manancial – Caderno https://caderno.nalua.blog My WordPress Blog Fri, 15 Apr 2022 02:06:35 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 Nostos https://caderno.nalua.blog/2022/04/15/nostos/ Fri, 15 Apr 2022 02:06:35 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1540

Havia uma macieira no quintal –
isso teria sido há
quarenta anos – nos fundos,
apenas prados. Excesso
de crocus na relva úmida
Eu estava naquela janela:
fim de abril. Flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, realmente, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, nem antes
nem depois? Substituição
do imutável
por transformação, por evolução.
Substituição da imagem
pela terra implacável. O que
sei eu deste lugar,
o papel que foi da árvore por décadas
desempenhado por um bonsai, vozes
subindo das quadras de tênis –
Campos. Cheiro de grama alta, recém
cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Nós vemos o mundo uma única vez, na infância.
O resto é memória.

GLÜCK, Louise. “Nostos”. In: Poems 1962-2012.

New York: Farrar, Straus and Giroux, 2013.

[Tradução: Nelson Santander]

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https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/19-2/ Fri, 08 Apr 2022 19:44:35 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=19 um

o pneu da bicicleta
a gente enchia de palha quando furava
palha que também era o recheio
do colchão da cama dos meus pais
que não rangia porque
eles mal se mexiam à noite
às vezes apenas talvez quase nunca porque o pai
não chegava à noite
chegava sem dar bom dia
a mãe não dormida de espera já passava o café
ralo como os cabelos
que prendia sempre acordada
a mãe não fazia nenhum barulho
como a cama em que durmo hoje
quando me mexo o tempo inteiro investigando aquele tempo
ralo como as alegrias
da mãe que sorria pra dentro quando a gente chegava
pra jantar a sopa lembrava aquele tempo seco
minha mãe fazia que não era com ela
que nunca existia antes de mudar dali
sozinha com a gente e a bicicleta
cantando

dois

a mãe saiu com a gente
ninguém de nós sabia pra onde
mas a gente ia grudado
nela que ia grudada em nada era o que
a gente pensava
miúdo calado
seguindo o passo depois
o outro passo fomos
até aonde a mãe conseguiu chegar

a gente não sabia
nem eu nem ninguém soube
a mãe chegou sozinha
onde estamos hoje bem

três

a mãe morreu num dia
qualquer não fosse porque ela morreu seria
um dia qualquer

a gente saía cedo e voltava tarde
todos os dias eram como aquele mas de repente
voltamos cedo
voltamos correndo
na hora em que íamos alguém foi dar um
beijo na mãe dura
abaixada no banco do canto
da cozinha que não tínhamos terminado de fazer
a janela ainda não era janela
o chão ainda era batido
como meu irmão mais velho bateu as mãos na parede sem tinta
com dor
e com as mãos vermelhas mandou que chamássemos o padre
imediatamente ela tinha religião
corremos o padre correu choramos o padre rezou
ela continuava morta
nós sem fome sem frio sem sede
como estávamos bem desde que
ela saiu e a gente saiu com ela de lá

onde ela não existia
de manhã minha mãe foi enterrada sorrindo
à noite entendemos

a mãe já não é
mas sempre
é mãe não há o que fazer a gente se lembra
da sopa do vestido estampa de flor tenho certeza
estopa ou véu na caminhada?
não lembro, era quente e fazia muito sol
tínhamos fome
não temos mais
o que ela mais
gostava do quê?
nunca a gente soube
mas cantava, isso a gente ouvia ela escondida no quintal miúda
moída na voz grande

quatro

Não era mais
preciso nós quatro
ficarmos
no mesmo
(cabia um pouco de nós)
no quarto
da mãe
que não ia mais dormir e acordar ali

a gente foi arrumar
as coisas da mãe
choramos

a gente começou pelo armário
tiramos os vestidos
eram apenas três______duas saias duas blusas
como ela podia estar vestida
todo dia com apenas
aquelas roupas no varal procuramos
não havia nada da mãe só a gente
pendurado como saíamos de dia e de noite
a mãe não saía
de noite de dia
ia às vezes ao mercadinho
às vezes à padaria
às vezes ao correio a gente nunca soube
o que ela ia fazer no correio
a gente limpou o armário
colocamos as roupas da mãe e três sapatos num saco
o padre veio buscar

