crônica – Caderno https://caderno.nalua.blog My WordPress Blog Wed, 08 Feb 2023 19:07:54 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 https://caderno.nalua.blog/2023/02/08/a-vida-nao-se-interessa/ https://caderno.nalua.blog/2023/02/08/a-vida-nao-se-interessa/#respond Wed, 08 Feb 2023 19:07:54 +0000 https://caderno.nalua.in/?p=1695 A vida não se interessa pelo bem nem pelo mal. Dom Quixote estava sempre escolhendo entre o bem e o mal, mas fazia essas escolhas no seu estado de sonho. Ele era maluco. Só entrava na realidade quando estava tão ocupado tentando lidar com as pessoas que não tinha tempo de distinguir entre o bem e o mal. Como as pessoas só existem na vida, precisam dedicar seu tempo apenas a estarem vivas. A vida é movimento, e o movimento está ligado àquilo que faz com que o homem se movimente — que é a ambição, o poder, o prazer. O tempo que um homem pode dedicar à moralidade, ele sempre o terá de arrancar à força do movimento do qual faz parte. Ele é compelido a fazer escolhas entre o bem e o mal, cedo ou tarde, porque a consciência moral exige isso dele, para que ele possa continuar a viver consigo mesmo no dia seguinte. Sua consciência moral é a maldição que ele tem de aceitar dos deuses, a fim de obter deles o direito de sonhar.

William Faulkner – Entrevista à Paris Review – A arte da ficção 12

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A Surpresa https://caderno.nalua.blog/2022/05/25/a-surpresa/ https://caderno.nalua.blog/2022/05/25/a-surpresa/#respond Wed, 25 May 2022 20:10:01 +0000 https://caderno.nalua.in/?p=1676 Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.

Crônica extraída do livro: A Descoberta do Mundo – Clarice Lispector

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dies irae https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/dies-irae/ Fri, 08 Apr 2022 18:42:20 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1530 “DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. (…) E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação.”

Clarice Lispector, in: Todas as Crônicas. — Editora: Rocco, 2018, pág. 29.

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Para Maria da Graça https://caderno.nalua.blog/2022/04/01/para-maria-da-graca/ Fri, 01 Apr 2022 20:12:56 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1508  

Crônica de Paulo Mendes Campos

Agora que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões.

Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.


Publicado pela primeira vez na Revista Manchete 588

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O adágio, a paz e a simplicidade https://caderno.nalua.blog/2022/03/13/o-adagio-a-paz-e-a-simplicidade/ Sun, 13 Mar 2022 16:14:55 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1470 Affonso Romano de Sant’Anna

Eu queria era escrever sobre o poder de certas árias musicais, tão simples que nos esfacelam o coração. Dessas que a gente ouve e fica em pura contemplação. Dessas que a gente não tem dúvida: não foram fabricadas, não foram compostas, nasceram prontas, como pronta nasce uma flor da semente de si mesma, naturalmente.

Que força têm certas árias! Não quero citar nomes, mas não resisto e cito logo um exemplo universal: o adágio do Concerto de Aranjuez, do compositor espanhol Joaquín Rodrigo.

Não há ninguém até hoje que tenha resistido a essa música. Tenho certeza que toda vez que soam aqueles instrumentos num quebranto árabe e espanhol o mundo se torna melhor. E se conseguissem tocar esse trecho da música em todos os quarteirões do mundo, incluindo os mares e desertos, poder-se-ia dizer que num certo instante o mundo foi irremediavelmente feliz.

Há inumeráveis músicas bonitas, benfeitas e inteligentes, mas há algumas árias que a gente ouve e pensa: o homem ainda tem salvação; se alguém parecido com a gente foi capaz de fazer isto, então nem tudo está perdido.

É assim: começa a soar um concerto. Por exemplo, o Concerto 21, para piano e orquestra, de Mozart. Aí, apesar de já ser Mozart e você achar que Mozart não pode superar a si mesmo, de repente, ele parte para a maior lição de humildade, que é a aspiração de qualquer grande artista; escolhe duas ou três notinhas, que nas mãos dos inábeis passariam desapercebidas, e começa a pingá-las no piano. Começa o movimento chamado Andante. Aí, não tem jeito. Você tira o olho do livro, tira o olho das amarguras, tira o olho do desamor, esquece das dívidas, olha a natureza interior com uma forma suave e deixa a alma respirar beleza.

Um dia estava num avião sobrevoando a Transilvânia, vejam só, aquela região de vampiros, estava indo para Jerusalém e de repente o comandante anunciou que íamos ter uma turbulência e por isto era necessário apertar os cintos etc. Mas como apertar os cintos se no headphone começou a soar o Andante do Concerto para violino de Mendelssohn?

