava lendo. E ele tinha acabado de começar Jogos Vorazes, uma série de romances distópicos para jovens de Suzanne Collins. Essa avó decidiu ler o primeiro volume, para que pudesse conversar sobre isso com o neto na próxima vez ao telefone. Ela não sabia o que esperar, mas se viu fisgada nas primeiras páginas quando Katniss Everdeen se oferece para tomar o lugar de sua irmã mais nova na batalha anual até a morte entre um seleto grupo de adolescentes.

O livro ajudou esta avó a superar as superficialidades da conversa por telefone e envolver seu neto nas questões mais importantes que os humanos enfrentam sobre sobrevivência, destruição, lealdade, traição, bem e mal, e também sobre política. E ajudou seu neto a se envolver com a avó nas mesmas questões – não como uma criança que precisava de um sermão, mas como um companheiro de busca. Isso lhe deu uma linguagem para discutir questões nas quais ele estava pensando, sem ter que explicar por que esses temas lhe importavam.
Quando falavam sobre Jogos Vorazes, eles não eram mais apenas avó e neto: eram dois leitores que embarcaram em uma jornada juntos. Agora seu neto mal podia esperar para falar com ela quando ela ligasse – para dizer onde ele estava, para descobrir onde ela estava e para especular sobre o que aconteceria a seguir.
Os Jogos Vorazes deram-lhes inspiração para discussões mais profundas do que nunca, e forneceu-lhes uma riqueza de sugestões para suas conversas. O livro até os levou a falar sobre tópicos que incluíam desigualdade econômica, guerra, privacidade e mídia. À medida que continuaram lendo e falando sobre outros livros, descobriram que tinham uma linguagem comum em constante expansão: seu “vocabulário” era composto de todos os personagens, ações e descrições em todos os livros que liam, e eles podiam usá-los para transmitir seus pensamentos e sentimentos.

Além do acidente de ser da mesma família, eles nunca tiveram muito em comum. Agora tinham.

Quando nos perguntamos “O que você está lendo?” às vezes descobrimos como somos semelhantes; às vezes as maneiras como somos diferentes. Às vezes, descobrimos coisas que nunca soubemos que compartilhávamos; outras vezes, nos abrimos para explorar novos mundos e ideias. “O que você está lendo?” não é uma pergunta simples quando feita com curiosidade genuína; é realmente uma maneira de perguntar: “Quem é você agora e quem você está se tornando?”

Books for Living – Will Will Schwalbe

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Dani Querida https://caderno.nalua.blog/2021/09/12/dani-querida/ Sun, 12 Sep 2021 01:01:11 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1398 Tenho pensado muito em escrever. Não exatamente no que vou escrever e sim no ato de escrever.
Escrever é registrar.
Registrar é olhar em volta ou para dentro e ver e observar e analisar e sentir e perceber e conjecturar e projetar e racionalizar e enumerar e resumir e narrar e repetir-para-elaborar e planejar e compor e bolar planos infalíveis, resenhas infernais, súmulas inquietantes, relatos coloridos, listas comoventes.
Registro é o que nos define.
Somos os caras que registram.
Antes da escrita registramos entalhando ossos e desenhando nas paredes de cavernas e nas superfícies das rochas, espalhando flores em torno dos corpos sepultados de nossos entes queridos, produzindo utensílios e tratando peles de animais.
Depois da escrita, inventando símbolos, alfabetos rebuscados, tomos e mais tomos gramaticais e regras ilógicas sobre o uso do hífen em plaquinhas de argila, pergaminhos e papel de carta da Hello Kitty.

Somos os caras que registram com nossos celulares, nossas publicações independentes, caderninhos de capa florida, guardanapos de boteco, nossos sites e nossa indignação seletiva aqui e ali na rede social.