embaixo da cama
uma caixa de papelão
estava escrito polpa de tomate etti
tinha muita coisa lá dentro

cinco

um cordãozinho dourado com uma menina pendurada
uma vela de quando marilsa fez a primeira comunhão
um recorte de jornal de quando o zeca se apresentou na cidade com a banda da escola
a aliança riscada
de que?
uma foto borrada de quando fomos na cidade comprar a bicicleta
dois terços
uma conta barata vermelha que ninguém soube de onde caiu
muitas cartas escritas para meu pai
dizendo onde estávamos como estávamos
com ela seladas
com endereço e tudo
uma redação minha da escola sobre o calor daquela terra que ferve em mim
até hoje

me mexo
a noite e minha cama rangem
sofro depois que entendi minha mãe
Constança Guimarães | poema do livro Como se a gente conseguisse medir o tamanho do escuro (Editora Urutau, no prelo). |
https://revistagueto.com/2020/10/16/poema-inedito-de-constanca-guimaraes/

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https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/mae-miguel-torga/ Fri, 08 Apr 2022 18:46:17 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1534 Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti – não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

S. Martinho de Anta, 1 de Junho


Miguel Torga – Diário IV

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https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/1532-2/ Fri, 08 Apr 2022 18:43:30 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1532 “E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente -tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?”

Que saudade do Grande Sertão

O que demaseia na gente é a força feia do sofrimento, própria, não é a qualidade do sofrente.

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dies irae https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/dies-irae/ Fri, 08 Apr 2022 18:42:20 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1530 “DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. (…) E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação.”

Clarice Lispector, in: Todas as Crônicas. — Editora: Rocco, 2018, pág. 29.

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Uma Palavra https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/uma-palavra/ Fri, 08 Apr 2022 18:40:23 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1528 Eu tenho uma palavra na garganta
e não a solto, não me livro dela,
apesar de seu ímpeto de sangue.
Se eu a solto, ela queima o pasto vivo,
sangra o cordeiro, faz cair o pássaro.

De minha língua devo desprendê-la,
encontrar-lhe uma toca de castores,
ou sepultá-la com argamassa e cal,
para não alçar voos como a alma.

Eu não quero dar mostras de estar viva,
enquanto ela em meu sangue vai e vem
e sobe e desce por meu louco alento.
Embora Jó, fremente, a tenha dito,
não quer dizê-la minha pobre boca,
a fim de que não role e não se enrede
nas tranças das mulheres que a encontrem,
e a fim de que não torça ou queime o mato.

Quero lançar-lhe sólidas sementes
que, numa noite, vão cobri-la toda,
sem deixar dela o cisco de uma sílaba.
Ou então vou quebrá-la, como a víbora
que se parte em metades entre os dentes.

E voltar a meu lar, entrar, dormir,
já destacada e separada dela,
e despertar depois de dois mil dias,
renascida de sono e esquecimento.

Sem saber – ai! – que tive uma palavra
de iodo e pedra-ume entre meus lábios,
e sem poder lembrar-me de uma noite,
de um país estrangeiro e de uma casa,
e da cilada e do infortúnio à porta,
e de meu corpo a caminhar sem alma.

Gabriela Mistral


Tradução de Ruth Sylvia de Miranda Salles. In: MISTRAL, Gabriela; MEIRELES, Cecília. Poemas

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Saldo Negativo https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/saldo-negativo/ Fri, 08 Apr 2022 18:35:45 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1526 Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês

e isto não são versos; isto são débitos
numa conta sem provisão do Ocidente.


Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha.
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Quando eu for pequeno mãe https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/quando-eu-for-pequeno-mae/ Fri, 08 Apr 2022 18:29:21 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1523

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in “O Livro Branco da Melancolia”

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https://caderno.nalua.blog/2022/04/08/1521-2/ Fri, 08 Apr 2022 18:14:32 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1521 e, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho,
e se um outro acordou inseto na mente de um escritor,
e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu,
e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz,
e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários,
tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol”

João Anzanello Carrascoza In: Caderno de Um Ausente

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Mãe, eu quero ir-me embora https://caderno.nalua.blog/2022/04/06/mae-eu-quero-ir-me-embora/ Wed, 06 Apr 2022 16:00:42 +0000 http://manancial.nalu.in/?p=1517

Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira “Mãe, eu quero ir-me embora” in O Canto do Vento nos Cipestres (2001)

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