Caísse o avião, eu não estava nem aí. Anunciassem o que quisessem, toda e qualquer tragédia, há muito eu já estava nos céus entre querubins e serafins. Tenho certeza de que no dia em que Mendelssohn compôs essa parte do concerto, o Senhor, do alto de sua clemência, perdoou todos os pecados dele e de sua descendência até a quarta geração.

Não falei ainda do Adágio de Albinoni. E o que essa música já fez pelo coração dos jovens amantes, só se compara ao que Aranjuez continua inapelavelmente a fazer quando nas tardes os amantes se encontram e diluem os corações, um nas doçuras do outro.

Estou me dando conta que privilégio muito os andantes e os adágios. Devo confessar que tenho um fraco por adágios e andantes. Aí a alma da gente começa a passear num parque de folhas secas, como se estivesse num dourado outono. O adágio tem essa força, essa gravidade, essa densidade, como se estivéssemos num ritual, caminhando para alguma coisa digna que dá sentido à nossa vida. Quando começa um movimento mais ríspido e espevitado, minha alma agradece, mas quer mesmo é adágio e andante, porque o ritual harmônico das almas é que dá sentido à vida.

Algum maldoso poderia dizer: “Você está citando só musiquinhas populares dentro da música clássica”. Aí, eu exclamo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Eu também já tive minha fase de glorificar os modernos e modernosos, — e entre eles há tanta coisa que eu gosto! —, mas estou falando de uma coisa totalmente diferente, e se você não está me entendendo, finja que está, e prossigamos”.

Acho que a idade da sabedoria, ou algo que se aproxime a isto, tem muito a ver com adágios e andantes. Na Grécia, os pensadores, quando queriam pensar algo grave, saíam andando fora dos muros da cidade, a conversar, peripateticamente. Andar e conhecer, colocar a alma em ritmo de adágio, pura meditação, ainda que acompanhada.

Na infância e juventude predomina o allegro vivace. E bom para começar. Mas a alma se refestela mesmo é quando irrompe o denso e suave adágio da maturidade.

Há uma série de músicas que nos enchem tanto de vida, que dizemos: “Essa é a música que eu queria ouvir na hora de morrer”. De minha parte, já pensei até em preparar uma gravação para isto. É a única maneira de compensar a feiura dos cemitérios e suas deprimentes capelas. Seria realmente mais digno ir sendo levado por uma verde campina enquanto soassem Mozart, Mendelssohn, Bach, Albinoni, Telemann, Vivaldi e outros.

Não gosto de músicas que contrariem a natureza. E a música era outra coisa antes de o mundo conhecer a poluição industrial.

Por isto, minha amiga, toque mais uma vez o Concerto de Aranjuez na sua alma. Deite-se entre as almofadas da tarde e vá sorvendo o silêncio da noite, porque a vida é harmonia e musicalmente se ama melhor.

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https://caderno.nalua.blog/2021/06/16/sempre-fui-metido/ Wed, 16 Jun 2021 17:27:53 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1270 Sempre fui metido a ser artista e, pra ser sincero, a maior parte da vida isso me constrangeu. Primeiro que não pegava bem, coisa de gente desajuizada, segundo, que direito eu tinha? É coisa de quem tá querendo ser – era o diagnóstico. Ah lá o menino, querendo ser. Dessas coisas de artista meu pai tinha um nome: brincadeira sem futuro. Ah lá o menino, cas brincadeira sem futuro.
Querendo ser de cantar, de imitar ator, de imitar os bicho, de desenhar cidade com bloco vermelho no chão do quintal e inventar uma história pra cada pessoa, que na verdade eram pedrinhas que eu riscava uns quadrados em volta e chamava de casas. Quer dizer, eu não só tinha o problema de querer ser, como ainda inventava de querer que as coisas sejam.
Isso de querer que as coisas sejam é donde vem as artes tudo. Nesse ponto todo mundo tem um lado metido a artista. Basta dizer que o amor é uma brincadeira sem futuro. Aliás, o futuro é um lugar pros economistas e pras baratas (não necessariamente nesta ordem). Se bem que pode não ser, porque como disse, tem gente, muita gente, ainda querendo que as coisas sejam. Vai saber.
Um dia eu descobri um novo chão de quintal, se chama livro. Ali dá pra botar toda sorte de brincadeira sem futuro e, por falar nisso, se chama “Os Dias Antes de Nenhum” o meu segundo que será lançado muito, muito, muito em breve.
Torço pra que vocês visitem o próprio quintal de vez em quando, torço pra que ainda queiram ser e torço pra que ainda queiram que as coisas sejam.
Ricardo Terto

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