– Quem são aqueles caras ali? – vai perguntar alguém de passagem pelo planeta.
– São os caras do registro – responderá o outro E.T. – Eles relatam o que veem e sentem, anotam e desenham, costuram e modelam, escrevem e solfejam, pintam as paredes mesmo sabendo que vão apanhar quando pai chegar em casa. Eles fotografam o risoto feio para o Instagram, gravam áudios de oito minutos para a Iza, guardam o sapatinho do bebê para muito depois que o bebê partir daquele mundo, produzem livros, colam recortes em caderninhos fofos, sobem cartas de amor para a nuvem, escrevem recados dolorosos enquanto ouvem o coração trincar e a chuva cair no meio da madrugada.

Escolha uma coisa, Dan, uma coisa perto de você, e registre. Do jeito que você puder ou quiser. Com palavras, imagens, desenhos ou voz (vamos evitar, por enquanto, os ossos entalhados, meu bem).
Faça seu registro, mande para mim.
Vamos começar hoje as nossas aulas de redação?
Fal

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Como Tomar Um Sorvete https://caderno.nalua.blog/2021/09/09/como-tomar-um-sorvete/ Thu, 09 Sep 2021 11:47:43 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1392 Umberto Eco

Quando eu era pequeno, compravam-se dois tipos de sorvete para as crianças, vendidos em carrocinhas brancas com teto prateado: as casquinhas de dez centavos ou o biscoito de vinte. As casquinhas de dez centavos eram mínimas, cabiam perfeitamente na mão de uma criança e se confeccionavam tirando o sorvete do balde com a concha adequada e acumulando-o em cima do cone de massa. As avós nos aconselhavam a só comer uma parte da casquinha, jogando fora o fundo em ponta, porque havia sido tocado pela mão do sorveteiro (no entanto, era esta a parte melhor e mais crocante, todos a comiam escondidos, fingindo tê-la jogado fora).
O biscoito de vinte centavos, a cialda, era confeccionado com um aparelho especial, também prateado, que comprimia duas superfícies circulares de massa contra uma seção cilíndrica de sorvete. Fazia-se correr a língua pelo interstício até ela não conseguir mais alcançar o núcleo central do sorvete, e a essa altura se comia tudo, pois as superfícies já estariam moles e devidamente impregnadas do néctar. As avós não tinham nada a dizer; em teoria, os biscoitos só tinham contato direto com a máquina: na prática o sorveteiro os pegava com as mãos para entregá-los, mas era impossível identificar a zona infectada.
Eu sentia grande fascínio por alguns coetâneos meus cujos pais adquiriam não um biscoito de vinte centavos, mas duas casquinhas de dez. Estes privilegiados saíam desfilando orgulhosos com um sorvete na mão direita e outro na esquerda e, movendo com agilidade a cabeça, lambiam ora um ora outro. Esta liturgia me parecia tão suntuosamente invejável que muitas vezes pedi para poder celebrá-la. Em vão. Meus pais eram inflexíveis: um sorvete de vinte centavos sim, mas dois de dez centavos absolutamente não.
Como todos podem ver, nem a matemática, nem a economia e nem a dietética justificavam esta recusa. E nem mesmo a higiene, contanto que depois se jogassem fora as extremidades dos dois cones. Uma piedosa justificação argumentava, na verdade falaciosamente, que um menino ocupado em ficar correndo os olhos de um sorvete para o outro estaria mais inclinado a tropeçar em pedras soltas, degraus ou irregularidades quaisquer do calçamento. De maneira obscura, eu intuía que devia haver algum outro motivo, cruelmente pedagógico, do qual porém não conseguia me dar conta.
Hoje, habitante e vítima de uma sociedade de consumo e do desperdício (o que certamente não era o caso dos anos trinta), compreendo que aqueles meus entes queridos, hoje desaparecidos, estavam com a razão. Dois sorvetes de dez centavos em lugar de um de vinte não eram economicamente um desperdício, mas sem dúvida o eram simbolicamente. Por isso mesmo eu os desejava tanto: porque dois sorvetes sugeriam um excesso. E era justamente por isso que me eram negados: porque parecia uma indecência, um insulto à miséria, uma ostentação de privilégio fictício, um luxo injustificado. Só tomavam dois sorvetes as crianças estragadas, aquelas que eram justamente castigadas nas histórias, como Pinóquio quando desprezava a casca e o talo da maçã. E os pais que encorajavam esta fraqueza dos pequenos parvenus educavam os filhos no teatro idiota do “quero-mas-não-posso”, ou então os estavam preparando, como diríamos hoje, para se apresentarem ao check-in da classe turística portando um falso Gucci comprado num camelô da beira da praia de Rimini.
Este apólogo corre o risco de parecer desprovido de moral, num mundo onde a sociedade de consumo tenta estragar também os adultos, e lhes promete sempre algo a mais, do reloginho incluído na embalagem à medalha oferecida para quem comprar a revista. Como os pais daqueles glutôes ambidestros que eu tanto invejava, a sociedade de consumo finge dar mais, mas na verdade dá por vinte centavos aquilo que vale vinte centavos. Jogamos fora o rádio velho para comprar o que promete também um toca-fitas auto-reverse, mas algumas inexplicáveis fraquezas da estrutura interna fazem com que o novo rádio dure somente um ano. O novo carro econômico tem assentos de couro, dois espelhos laterais reguláveis do interior e o painel em madeira, mas durará muito menos que a gloriosa Fiat 500 que, mesmo quando quebrava, sempre voltava a funcionar com um pontapé.
Mas a moral daqueles tempos queria que fôssemos todos espartanos, e a de hoje quer nos transformar a todos em sibaritas.

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Carta de amor de Richard Feynman https://caderno.nalua.blog/2021/09/01/carta-de-amor-de-richard-feynman/ Wed, 01 Sep 2021 00:51:44 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1382 Richard Feynman, um dos pais da bomba atômica, escreve em 1946 à sua esposa, Arline Greenbaum, falecida 16 meses antes:

“Cara Arline,

Eu adoro você, querida.

Eu sei como você gosta de me ouvir, mas escrevo não apenas para agradá-la. Escrevo porque isso inunda de calor meu interior. Não escrevi por muito tempo, quase 2 anos. Mas sei que você vai me perdoar, um inveterado pragmático. Achava que não havia sentido algum em escrever para você.

Mas agora, minha querida esposa, sei que devo fazer aquilo que adiei por muito tempo e que, com tanta frequência, fazia no passado. Quero dizer que amo você. Quero amá-la. Sempre a amarei.

Com minha mente é difícil entender o que significa amá-la depois de morta, mas até agora quero protegê-la e cuidar de você. E eu quero que me ame e cuide de mim. Eu quero falar com você sobre os meus problemas. Eu quero fazer coisas diferentes com você. Até agora, isso nunca tinha me acontecido. Mas poderíamos fazer muitas coisas juntos: costurar roupas, aprender chinês, comprar um projetor de filmes. E agora, posso fazer isso? Não, estou tão sozinho sem você. Você foi o principal gerador de ideias e a fonte de inspiração para todas as minhas loucas aventuras.

Quando estava doente, você se preocupava por não ser capaz de me dar o que eu precisava, o que queria me dar. Você não deveria ter se preocupado. Não havia necessidade disso. Eu sempre disse que a amava muito, simplesmente por existir. E agora entendo isso mais do que nunca. Você não pode me dar mais nada e eu amo tanto você que nunca poderei amar outra pessoa. E eu quero que seja assim. Porque até morta você é muito melhor do que todos os vivos.

Eu sei que você vai dizer que sou um tolo e quer que eu seja feliz, sem se interpor no meu caminho. Provavelmente ficará surpresa ao saber que, durante esses 2 anos, eu não tive sequer uma namorada (exceto você, minha amada). E você não pode fazer nada a respeito. Eu também não posso. Não entendo nada. Conheci muitas garotas, incluindo algumas muito simpáticas, e não quero ficar sozinho, mas depois de alguns encontros, percebi que elas não significavam nada para mim. Eu só tenho você. Você é real.

Minha querida esposa, eu adoro você.
Eu amo a minha esposa. Minha esposa morreu.

Rich

P.S: Perdoe-me, por favor, por não ter lhe enviado esta carta: não sei seu novo endereço”.

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